A
A
voltar ao inicio
Trabalho de mãe
#19

Trabalho de mãe

CAUSASConvidados:

Vivian Abukater - Sócia da Rede Maternativa

Mariana Luz - CEO - Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Sobre:

Certamente, você já ouviu falar que mulheres dão prejuízos às empresas porque engravidam. Ou, então, que o papel de cuidar dos filhos é principalmente das mulheres, enquanto o dos homens é ser o provedor financeiro. Pode ser também que você tenha sido obrigada a deixar sua carreira de lado para se dedicar à maternidade, ou que nenhuma empresa tenha te dado a oportunidade de trabalhar só porque você tem criança pequena. Até onde vão os preconceitos e obstáculos da sociedade para as mães? Como garantir o bem-estar e cuidado das nossas futuras gerações se as comunidades não se responsabilizam por elas? Como criar conscientização sobre a paternidade ativa e o valor do trabalho doméstico? Quais políticas de amparo à parentalidade as empresas de todos os portes podem oferecer? Xongani e Ricardo recebem Vivian Abukater, mãe, sócia e diretora executiva da Maternativa e Mariana Luz, mãe e diretora CEO da fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, para responder essas questões. Aperte o play e descubra como a maternidade pode ser potência em sua vida profissional!

Trabalho de mãe
Transcrição:

Ana Paula Xongani : – Com certeza, ser mãe é o maior de todos os trabalhos. Com uma jornada exaustiva, sem férias, com alto nível de estresse, muita preocupação, responsabilidade e muitas vezes, sem parceria para compartilhar essa árdua tarefa. Para muitas mulheres, a maternidade é imposta, e não uma escolha, mas para aquelas que optaram pela maternidade, esse trabalho tem uma remuneração que supera qualquer salário. Até hoje para muitos ser mãe e esposa, o velho pacote bela, recatada e do lar, deveria ser um único trabalho que uma mulher deveria ter. Para algumas empresas, ser mãe é um defeito, uma mancha no currículo de uma funcionária que não deveria ter outro foco além do seu trabalho. Ser mãe, nunca foi fácil, ser mãe trabalhadora, menos ainda. Enquanto muitas mães guerreiras conseguem sucesso em suas profissões, outras tantas têm a vida profissional prejudicada simplesmente por serem mães. Ao mesmo tempo que as empresas tendem a ter uma certa resistência a mães, a nossa sociedade tende a demonizar mulheres que optam por se dedicar apenas a sua carreira. Ou mesmo ter um casamento sem filhos. Para muitas pessoas, eu não tenho vontade de ser mãe soa como uma palavrão, então começa a pressão dos amigos, da família, vem aquela velha história: quando seu relógio biológico mandar, você vai querer, você não pode viver uma vida sem ter essa grande alegria. Você nunca vai se sentir uma mulher completa sem ser mãe. As pessoas romantizam a maternidade como se fossem flores e arco-íris, em uma família de comercial de margarina, ignorando que mães são abandonadas pelos seus parceiros, que não conseguem conciliar trabalho e maternidade, ou simplesmente optaram por não ter filhos, porque não querem. Essa pressão externa, acaba sendo um agravante para a carreira dessas mulheres. Vocês acham que elas acabam tomando decisões compulsoriamente e isso afeta suas vivências no mercado de trabalho, e até a sua maternidade? Maternidade e trabalho, é o que vamos debater no Trampapo de hoje.

Vinheta – Trampapo, fica esperto, aumenta o som, que a gente tem o dom, se não quer trabalho chato, se liga no Trampapo, a Xongani e o Ricardo vão te dar um papo reto, evolua a sua cabeça, aproveita e fica esperto. Trampapo.

Ana Paula Xongani : – Olá. Eu sou Ana Paula Xongani, sou Empresária, Criadora nas redes, Apresentadora e mãe. O Trampapo busca ser um podcast inclusivo para as pessoas com deficiência. Então para quem precisar de acessibilidade, é possível conferir a transcrição dos programas em texto ou em Libras, no nosso site: www.trampapo.com.br. Eu vou me apresentar e fazer uma autodescrição, e as nossas convidadas também. Eu sou uma mulher preta, de cabelos curtos, em crescimento, olhos escuros, hoje eu visto uma roupa toda colorida, unhas coloridas, estou com maquiagem colorida, estou uma cor só. Você Ricardo.

