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Tudo é feito de gente
#14

Tudo é feito de gente

DIVERSIDADEConvidados:

Barbara Lima - Coordenadora de Comunicação e Diversidade na Mutato

Marco Ornellas - Consultor em Desenvolvimento Organizacional, Coach, Palestrante, Designer e Escritor residente

Sobre:

Provavelmente você já ouviu aquela frase "Para ser valorizado, é preciso valorizar". Pois é, ela se aplica no mundo corporativo também. Falar de mudança social, tomar atitudes e pensar no trabalhador como um ser humano e não como recurso é fundamental, pois tudo é feito de gente para gente! Ana Paula Xongani e Ricardo Morais recebem Bárbara Lima, Coordenadora de Comunicação e Diversidade na Mutato, e Marco Ornellas, Consultor e Psicólogo, para um bate-papo superimportante sobre o olhar do mercado de trabalho para as pessoas e as diversidades. Para isso, precisamos entender: está faltando propósito verdadeiro para as empresas? As campanhas da Magazine Luiza, com o programa de trainee para negros, e do Burguer King, que fez doação para ONGS LGBTQIA+, mostraram como as marcas estão olhando cada vez mais para causas legítimas. Fique esperto que ainda vamos falar dos problemas com a licença maternidade, visibilidade para o profissional com deficiência, leis de cotas e muito mais! Então, chega junto, aperte o play e vem com a gente nesta conversa!

Tudo é feito de gente
Transcrição:

Ana Paula Xongani – Entre escravidão e trabalhos abusivos, a exploração da força de trabalho das minorias é algo histórico e tem consequências que afetam e a cultura até os dias de hoje. Com a chegada da Revolução Industrial, a tecnologia gerou uma transformação jamais vista na economia mundial. As grandes máquinas que ocupavam a linha de produção das fábricas serviram para acelerar os processos ao mesmo tempo que diminuíram salários, aumentaram as jornadas e minaram a qualidade de vida da maior parte dos trabalhadores. Porém, com a união dos trabalhadores da época, os empregadores tiveram que a encarar a verdade: funcionários são muito mais do que simples mão-de-obra. Empresas são feitas por pessoas com sentimentos, famílias, paixões, estilos e sonhos que prestam algum tipo de serviço para outras pessoas com outros sentimentos, diversos tipos de famílias, paixões, jeitos e objetivos. Como nossos colegas de trabalho, pessoas com que passamos a maior parte do nosso dia, são considerados por muitos uma segunda família, a importância de um ambiente de trabalho saudável é fundamental para que essa família permaneça unida, funcional, feliz e realizando seu trabalho para outras famílias. Pensar no trabalhador como um ser humano e não como recurso é fundamental, pois tudo é feito de gente para gente.

Ana Paula Xongani – Vamos começar o Trampapo de hoje, eu sou Ana Paula Xongani, eu sou Empresária, criadora de conteúdo, Apresentadora e mãe. E como o Trampapo pretende ser um podcast inclusivo, ele também é acessível, por isso se você precisar e quiser, você pode conferir a transcrição do programa em texto ou em Libras no nosso site. Eu já me apresentei, mas agora eu vou fazer minha autodescrição. Os convidados também vão fazer. Eu sou Ana Paula Xongani, sou uma mulher preta, de olhos castanhos, agora careca e corpo volumoso. Rick.

Ricardo Morais – Olá, pessoal. Ricardo Morais, eu sou Executivo de Marketing da Catho, vou fazer minha autodescrição. Eu sou branco, de cabelos curtos pretos, a barba agora está bem mais curta, então o branco aparece menos, estou com menos cara de Papai Noel. Agora com vocês tem os nossos dois convidados. Primeiro queria falar com o Marco. Marco se apresenta para a gente.

Marco Ornellas – Olá, eu sou Marco Ornelas, Consultor Psicólogo, a minha descrição é: eu sou da terceira idade, né, 63 anos, grisalho, absolutamente, inteiramente grisalho, barba e cabelo grisalho, inquieto, apesar da idade, e absolutamente aderente aos novos tempos. É um prazer estar aqui com vocês.

Ana Paula Xongani – Bem-vindo, Marco.

Ricardo Morais – Bárbara. Vem Bárbara.

Bárbara Lima – Gente, preciso parabenizar por essa transcrição, acho ótimo ser inclusivo dessa forma, então vou me apresentar. Sou a Bárbara Lima, eu sou Coordenadora, estou Coordenadora de Comunicação e Cultura na Catho. Eu sou uma mulher negra, alta, tenho cabelos cacheados e volumosos, e uso óculos, por enquanto.

Ana Paula Xongani – Maravilhoso. Todos apresentados e vamos começar nosso bate-papo de hoje. Para começar, vou trazer um dado aqui para a gente, em 2018, um grupo australiano, The Betweens, criou a iniciativa 100% Human at Work, um programa voltado a ajudar as empresas para parar de focar exclusivamente no lucro e ajudar elas a pensarem em alcançar o maior potencial. Para isso é necessário focar em cinco tópicos fundamentais: igualdade, respeito, crescimento, pertencimento e propósito.

Ricardo Morais – Bom, entre essas discussões, nós temos algumas questões como princípio do futuro do trabalho. Como se preparar para o futuro do trabalho? É superimportante, como é que a gente prepara para o futuro, por mais que seja difícil a gente saber o que é o futuro nos dias de hoje. Experimentos com uma semana de quatro dias trabalhados, então não mais os cinco dias, ganha um pouquinho mais de dia para a gente ter, né. Integração e inclusão, como pensar a inclusão todos os dias, não só quando chegam datas comemorativas que a gente sabe bem o que acontece. A visão para futuras lideranças indígenas.

Ana Paula Xongani – É isso, muita gente que está ouvindo nosso podcast agora, deve estar pensando: mas gente, será que em pleno século XXI a gente ainda precisa falar disso? Será que ainda existe hoje empresas que não contratariam, por exemplo, uma pessoa LGBTQIA+? E aí a minha pergunta vem para vocês dois: qual é o impacto da iniciativa como essa das 100% Human at Work, tem no mercado de trabalho, e se existe iniciativas parecidas ou iniciativas pró ao mercado de trabalho aqui no Brasil?

Marco Ornellas – É, esse movimento, eu acho que assim, é importante a gente denunciar, Ana Paula, vários movimentos que estão acontecendo no mundo, e então você citou um em 2018, a gente poderia falar de vários outros que começaram acontecer nessa mesma época ou até no ano passado, e vem acontecendo até agora. A gente tem declarações fortes nos Estados Unidos, de CEOs discutindo o capitalismo, a gente tem jornais europeus discutindo o que é a necessidade de a gente dar um reset nesse capitalismo. Esse ano a gente começou uma iniciativa legal do Imperative Twenty-One, também discutindo esse conceito do capitalismo, as empresas Bês, capitalismo consciente, enfim, nós temos vários movimentos, eles não estão localizados num único segmento ou setor. Aqui mesmo no Brasil, a gente tem visto agora, bem recente, empresários e ativistas e especialistas, estudiosos, cientistas, até mesmo em momentos anteriores opostos em cadeiras opostas, se unindo para discutir com o governo, por exemplo, sobre a questão do desmatamento, das queimadas, enfim. Então o que nós estamos percebendo é que é como se a gente tivesse rediscutindo valores, valores dessa sociedade. Os valores que nos trouxeram até aqui e nem podemos bater muito nele, né, o capitalismo que nos trouxe até aqui, porque eles nos deu uma longevidade maior, ele apesar da pobreza, ele diminuiu muito a pobreza, enfim. Agora é evidentemente que não é este modelo que nós vamos levar para frente, então eu acho muito legal esse movimento que você fala, e ele até tem um certo paradoxo, porque quando eu falo 100% humano nas empresas, no trabalho, assim, eu até costumo dizer, a gente deixou de ser humano há muito tempo, né, a gente está longe de dizer que as nossas empresas são humanizadas, não são humanizadas.

Bárbara Lima – Esses pontos que vocês trouxeram, me fizeram pensar aqui algumas coisas, né. Eu vejo muita inclusão como uma coisa que está acontecendo nesse sentido mesmo que você falou, as empresas estão olhando para o lucro, né, Ricardo, assim, como que eu vou me adaptar a esse momento em que a sociedade pensa nesse momento de inclusão, de diversidade, então como que eu vou me adaptar, eu como empresa, para conseguir gerar mais lucro, para conseguir vender mais, para conseguir alcançar mais consumidores. Quando na verdade, essa mudança só vai acontecer de fato quando ela for vista com um propósito, como a Xongani bem falou aqui. Se a gente não tem a liderança comprometida em fazer essa mudança, por mais que a gente veja as políticas e replique dentro do nosso ambiente, quando as pessoas chegam lá dentro, elas continuam sofrendo os mesmos ataques, sofrendo as mesmas dificuldades e enfrentando as mesmas barreiras. Então eu acho que é importante a gente pensar assim nesse sentido, de como que a gente usa a diversidade para atrelada ao nosso propósito, isso vai gerar lucro no final, é um resultado e não um olhar principal, assim, eu diria.

Ana Paula Xongani – Rick, Marco e Bárbara, será que a gente está chegando à conclusão aqui nesse pod que as empresas precisam de novos propósitos, rever os seus propósitos ou até construir verdadeiramente seus propósitos? Está faltando propósito para as empresas, será que é isso?

Marco Ornellas – Ana Paula, eu puxaria já rapidamente te dizendo, eu acho que está faltando propósito para a sociedade, para a humanidade. A empresa é um reflexo da sociedade.

Bárbara Lima – Você acha que vai na linha da humanização que você falou, não é, Marco? A gente até pensando aqui na forma como a gente se apresentou, oi, tudo bem, eu sou a Bárbara, eu estou como Coordenadora de fulano de tal, a gente coloca a empresa como um papel muito significativo na nossa vida, quando a gente também é uma multiplicidade de fatores, uma soma de outros aspectos que formam também o nosso propósito pessoal, e no final as empresas são formadas por pessoas. Um professor que eu tenho muito carinho por ele, ele me questionou num trabalho que eu estava fazendo, e eu acho que é um questionamento que eu trago para cá, não tenho uma resposta, porque o trabalho está em construção ainda, mas de como a diversidade está sendo olhada pelas empresas, se é um fator de como ela vai ser apresentada para os acionistas, então está ligada à sustentabilidade, à governança, mas focada em como eu vou apresentar esse resultado para os acionistas, para quem coordena a empresa, ou se ela é um resultado da responsabilidade social e corporativa, de como ela, a empresa enxerga o ambiente onde ela está inserida, como que aquilo vai impactar no trabalho e na qualidade do que ela está oferecendo, no bem-estar dos funcionários, no bem-estar da comunidade onde ela afeta, então é tudo um contexto, assim, achei essa questão que ela trouxe, até nomeá-lo, porque crédito tem que ser dado, o Professor Marcos Bonfim, ele é um Professor negro de relações públicas, e ele trouxe esse questionamento. Eu acho que não me fariam em outros lugares, sabe, acho que é bem legal de a gente pensar a respeito.

Ricardo Morais – Tem um ponto aqui que me chamou a atenção, que é o seguinte, um dos itens da discussão, experimentos com uma semana de quatro dias trabalhados. Aqui eu quero dar uma luz que é o seguinte, a gente passa sete dias, cinco trabalhando, dos cinco dias que você trabalha, teoricamente um terço você deveria dormir, e oito horas de trabalho, só que tem, né, agora com a pandemia um pouco mudou, mas sem locomoção, e a gente sabe, né, quanto mais periférico você for, mais a sua hora de locomoção é maior, então você passa 14 horas, é duas horas para ir e duas e tanto para voltar, mais uma hora, mais o trabalho. E quando a gente fala de reduzir para quatro dias da semana, eu tiro um pouco aí pelo que a gente fez na Catho, com essa história da pandemia, do trabalho remoto, ficou muito melhor, a gente trabalha com muito mais qualidade, com muito menos horas, e faz muito mais.