Ricardo Morais : – Oi, pessoal, tudo bem? Eu sou Ricardo Morais, eu estou Gerente Sênior de Marketing na Catho. Eu sou um homem branco, cabelos pretos, barba branca, agora não dá mais para falar que está ficando grisalho.

Ana Paula Xongani : – Ainda dá, ainda dá.

Ricardo Morais : – Ainda rola também? Grisalho por enquanto, olhos verdes, eu estou vestindo um tênis branco, uma calça vermelha e uma camiseta branca, momento raro que eu não estou de preto, não é? Vou aproveitar aqui, já convidar, chamar as nossas convidadas para também fazerem sua autodescrição. Vivian, por favor, fala de você.

Vivian : – Olá. Eu sou a Vivian. Bem, eu sou uma mulher branca, de cabelo meio encaracolado, cacheado, tenho olhos castanhos, sou mãe de duas crianças, um menino de nove e um menino de seis anos. Sou sócia e Diretora-Executiva na Maternativa, e tenho já alguns bons anos, desde 2012 estou dedicada ao estudo desse ecossistema ligado à maternidade, ao trabalho, tentando de alguma maneira atuar nessa área, nesse segmento, causando transformação, através de compartilhar um pouco de conhecimento, novas visões, nesse mundo. É isso, acho que é. Deu certo, gente, eu me descrevi bem?

Ricardo Morais : – Está ótimo, está ótimo.

Vivian : – Então está bom.

Ricardo Morais : – Está com a gente aqui também a Mariana Luz, Mariana, fala de você um pouco, por favor.

Mariana Luz : – Oi, pessoal. Tudo bem? Obrigada, primeiro super prazer estar aqui, essa energia boa desse podcast. Eu sou Mariana Luz, uma mulher de 40 anos, com muitos cabelos brancos, gente, desde os 18 eu tenho cabelo branco. Uma mulher branca, mas os cabelos negros sempre foram meu orgulho, e agora eles estão mesclados. Mas eu sou, eu tenho muita honra deles e desfilo por aí com eles. Então sou Diretora Presidente da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que é uma fundação que foca 100% da sua atuação na primeira infância, que eu acho que é muito do que a gente vai conversar aqui com vocês hoje, já, já.

Ana Paula Xongani : – E para começar nosso papo de hoje, acho que todas nós, todos nós aqui concordamos que uma das maiores dificuldades da mãe, da esposa que trabalha fora, é que apesar de colaborar com a renda, muitas vezes até ganha muito mais do que o seu parceiro, o serviço doméstico e os cuidados com os filhos ficam na sua grande maioria das vezes, a encargo unicamente, eu acho que o problema aqui é o unicamente, pelo motivo de: ah, ela é mulher, logo o serviço doméstico é função dela.

Ricardo Morais : – Ai, que preguiça de ouvir essas coisas. De acordo com a pesquisa da Catho, 36% das mulheres já tiveram que deixar o mercado de trabalho para cuidar dos filhos. Só ela é mãe, só ela que tem que cuidar. Entre os homens, esse número é quatro vezes menor. Pai para que, não é? E segundo o IBGE, essa dupla jornada das mulheres, é uma realidade que está bem longe de acabar, enquanto os homens gastam (ininteligível), 11% da semana das atividades domésticas, as mulheres gastam quase o dobro, 21.

Ana Paula Xongani : – Isso faz parte da cultura aqui do nosso país e até de outros lugares do mundo, é muito forte, enraizada a noção de que são as mulheres que devem desempenhar a tarefa do afeto, gente, até do afeto, do cuidado, da educação dos filhos. Então fica a dúvida sobre como que isso pode mudar. Como podemos reverter um pouco esse quadro no nosso país? Temos ações dentro do mercado de trabalho para conscientizar a sociedade, sobre a necessidade de o homem exercer a sua paternidade ativa. Afinal o que é essa tal paternidade ativa? Como vocês acreditam que ela pode ser incentivada de um modo geral a ir para o mercado de trabalho? Afinal, o que a gente fala aqui, o mercado é seu.