Bárbara Lima – Tem mais produtividade.

Ricardo Morais – Mais produtividade, porque tirou um monte de problemas que a cidade coloca, que as intempéries colocam para a gente. E aí quando a gente fala de locomoção, se você pega uma pessoa com deficiência, vai tentar pegar o metrô em São Paulo, ah, mas o metrô é fácil, você pode ser um cadeirante, ham, ham, com ele lotado, vai por mim, você não vai conseguir. Por outro lado, agora, esse profissional devia ser muito mais bem empregado agora, porque todo mundo entendeu que dá para trabalhar remotamente, uma série de profissões, você poderia dar mais visibilidade para o profissional com deficiência. Então não é só a semana de quatro dias, dá para melhorar, mas também poxa, a questão de você também poder trabalhar melhor em casa, aí fico perguntando: será que as empresas estão entendendo isso? Porque você tem um monte de profissional bom, super e extremamente capacitado, que tem muito mais garra, a gente sabe disso, a pesquisa que esses caras têm, as pessoas que têm deficiência, quando elas encontram ambiente propício para elas, elas falam: poxa, aqui vai. E eu não vejo os empresários se tocando nisso, sabe, não vejo aumentando essa procura ou propor essas melhorias de quatro dias.

Bárbara Lima – Acho que tem alguns fatores, a gente, eu só somaria nesse ponto que você traz, que é um casamento ali de situações, se a gente pensa nesse ambiente familiar também, por um lado, ele facilita para algumas pessoas, o acesso, que também deveria ser pensado de forma universal, assim, quando eu trabalhei na Fundação Dorina do lado de pessoas com deficiência, eu aprendi muito a respeito disso assim, de como a sociedade ela não é pensada de uma forma universal, não precisaria a gente estar vivendo um contexto de pandemia para que as pessoas com deficiência conseguissem empregos e responsabilidades iguais, porque elas estão em casa, devia ser o contrário, a gente devia dar acesso para todos, em todos os locais. Na Mutato a gente também tem muito a dificuldade ainda de olhar para isso na questão da diversidade de pessoas com deficiência, e eu tenho pensado a respeito disso, mas por um lado, quando a gente está em casa trabalhando com um bebê pequeno, sendo mãe ou com uma criança adolescente, que precisa da ajuda ali, os professores não estão conseguindo mais dar aula, então como a gente, como trabalhar esse tema diversidade, ele é complexo e não dá para se achar uma única solução mágica onde a gente vai conseguir englobar tudo, não é, tem que ser olhado em cada especificidade.

Ana Paula Xongani – E eu acho que não é respostas formatadas para cada empresa, acho que o lance é a gente gerar o diálogo, porque cada empresa vai entender as suas próprias necessidades, as necessidades das pessoas que estão lá, do trabalho em si, então de fato a diversidade não pode ser vista como uma pauta pré-moldada, pré-pronta, algo que você vai ver o que a outra empresa está fazendo e aplicar na sua. Tem que ser só gerador de discussão, para encontrar as próprias respostas na sua própria empresa.

Ana Paula Xongani – Olha, e falando de humanização e diversidade, vale à pena a gente também falar sobre racismo. Um caso que ficou mundialmente conhecido e famoso foi de Jorge Floyd, um homem negro de 40 anos que foi assassinado por um policial branco nos Estados Unidos, que colocou seu joelho sobre o pescoço por oito minutos e 46 segundos, enquanto o Jorge repetia a frase: “eu não consigo respirar.” Aqui no Brasil, a gente também não pode deixar de dizer de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, que também foi assassinado em Porto Alegre. Também sufocado. Esses casos, gerou uma onda fortíssima de revolta e indignação, e deu ainda mais voz para o movimento Vidas Negras Importam. Um grito contra o racismo. O Movimento Ar criou o manifesto Vidas Negras Importam, nós queremos respirar. Que propõe 10 metas para reduzir o impacto do racismo. Várias dessas metas, são diretamente ligadas ao lugar do homem preto e da mulher preta no mercado de trabalho. E a gente já falou que de fato o trabalho não é tudo, mas também trabalho não é nada. Então a gente precisa oportunizar emprego para as pessoas pretas, porque isso gera dignidade, gera acesso, gera transformações não só na vida das pessoas, mas também das suas famílias. Eu como uma mulher preta, acho que Bárbara concorda comigo, quando a gente tem alguém da nossa família que tem acesso a bons empregos, a bons salários, isso é um impacto enorme, sabe, eu observando a minha própria família, eu tenho uma tia que foi a única que foi para a universidade, que meu avô pode investir de sete filhos em uma, e ela oportunizou estudo para todos os sobrinhos, para as outras irmãs que vinham em sequência dela, enfim, foi um grande impacto. Isso graças ao trabalho do meu avô, graças a consciência racial, graças a oportunidade de trabalho. Então isso faz muita diferença, quais são as medidas de inclusão mais eficientes que vocês já viram implementadas em empresas? E quais são outras medidas, ideias aqui, para a gente adotar, para ter um ambiente de trabalho mais diverso, inclusivo, também nas questões raciais. Bárbara.

Bárbara Lima – Eu acho que você falando esses dados, eu pensei numa pesquisa recente que a Indique Uma Preta fez, que eu acho que é importante trazer para esse debate assim, falando de homens e mulheres negras, e quando a gente vai olhar esse comparativo, as mulheres negras, elas ainda estão mais atrás nesse processo de equiparação salarial, de cargos, de conseguir alcançar esses lugares, de oportunizar coisas para as outras pessoas, não é. E a Indique Uma Preta que é uma consultoria de mulheres negras que foi incubada pela Mutato, e é liderada por três mulheres negras, acho importante falar isso, faz um trabalho incrível assim, e eles fizeram, elas fizeram uma pesquisa com mais de mil mulheres, eu voltei exatamente nesse momento da licença-maternidade, para mim foi um presente trabalhar a divulgação disso. Eu queria que chegasse para muitas pessoas, porque os dados que elas trazem são muito importantes, o nome da pesquisa é Potências Invisíveis, e acho que esse nome é bem significativo, porque as empresas, elas costumam olhar muito pelo olhar da deficiência, da falta, do que não é ofertado, sendo que essas mulheres e homens também, tem potências ali, que podem trazer para o mercado. Acho que é um dado legal.

Ana Paula Xongani – A Mutato, eu lembro que fez o Plano 20/20, não é, 20% dos seus funcionários pretos em até 2020. Essa foi uma iniciativa bastante interessante que dá para adotar agora, não é? Você quer falar um pouco, Bárbara, do Plano 2020?

Bárbara Lima – Na verdade, esse plano foi da Wunderman, da JWT. Eu acho que é um processo muito importante que eles fizeram, é outra agência, mas eu acho que é importante, porque eles estabeleceram uma meta ali para chegar e eles conseguiram chegar nesse marco até o ano de 2020. A Mutato ela tinha, eu posso até buscar os números para falar para vocês aqui com mais clareza, mas foi antes de eu começar na agência, foi um trabalho que começou com a Dani, com o Edu, com o Passamani, de olhar para a agência o número de pessoas negras que a gente tinha, que na época acho que era menos de 17% de pessoas em 2017, e fez um trabalho conjunto com a Empregue Afro para contratação de pessoas negras. A gente não tinha um programa estruturado, mas isso foi uma construção que a gente comprou, assim, as lideranças estavam muito conscientes da necessidade de ter essas pessoas dentro de casa, e quando eu cheguei na Mutato em 2019, para mim foi um baque, foi o primeiro lugar que eu cheguei e eu vi pessoas negras como eu. Então foi muito diferente lá no espaço assim, falar ué, nós somos quase iguais aqui, tem todo mundo da mesma cor, tem pessoas de vários lugares, como que funciona uma empresa que funciona assim, para mim foi muito uma novidade, sabe? E essa contratação intencional acho que foi a mudança assim, ainda nos cargos de base, ainda no cargo de analista, e é um trabalho que a gente está fazendo para aumentar dentro das lideranças também, acho que esse é um próximo passo.

Ana Paula Xongani – Uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil pela Forbes, também uma das 100 pessoas pretas mais influentes do mundo pela ONU, a Nina Silva, criou um Movimento Black Money, depois de ter sido como a maioria de mulheres pretas, vítimas de preconceito, racismo e machismo. A Nina decidiu deixar um legado ainda maior do que sua carreira de sucesso e fundou o Movimento Black Money focado no empreendedorismo e no empoderamento negro.

Ricardo Morais – Pesquisa da Catho ainda mostra que a igualdade salarial entre brancos e negros ainda está longe de existir, quando levamos em conta os níveis de escolaridade. Profissionais negros recebem menos, mesmo com doutorado, 15%, mestrado, menos 23, e MBA menos 23, em todos os outros graus. Esses projetos desenvolvidos pelo Movimento Black Money estão Afrotech, que busca desenvolver novas habilidades e talentos em empreendedores negros, através de cursos próprios e algumas parcerias, o Start Black Up, que são encontros e convenções montadas para o networking de empreendedores pretos, assim como contatos com investidores. E finalmente temos o The Black Bank, que presta serviços financeiros para investidores e consumidores negros.

Ana Paula Xongani – Esse é um exemplo de empresa que não fica só no discurso, e realmente parte para ação, assim como o Indique Uma Preta que a gente já citou aqui, também tem outras páginas no Instagram que ajudam e fazem consultoria networking para incluir mulheres negras no mercado de trabalho. E aí eu tenho duas perguntas. Bárbara, você acha que um jovem preto periférico, já sabe aonde buscar ajuda para desenvolver, para se desenvolver profissionalmente? Essas empresas criadas para fazer essas pontes network, é um caminho para a gente combater o racismo estrutural? E Marco, uma pergunta para você também, iniciativas próximas a essas, tem também para outras pessoas minorizadas, como pessoas como PcD, pessoas LGBTQIA+, para gerar inclusão também nesses ambientes de trabalho? Bárbara.

Bárbara Lima – É, eu acho que são iniciativas superimportantes, não é Xongani, quando a gente fala, eu tenho muito mais proximidade aí com a Indique, porque a Dani era da Mutato, então a gente trocava bastante figurinha, e eu fiquei encantada quando eu conheci o projeto, porque a gente se vê possível, sabe, a gente vê que é possível chegar em determinados lugares, então para além de ser uma rede de empregabilidade e tudo mais, é uma rede de apoio, a gente vê ali que é um grupo que nasceu no Facebook, e que a gente trocava, a gente as mulheres trocando experiências, e para mim isso é muito forte, eu como mulher negra, me vejo muito nesse lugar. A pesquisa que elas trouxeram fala que 40% das mulheres negras por mais que elas não estejam nesses lugares. Os dados que o Ricardo trouxe, são importantíssimos, que sempre está em desvantagem, mas que apesar disso, as mulheres negras querem continuar investindo em estudos, querem continuar se aprimorando. Era até uma carga que a gente carrega, eu como, posso falar até no perfil pessoal, a gente sempre está achando que está atrás, que precisa investir, que precisa se qualificar e tudo mais. E nesse ponto acho que é fundamental ter esses grupos, eu acho que eles fazem uma ponte importantíssima, mas também tem a desigualdade que as pessoas nem todo mundo tem acesso à internet. Então até que ponto essa informação está chegando a todas as pessoas que precisam, da realidade que eu vim, de onde eu morava, hoje eu moro no centro de São Paulo, mas eu morava na zona norte, na periferia, minha família mora lá, então quando eu vou lá, eu fico muito me questionando a respeito disso assim, o quanto da informação que eu recebi, que eu recebo hoje, ainda chega para os jovens que estão lá?