RICARDO – Exato. O que é que você acha disso, Mariana?

Mariana Luz : – Olha gente, eu acho que a gente tem essa pergunta fundamental, porque cada vez mais a gente precisa falar de parentalidade, que na fundação, parentalidade é uma meta. E parentalidade, vem de justamente da lógica do conceito de que há pais, não há somente uma mãe ou pai, há pais. Há adultos responsáveis por uma criança, às vezes duas mães, às vezes há dois pais. Às vezes há uma mãe solo, às vezes há um pai solo. E a gente precisa entender cada vez mais no mundo moderno, que os conceitos são justamente de um adulto que cuida de uma criança. E é esse adulto que cuida de uma criança, seja ele pai ou mãe, ou no formato que for, ele precisa garantir que essa parentalidade ativa, ela acontece por meio do que vocês já trouxeram, por meio do afeto, por meio da brincadeira, por meio do estabelecimento de vínculo, por meio da conversa, gente, a gente fala aqui na fundação que uma conversa muda o mundo, e não é um exagero. Porque é no diálogo, na contação de histórias, na leitura, às vezes assim, não precisa ser uma coisa difícil, vamos contar histórias das nossas famílias, vamos contar sobre o jogo de futebol, se a gente está falando aqui desses pais que precisam estabelecer essa relação, vamos contar sobre o trabalho, vamos contar sobre o trajeto para o trabalho, seja ele em qual veículo for. Então assim, vamos conectar com coisas que a gente gosta, eu acho que esse tabu de que o pai não consegue fazer as coisas, não consegue a participar, não é participar, ele tem, ele é tão atuante quanto à mulher, ele deve ser tão atuante quanto à mulher.

Ana Paula Xongani : – Quem quer um mundo melhor, precisa pensar numa criação melhor. E você Vivian, para a gente começar já dando incentivo aqui nesse podcast, o que você falaria para essas mulheres mães que querem voltar ou se manter no mercado de trabalho?

Vivian : – Bem, acho que a primeira coisa que eu queria dizer, é que muitas vezes, por conta de tudo que acontece hoje no mercado de trabalho, as mulheres ficam amedrontadas depois que os filhos nascem. Elas ficam amedrontadas na verdade, desde que elas ficam grávidas, como é que eu conto para o meu chefe, como é que o meu chefe vai reagir. Começa umas micro agressões dentro de boa parte das organizações. Aí vem as estatísticas mostrando que quase metade delas são demitidas antes de os filhos completarem um ano. E com tudo isso, acho que todas as mulheres, todos os homens, conhecem uma mulher mãe, que depois que foi mãe, foi desligada do trabalho por alguma razão. Então no mundo todo essa é uma questão, mas eu acho que a gente tem estatísticas ainda mais complexas no Brasil, isso vai minando a autoconfiança das mulheres, vai minando a autoconfiança das mães. Eu acho que uma das primeiras coisas para trazer, um pouco desse pensamento, tanto do mercado para quem está entregando, quanto para quem está procurando emprego é: maternidade é potência. Não tem como uma mulher passar pela transformação da chegada do filho, de gestar uma outra vida, de ter esse filho chegando ao mundo, sem ser impactado, impactada por tudo isso. Então toda essa nova vivência que essa mulher vai passar, toda essa transformação corporal, psicológica, causa uma explosão de transformações, e essas transformações são muito potentes. Então uma mulher mãe aprende a olhar o outro com mais empatia, a parar para pensar não só no agora, no presente, mas no futuro, que ela começa a se preocupar com o filho. Ela consegue, ela desenvolve uma coisa de fazer múltiplas atividades simultâneas, que mãe que às vezes quando tem dois filhos, não está carregando um, dando mamar para outro, vai pegar com o pé alguma coisa que caiu no chão.

Ana Paula Xongani : – Várias.