Marco Ornellas – Eu concordo com você, Bárbara, e eu acho que para mim, num sentido mais genérico, eu diria que o caminho passa por três movimentos, três passos, vamos dizer. Acho que o primeiro nós estamos fazendo muito, que é começar a dar luz, esse podcast, por exemplo, é isso, eu estou dando luz. Estou trazendo a luz.

Ana Paula Xongani – Trazer a conversa para a mesa, não é?

Marco Ornellas – Trazer a conversa para a mesa, e principalmente reconhecer, reconhecer como somos, como somos. Me desculpe, quem está me ouvindo, mas eu diria: nós somos uma sociedade racista, homofóbica, machista, essa é uma realidade, e nós quando tomarmos consciência de que somos assim, nós vamos conseguir fazer o movimento, que enquanto a gente continuar com o discurso, nós tivemos agora recente, nós não somos racistas, racistas são os americanos, balela isso, a gente só anda para trás, a gente precisa botar a luz, eu acho que a primeira coisa. Por que quando eu colocar a luz, eu vou trazer orgulho, a gente já tem o orgulho LGBT, a gente já tem o orgulho negro, eu acho que a mulher negra quando você se identifica assim, a Bárbara não está alisando o cabelo, enfim, quando a gente tem esse sentido da negritude, valoriza, a gente está dando orgulho, beleza. A gente não tem orgulho do PCD, a gente não tem orgulho do autismo, a gente não tem orgulho do refugiado, não tem, essas classes estão mais ainda, é importante, é importante, se a gente está falando de diversidade, vou te dizer, a gente conquistou já por pior que seja, a diversidade de gênero da mulher, a gente já conquistou um pouco mais por pior que seja do negro, do PcD por conta de cotas e leis. Mas e a trans, e o trans? E o autismo? E o refugiado? Gente, o refugiado, enfim, é terrível, eu entrevistei gente que tem mestrado, doutorado no Congo, e aqui ele é, ele trabalha no supermercado carregando caixa. Aí você fala: cara, que louco!

Ana Paula Xongani – Eu brinco que gringo só é gringo se é europeu, não é?

Marco Ornelas – Sem dúvida.

Ana Paula Xongani – Senão, não é gringo. Na estrutura já formada hoje, a gente às vezes precisa de iniciativas que são transitórias e temporárias, mas que atingem diretamente alguns grupos, para que a gente gere equidade, que é aquilo, não é, utopicamente é sempre a gente falar de utopia, porque utopia constroi o futuro, utopicamente é que essas iniciativas não precisem mais ser alavancadas. Mas enquanto a gente não chega nesse mundo utópico, algumas iniciativas são para gerar equidade, e aí é o processo também, são várias fusões, então uma fusão entre diversidade e equidade, é importante quando a gente olha para a equidade, a gente vê que alguns degraus precisam ser levantados para que todos consigam enxergar um horizonte positivo e um futuro melhor.

Ricardo Morais – Dá para incluir, dá para fazer, quando a gente fala tem graus e graus de tudo que pode acontecer, mas para cada um deles, você deve estar apto a conseguir isso. Gente, não é possível, a gente chegou na lua com uma espaçonave que tinha menos tecnologia que o nosso celular hoje tem, como é que a gente fala que a gente não consegue incluir alguém hoje em dia? Então assim, acho que o meu apelo eterno, e aí isso vale para um monte de coisa, eu estava conversando com você sobre isso, cara, você é da marca, você é o, faz investimento em marketing, um monte de fornecedor, vai atrás desses fornecedores, procure ele, coloque isso, coloque, faz a concorrência, legal, coloca na RP, x% de mulheres, x% de aquilo que você acha que tem que impactar, que faz parte da sua missão. Quando você começa a fazer isso, porque você tem o dinheiro, você tem o poder. Então não adianta você fazer essas campanhas incríveis, falar que sua marca é incrível, se você continuar andando só na agência grande do centro de São Paulo, e que tem aquele mesmo perfil clássico, mas você não dá oportunidade para aquela agência periférica, aquele público, ou que você não vai lá e participa, sabe como esses profissionais estão sendo tratados. Ah, metade é mulher na minha equipe, legal, o que é que elas fazem? Elas têm poder de voz? São elas que apresentam para você? Não adianta, quem tem o dinheiro, tem o poder, e você consegue mudar. Então para mim qualquer um que está no cargo de liderança, tem o orçamento, e não muda, desculpa, você não está fazendo o seu trabalho, amigo. Dá para fazer sempre? Não, mas você pode tentar, dá para tentar, mesmo que seja o mínimo. Uma vaga que seja, um único fornecedor que você consiga capacitar e colocar, arriscar algumas vezes. Ah, mas eu não sei se vai entregar o que eu preciso, pega um projeto menor, tenta, dá chance, você vai ver o susto que você vai tomar. Hoje na Catho eu fico muito, muito contente, a gente colocou, tem uma meta global que veio até daí da empresa do grupo todo que nós participamos da Seek, de um percentual x de mulheres em cargos de liderança. Hoje o nossos Board é composto meio a meio entre homens e mulheres. Seguramente isso vai fazer toda diferença, a gente acabou de ser agraciado com, entrou uma nova CFO e uma mulher na área de finanças, eu venho da área de finanças, uma área dura, pesada, normalmente com homens machistas, então nós temos uma mulher. Então nós temos uma mulher, genial, isso é lindo, a mensagem que passa, cara, mulheres sim podem ficar não na área criativa, não só no atendimento, no comercial, podem sim estar lá mandando no dinheiro, sendo que vai tocar a empresa inteira.