Vivian : – Então assim, até corporalmente a gente ganha umas habilidades novas de conseguir fazer múltiplas coisas simultaneamente. Outra coisa, gestão de conflito, filhos brigam o tempo todo, os conflitos se intensificam com a chegada das crianças, a gente aprende a mediar conflito, a escutar um, escutar o outro. Então assim, maternidade, chegada dos filhos e eu falo mais das mães, porque eu atuo com mulheres mães, a chegada do filho é uma grande potência. Se o mercado está demorando um pouco para perceber isso, aos poucos isso vai sendo absorvido, porque é impossível, é inegável, então a verdade é para a autoconfiança de uma mulher que foi mãe, que está procurando se recolocar, ela precisa enxergar todas as potencialidades que a maternidade trouxe para ela, precisa incorporar esses ganhos de potencialidade no seu discurso, na forma como ela se coloca, tirar o medo, tirar a vergonha de ah, se eu falar que eu vou ter filho, e não, assumir que ela tem que aquilo traz um monte de benefício para ela enquanto profissional.

Ana Paula Xongani : – Nossa, várias questões de desenvolvimento pessoal, profissional, a gente aprende de forma empírica na maternidade. Eu sem dúvida, eu tenho certeza que meus maiores feitos profissionais, foi depois de me entender potente depois da maternidade. Você tem filhos? Quer chorar? Você está sensível hoje? Um filho vai atrapalhar o seu crescimento profissional? São exemplos de frases machistas que as mulheres precisam suportar em entrevistas de emprego e até no ambiente de trabalho. Uma pesquisa realizada pela Catho, com mais de 7 mil respostas, mapeou a frequência com que essas frases são escutadas nas organizações.

Ricardo Morais : – Então, de acordo com esse estudo, 43% das mulheres já ouviram a pergunta: está de TPM? 35% já foram perguntadas se o marido não liga delas trabalharem fora. Olha que absurdo. Que ano é hoje? 34% ouviram: você está muito sensível hoje? E 24% que os filhos iriam atrapalhar a carreira. Bom, além dessas barbaridades absurdas, você não teria chegado aonde chegou se não fosse bonita. Você pensa em se casar? Você tem com quem deixar seus filhos? Por que, você vai cuidar por mim? Você faltaria no trabalho se seu filho ficasse doente? Não, vou deixar ele morrer. Cara, desculpa, não dá, não dá, não dá para ser educado, não dá para ser educado, vocês são muito ladies, eu mandaria para o inferno.

Ana Paula Xongani : – Todas essas falas são discriminatórias porque partem do princípio que a condição da mulher, dessas profissionais, já está em desvantagem, atrelando o gênero feminino ao descontrole emocional, a posse do marido e a incapacidade. E é justamente sobre esse tipo de comentário que o nosso Manda Papo de hoje vai falar. Vamos ouvir.

Camila : – Olá, eu me chamo Camila. Eu tenho 29 anos, trabalho na área de tecnologia. E a minha dúvida sobre perguntas discriminatórias no processo seletivo de emprego. Acho que toda mulher já ouviu pelo menos uma pergunta em alguma entrevista, então são perguntas como: Você tem filho? Você pretende ter filho? Quem cuida do seu filho para você trabalhar? Quem leva seu filho ao médico durante o horário de trabalho? Já me perguntaram até se o meu esposo é pai do meu filho. Completamente descabida à pergunta. E aí muitos recrutadores dizem que essas perguntas é só para deixar a pessoa à vontade, conhecer melhor, enfim, tornar a conversa mais pessoal. Mas para mim isso não cola, porque se fosse para conhecer melhor o candidato, isso seria perguntado aos homens, e a gente sabe que isso não acontece. Segundo que uma entrevista de emprego ela não é para ser algo pessoal, ela é uma conversa profissional. Então eu sou da opinião que tudo que é perguntado na entrevista de emprego, vai ser usado na avaliação do candidato, e inclusive as perguntas discriminatórias. Então elas têm ali um fim. E aí eu chego na minha dúvida, que é: como reagir diante desse tipo de pergunta, e o que é que a gente pode fazer em relação a isso? Eu posso denunciar uma empresa que tem esse comportamento? Se eu posso denunciar, como e onde eu faço isso?

Ana Paula Xongani : – Gente, Camila mandou um papo lindamente.

Ricardo Morais : – Camila.

Ana Paula Xongani : – Camila, parabéns.

Vivian : – Eu acho que os caminhos hoje, você percebe nas redes sociais, em todas as redes sociais de alguma maneira, quando uma mulher passa por perguntas discriminatórias, muitas delas começam a postar isso, e a gente já inclusive acompanhou papos, tanto de pessoas que são demitidas por isso, empresas que acabam sendo obrigadas a se posicionar a respeito disso. Então acho que os canais de denúncia para isso, tem sido muito forte, as redes sociais. Quando, e também tem os canais formais, se você passa por uma entrevista onde fica claro um preconceito de qualquer tipo de preconceito, você tem todo direito de procurar a ouvidoria daquela empresa, e mandar um e-mail sobre o que aconteceu. É importante que a gente comunique um comportamento inaceitável, porque a empresa precisa estar ciente, precisa ganhar os canais normais da empresa, para que isso fique mapeado, registrado e etc.

Ana Paula Xongani : – Mesmo depois de contratada, não é?

Vivian : – Mesmo, depois de contratadas, agressões, as micro agressões, todo tipo de preconceito, precisa ser verbalizado, precisa ser dito e precisa ser falado, porque senão ele fica invisibilizado, não é contabilizado, não é tratado. E isso é uma grande questão.

Ana Paula Xongani : – Maravilhosa. Mari.

Mariana Luz : – Olha gente, eu acho que concordo com tudo que a Vivian trouxe já nesse tema, de canais, e a potência que a gente hoje tem do cidadão ser um multiplicador de mudança de comportamento, de quebra de padrões e eu acho que isso tem a ver com o empoderamento, é da mulher, e algo que a Camila trouxe também com muita propriedade, parabéns aí pela contribuição e pelo papo reto. Eu acho que é justamente de muitas vezes as mulheres replicarem isso, e eu acho que o que a gente precisa e como mulheres, é a gente tem que ser unir, gente, a gente tem que liderar essa transformação. E sabendo o que, que o real empoderamento é quando a gente assume também o lado mulher. Quando a gente assume o lado mãe, quando a gente assume que as prioridades dos nossos filhos são uma prioridade nossa, e deveriam ser uma prioridade do nosso entorno, e se não é, é o entorno que está errado, não sou eu, e não são as necessidades do meu filho.

Ana Paula Xongani : – E Mariana, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal promove ações em prol da primeira infância e também apoia o ranking das melhores empresas na atenção à primeira infância, com a premiação do GPTW. Como você vê os propósitos das empresas que oferecem essas medidas para as mulheres? Para as mães, e para os funcionários de modo geral? Essas empresas que são focadas em mães, mas também nas crianças, porque eu acho que é um outro grau de responsabilidade, além de gerar empregos para essas mulheres e possibilidades delas trabalharem, pensar no cuidado dessas crianças também. O foco é na valorização dos funcionários? O foco é na lucratividade? Ou é na responsabilidade social de cuidar das futuras gerações?