Ana Paula Xongani – Rick, isso tem tudo a ver com o que a gente vai falar agora. Após a trágica morte da Denise Neves dos Santos, uma funcionária da Magalu que foi assassinada pelo seu companheiro, a Luiza Trajano junto com outras empresas, começou um programa de proteção a mulher contra a violência doméstica, é um programa muito conhecido aqui no Brasil e é um sucesso. A Avon também é uma das pioneiras em creches corporativas que auxiliam milhares de mães trabalhadoras, por todo país, dando um lugar para que elas deixem os seus filhos com segurança, algumas unidades inclusive, a mãe pode trabalhar com a criança, pode no horário do almoço visitar essa criança, enfim, algo excepcional. É essencial que nós consumidores, consumimos de empresas que apoiam suas funcionárias mulheres, ao invés de as empresas que veem as mulheres como um problema, por conta de filhos, por conta da licença-maternidade, por conta de gerar vida, gerar as próximas gerações. Existem mais medidas sendo estudadas para auxiliar pais e mães solteiras, mulheres vítimas de violência e pessoas com qualquer tipo de necessidade. Bárbara está aqui com o bebezinho do lado, a gente ouviu ele um pouquinho, você deve estar no momento exato para falar sobre isso, qual iniciativa você acha que nós mulheres, qual a iniciativa que mães solos e até pais solos, precisam para continuar desenvolvendo suas competências no ambiente de trabalho?

Bárbara Lima – Ah, eu acho que você trouxe um ponto importantíssimo, Xongani, os pais, afinal a gente dá a luz, mas na verdade, é uma família ali, algumas situações são de famílias de uma única pessoa, pais ou mães solos, mas em alguma porcentagem aí, a gente tem a participação de um companheiro ou de uma companheira que também precisa estar junto nesse processo e eu vejo que as empresas numa grande parte, costumam olhar para projetos para mães, licença-maternidade, o período para se adaptar da mãe, mas o pai também participa desse processo e a participação dele é muito importante, meu filho agora está com o pai dele, mas é por que a gente tem um convívio familiar aqui um pouco diferente, a profissão dele permite que ele esteja em casa durante esse momento, a gente consegue se dividir. Mas, e quem não consegue, como que as empresas olham para isso? Como que a gente pensa um modelo de trabalho como o Ricardo trouxe, em que o horário cumprido das 8h às 5h, não é o fundamental, mas sim o que essa pessoa entrega, independente do período em que ela está logada ali, essa volta para o trabalho agora, na licença, numa pandemia, foi crucial para mim, isso por que eu sou uma pessoa muito de rotina, eu precisava logar em tal horário, não que viesse das empresas onde eu trabalhei, mas para mim, como pessoa, eu preciso estar lá em tal horário, fechar em tal horário. Eu estou vendo que isso não necessariamente é uma verdade, eu consigo entregar ainda as coisas trabalhando nos momentos em que é possível tendo uma criança em casa, e tendo que cuidar de tudo. Então como que isso chega também para as outras mulheres dentro da empresa.

Ana Paula Xongani – Para quem não sabe, recentemente Luiza Trajano anunciou um programa de trainee, voltado apenas para candidatos negros, isso gerou uma polêmica muito grande, o que na minha visão foi positivo, porque a informação também chegou para muito mais gente, mas apesar dos elogios, teve muita gente que chamou de marketing da lacração. Teve gente que chegou ao absurdo de chamar de racismo reverso, sendo que a gente já sabe, mas é bom reforçar que racismo reverso não existe, e teve até deputado tentando entrar com uma ação contra o programa. Houve várias reações negativas, o que nos traz a sensação de que essa relação da inclusão ainda é uma questão do Brasil, o que dá uma certa vergonha, muitas vezes eu falava: gente, como assim, estou sentindo aqui uma vergonha muito grande da complexidade e das dificuldades que a gente tem com ações afirmativas tão importantes. Cotas para as pessoas minorizadas em empresas, são uma medida superimportante, Bárbara, o que é que você acha sobre cotas?

Bárbara Lima – Acho que esse programa do Magazine Luiza ele gerou essa polêmica, porque ele mexe justamente com um problema estrutural, a gente não está falando de cargos de entrada, a gente não está falando de estágio, a gente está falando de treinar pessoas negras para que elas ocupem cargos de liderança e de gestão dentro das empresas. A pessoa negra pode entrar até certo ponto, mas ela vai me gerir, vai me liderar, ela tem capacidade para isso, acho que é aí que entra a discussão e a polêmica que gerou nas redes. Cotas é um meio necessário para a gente conseguir colocar essas pessoas nesses espaços, como você trouxe, Xongani, é uma medida necessária e que deve ter um tempo para ser normalizada, para que isso aconteça. Eu acredito que ela é importante quando ela é feita de uma forma consciente assim, eu quero incluir essas pessoas, e eu quero que elas tenham uma progressão, que elas tenham um crescimento na carreira, que eu consiga também olhar para dentro. Acho que o Ornellas trouxe muito isso, quando a gente fala de diversidade é muito fácil, a gente está falando de números, é só pegar de qualquer lugar e ir incluindo. Mas como que essas pessoas estão lá dentro, não é? É muito importante a gente olhar para esse próximo passo como que é o espaço onde elas estão, qual a possibilidade de crescimento, como elas vão se desenvolver. Eu olho muito para isso.

Ana Paula Xongani – E para trazer mais uma voz aqui para nossa conversa, vai começar o quadro Manda o Papo. É o áudio do nosso ouvinte Arthur que tem muito a acrescentar, vamos ouvir.

Arthur – Oi, eu sou Artur, tenho 27 anos, moro em São Paulo. E estou no mercado de trabalho pela Lei de Cotas, sempre sofri preconceitos para me recolocar no mercado de trabalho. E a campanha da Catho me ajudou muito a me recolocar, e espalhar informação para as outras pessoas sobre a Lei de Cotas. Eu acho que é fundamental o conhecimento sobre esse assunto, necessário, e eu gostaria de saber mais informações como que as empresas têm acesso a esse dispositivo, sem cair no capacitismo de excluir as pessoas que têm necessidades especiais.

Ana Paula Xongani – Arthur aqui dizendo para a gente o quanto fundamental é a Lei de Cotas para pessoas com deficiência. E aí, quem vai começar respondendo à pergunta de Arthur? Como não cair no capacitismo e incluir essas pessoas no mercado de trabalho?

Ricardo Morais – Tem o ponto que eu vejo, quando ele fala sobre a dificuldade dele de entrar no mercado de trabalho, a gente tem na Catho o projeto, e já de longo prazo, uma plataforma, que é o Minha Vaga por Direito, minhavagapordireito.com.br. Basicamente é dando a luz exatamente a isso, a esses profissionais, pessoas com deficiência, estão no mercado de trabalho, disponíveis, muito capacitados, com todas as qualidades possíveis para desempenhar qualquer tipo de função, qualquer tipo de função. Tem muito esse papo de ah, mas não dá, dá tudo, de novo, a gente chegou na lua com uma nave espacial que tem menos tecnologia que o nosso celular tem hoje, dá tudo, pessoal. Então a primeira coisa ali, ele é do movimento, é dá luz a essas pessoas que hoje estão à margem do mercado, o empresariado muitas vezes não vê, e até mesmo a cidade não vê, não dá acesso para elas, possibilidades, então eu falei de locomoção, super complexo. Mas esse profissional, a gente tem números ali, dados para comprovar, esse profissional quando encontra uma empresa que é o ambiente seguro para ele, que é o ambiente que respeita ele como pessoa, que respeita ele como profissional, que dá para ele um plano de carreira, como faz basicamente como faria com qualquer outra pessoa, esse profissional rende mais, ele fica mais tempo. Até por que ele tem mais dificuldades de encontrar esse local, quando ele encontra, ele é muito mais dedicado, ele aproveita essa chance com muito mais garra. E aí para não entrar na história do capacitismo, é: tratem as pessoas como iguais, deem as ferramentas que elas precisam. Hoje os equipamentos, todos eles já são feitos pensando numa diversidade de pessoas, então a parte que a gente sempre fala lá, a interface do usuário, como a gente consegue, quando a gente fala: ah, por que meu filho é superinteligente, porque ele já pegou com dois anos o ipad, ele mexe sozinho no YouTube, faz um monte de coisa. Não, não é, é que quem fez o produto, fez pensando para até uma criança conseguir desenvolver aquilo. Ah, eu já estou com 44, estou com começo de miopia, então minha visão está começando a ficar falha, daqui a pouco eu vou fazer uso também dos mesmos equipamentos que tem, para quem tem baixa visão quando eu tiver mais velho, isso é fato. Então todos os equipamentos já são feitos para todos os tipos de pessoas, então a empresa eu acho que se ela tratar esse profissional como igual, der oportunidades iguais, investir na carreira dele, como investe em qualquer outro profissional, ela vai ter um ótimo profissional. Ela vai ter um ótimo funcionário, vai ter alguém que vai literalmente garantir que a empresa vá adianta. Mas falta acho que esse ponto de vista da empresa tratar ele bem para isso.

Ana Paula Xongani – Acho que uma parte fundamental dessa história é a publicidade, é o que a gente comunica. Eu sempre gosto de dizer que a publicidade ela constroi imaginários. Tem várias empresas que estão fazendo coisas incríveis, como, por exemplo, Burger King que teve a campanha do dia do orgulho LGBTQIA+, e que todo lucro dessa empresa foi revertida para ONGs voltadas para essa causa. Inclusive a campanha chamava: Quem Lacra, Não Lucra, ironizando a frase usada por grupos conservadores para boicotar campanhas consideradas progressistas. Muitas empresas deixam de investir nesse tema, com medo de receber um boicote por parte do consumidor, já tem outras empresas que já entenderam que falar sobre mudança social, é fundamental e que aumenta a lucratividade.

Ricardo Morais – Em junho de 2020, depois de vários protestos nas redes sociais, a marca Bombril decidiu tirar do mercado a palha de aço que tinha o nome de Crespinha, além de o nome ser uma alusão ao cabelo crespo, algumas publicidades antigas desse produto, trazia o desenho de uma garota preta, daqueles traços antigos bem racistas que eram usados para retratar uma pessoa negra. Nos Estados Unidos, o mesmo aconteceu com a marca Aunt Jemima, que trazia em seu rótulo o desenho de uma mulher negra que foi baseado numa mulher chamada Nancy Green, que foi escravizada.

Ana Paula Xongani – Sendo que a publicidade é feita de pessoas para pessoas, as marcas devem ficar atentas, não é, inclusive para alcançar essas pessoas. Muito já foi comentado sobre comerciais de cerveja serem machistas, sobre comercial de absorvente ter aquele líquido azul esquisito, sendo que ninguém menstrua azul, sobre aquela família papai e mamãe e dois filhinhos, sem nenhuma diversidade no comercial de margarina, já que o objetivo das marcas é atingir o maior número de pessoas possíveis, as pessoas são diferentes entre si. Qual é o futuro da publicidade na opinião de vocês? O que é que a publicidade tem que fazer de novo para atingir mais pessoas e para também comunicar a diversidade e a inclusão que a gente tanto deseja?

Bárbara Lima – Acho que foi importantíssimo esse movimento, vou trazer ele de novo, do Ministério Público do Trabalho, de convidar as agências de comunicação e de publicidade, para a mesa do debate sobre diversidade e sobre a inclusão de pessoas negras. A gente viu que um movimento estava acontecendo na cadeia de ser representativo, um número de pessoas negras nos comerciais, de representação, a gente se vê naquele comercial, era muito importante. Inclusive quando eu vi a Xongani nos comerciais, eu me sentia muito representada, sentia que aquilo era para mim, era possível. Só que essa discussão precisa acontecer também na cadeia, quem estava criando essas campanhas? Com que olhar estava criando essas campanhas, é um estereótipo, ontem a gente teve uma conversa na Mutato, anteontem, desculpa, na Mutato, como parte do novembro negro, a gente convidou o Jeff Delgado, que é um Fotógrafo profissional, eu gosto de apresentar ele assim, porque é o que ele é para mim, fotógrafo profissional, ele fez diversas campanhas, ele estava mostrando todo potencial das campanhas e tal, mas uma coisa que me chamou a atenção foi isso, em como ele conseguiu trazer um olhar para aquelas marcas que ele estava trabalhando, que só ele teria a capacidade de trazer, só ele como pessoa que vive naquelas localidades, entendeu, então assim, como que as agências têm que olhar para as pessoas que ela está colocando para dentro, para aumentar essas referências e conseguir chegar nas pessoas que ela quer impactar no futuro, que é a sociedade como um todo. Então esse processo de chamar as agências para conversar do Ministério, eu achei muito importante de mostrar, colocar em dados, mesmo, vamos avançar e vamos por onde? O que é que vocês estão fazendo, vamos trocar figurinhas, como que vocês estão fazendo, como que outra agência pode fazer, onde que a gente vai melhorar o nosso mercado como um todo?

Ana Paula Xongani – E agora chegou ao nosso quadro Dica Extracurricular. Aqui os nossos convidados vão dar aquela dica de ouro, pode ser um podcast, pode ser uma palestra disponível na internet, um filme, uma série, um livro. Quem quer começar?

Bárbara Lima – Posso começar. Eu vou indicar um livro e uma palestra. E livro é ‘O no que eu disse sim’, da Shonda Rhimes, foi um livro que me ajudou muito, eu demorei muito para engatar, não sei você, Xongani.

Ana Paula Xongani – Li e devorei.

Sra. Bárbara Lima – Eu li uma vez e não consegui, na segunda ele foi assim de uma pedrada, acho que ele é importante para todas as pessoas, no sentido de você olhar como é importante incluir essas pessoas em cada espaço. Essas, eu digo todas as pessoas, que ela fala muito disso, que ela fez programas para todo mundo que espelha a sociedade do lado estadunidense. Acho que foi um livro muito importante. E o outro é uma palestra da Veronica Goodman, ela é Cofundadora da Indique Uma Preta, e ela falou no TEDx Blumenau, e eu acho que a fala dela é muito potente sobre como incluir as mulheres negras no mercado de trabalho, o que acontece depois da contratação, o que é que as empresas têm que olhar para desenvolver esses potenciais. Acho que é uma fala muito potente.

Marco Ornellas – A minha dica é, tem uma plataforma de conteúdo, e lá a gente tem uma série chamada Inclusão da Diversidade. Vocês podem acessar no 157next.academy, esse é um site, vocês vão encontrar lá vários conteúdos, muitos artigos, inclusive sobre os temas que a gente falou aqui, mas principalmente a série Inclusão da Diversidade. Nesse momento nós temos o 6º episódio, mas são 14 que a gente já programou e vem por aí, falando de refugiado, autismo, etc. Do ponto de vista de livro, eu indicaria dois: um é Empresas Humanizadas, que eu acho que é um livro legal, que tem a ver exatamente com o que a gente falou, do Raj Sisodia, e o outro é o meu, que eu escrevi na pandemia, entreguei na pandemia, escrevi o ano passado, chamado Uma Nova Desordem Organizacional, então fica aí a dica, está na Editora Colmeia, vocês encontram pela internet, Marco Ornellas, Uma Nova Desordem Organizacional, onde eu falo exatamente dessas questões todas que a gente está falando aqui, de complexidade e desse novo normal, e desse novo mundo que a gente está vivendo.

Ana Paula Xongani – Rick, suas indicações de hoje?

Ricardo Morais – Eu vou pegar duas coisas mais fáceis de se encontrar, vamos dizer assim, que todo mundo assiste, que é Netflix, a gente tem dois programas que são bem bacanas. O primeiro é o Atypical, que fala sobre o jovem no espectro autista, como é a vida dele, saindo da adolescência, entrando para a universidade, é legal para quem nunca conviveu e tentar identificar ali de uma forma mais suave como é o dia a dia, e coisas que talvez a pessoa tem visto na rua e não tem entendido, descubra quem é. E o outro que é muito lindo, muito, muito lindo, que é Amor no Espectro. Que aí fala da dificuldade das pessoas com deficiência de encontrar um novo amor, e como elas se relacionam, como são esses processos e como até a família age. É legal, porque acho que quebra essa barreira de como a gente vê, e até a gente falou muito aqui de inclusão daquilo que grita aos olhos, mas quando a gente olhar para quem é autista, também tem essas duas visões importantes, e mostra um lado muito humano, os desafios do dia a dia, mais os desafios do amor. É o que todo mundo busca no final é ser amado, não é?

Marco Ornellas – Muito boa as dicas, Ricardo, muito boas, apoio.

Ricardo Morais – Boa.

Ana Paula Xongani – Eu amei as dicas de hoje, quero colocar um pontinho em cada uma delas, vou acrescentar só mais uma, que é o livro da Lau Patrón, a gente falou sobre maternidade, a gente falou sobre pessoas atípicas, ela tem um livro que chama 71 Leões: Uma história sobre maternidade, dor e renascimento, ela como mãe de uma criança atípica.

Ana Paula Xongani – Muito obrigada, Marco, muito obrigada, Bárbara, até o baby que está aqui do lado, aqui com a gente nesse final de podcast, quero agradecer vocês todas as contribuições, todas as partilhas, todas as informações, abertura de diálogo, a gente tem mais outros episódios do Trampapo, acesse, vão lá ouvir também. Acesse as nossas redes sociais no Instagram, a gente está como Trampapo, ou o site www.trampapo.com.br. Um beijo e muito obrigada, gente.

Marco Ornellas – Valeu, obrigado. Um abraço.

Bárbara Lima – Obrigada, gente, pela paciência também com o Martin aqui no final.

Ricardo Morais – Ótimo, tem que trazer, assim anima mais a gente aqui, pessoal. Obrigado pelo tempo de vocês, obrigado por nos ouvirem, espero que a conversa tenha sido boa para vocês também. Obrigado, Xongani.

Ana Paula Xongani – Um beijo, obrigada a todos, e até o próximo episódio. Tchau.

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