Mariana Luz : – Muitas vezes, não é, no Brasilzão que é gigante, são muitas realidades, dentro da cidade de São Paulo, são muitas realidades. Você imagina então no estado, em todos os nossos estados e 5.570 municípios que a gente tem nesse país. E aí é isso, são estruturas muito diferentes, seja do poder público, seja das empresas, seja da sociedade civil. E eu acho que uma primeira coisa para a gente enfrentar o medo, é o conhecimento, é a informação, como a Vivian trouxe. Porque se a gente souber, gente, que na nossa constituição, a constituição lá de 88, traz no Artigo 227 a criança como a prioridade absoluta. E a gente precisa então quebrar isso a partir dessa prioridade absoluta, ela é uma prioridade absoluta é da mãe e do pai? Não, é do país. Então a gente precisa entender que a criança não é uma responsabilidade só da mãe e do pai, ela é uma responsabilidade da mãe e do pai também. Mas ela é muito importante que a gente considere o provérbio africano que fala que leva uma vila para criar uma criança, e que todos nós somos essa vila. Então que a vila é a vizinhança, a vila é a empresa, a vila é a escola, a vila são os equipamentos de assistência social, são os equipamentos de saúde. Então são todos, as estruturas da nossa sociedade, que precisam operar de forma organizada, para que a gente coloque a criança no centro, porque é essa criança que é como a Ana trouxe lá atrás, o presente e o futuro. Isso não é só uma bela frase, gente, isso é uma realidade, e é por isso que aqui na fundação a gente trabalha com primeira infância todos os dias, porque uma primeira infância bem vivida, ela traz retornos para a economia, assim, você aumenta em 25% os salários, então você está pensando, além de gerar emprego, ela gera um aumento da renda, uma reinjeção nessa movimentação econômica que é fundamental para que a gente quebre desigualdade. Ela gera uma maior permanência na educação, ela gera uma diminuição dos gastos com saúde pública e com segurança pública. Então eu gosto de dizer assim, quando a gente está pensando em quais são as grandes demandas da nossa sociedade, é isso, emprego, educação, saúde e segurança, e a primeira infância bem vivida, bem cuidada, bem tratada por esta vila, não só por um único pai ou por uma única mãe, ela traz esses resultados para a gente.

Ricardo Morais : – Mariana, você sabe dizer de cabeça o nome de algumas empresas que você coloca que fazem isso ganhando o prêmio GPTW, o último? Pode declarar.

Mariana Luz : – Pode contar?

Ricardo Morais : – Claro, claro, empresa bacana tem que ser divulgada.

Ana Paula Xongani : – Acho que tem Avon no meio dessa lista.

Mariana Luz : – A Johnson & Johnson ganhou, a IBM já ganhou, já foi premiada, Takeda foi premiada, a Takeda até a gente copiou aqui na fundação um dos benefícios que eles oferecem, eu coloquei na minha política de gente, eu não tinha, e tenho que contar, que assim, a gente, eles dão a folga no dia do aniversário do filho, gente, não é o máximo.

Ricardo Morais : – Genial.

Mariana Luz : – E agora eu tenho isso aqui na fundação também. Então é isso, a gente tem que ir se inspirando. E quem mais, acho que Santander, IBM, acho que talvez tenha falado já, muitas empresas, gente, a lista, claro, tem os premiados e tem todos aqueles que ficaram bem também, não é?

Ricardo Morais : – Sim.

Mariana Luz : – Então esse tipo de ranking, ele alimenta uma competição positiva, e o que eu falei, a possibilidade de a gente se inspirar nas boas práticas, do que é que tem gente fazendo melhor do que eu, bora fazer também, bora levar essa barra, porque a gente tem essa condição. E quem está na liderança, como vocês trouxeram, tem essa possibilidade e essa responsabilidade, concordo 100%.

Ricardo Morais : – Bom, vamos lá. Jacinda Ardern foi uma das líderes mundiais com maior sucesso no controle dessa pandemia. Ela obteve uma vitória esmagadora e começou o segundo mandato como primeira Ministra da Nova Zelândia. E quando concorreu o primeiro mandato, a Jacinda estava grávida, a oposição e os cidadãos mais conservadores para variar, gente conservadora, criticavam ela super pesado, tipo, aqueles argumentos bem óbvios, tipo: uma mulher com bebê recém-nascido não pode ocupar um cargo de tamanha importância, sendo que a sua maior prioridade deveria ser mãe.

Ana Paula Xongani : – Jacinda, não abaixou a cabeça, fez campanha, exibindo o barrigão. Foi eleita, só usou seis das 18 semanas que tinha direito da sua licença-maternidade e voltou para assumir a liderança do país, enquanto seu marido, o Clarke Gayford deixou o seu programa de pesca que apresentava, para ser pai em tempo integral. Eu acho essa história muito inspiradora para toda mãe, que quer alcançar o sucesso da sua carreira, para todos os pais que querem contribuir para o sucesso das suas famílias, porque contribuir para o sucesso das suas esposas, muitas vezes é contribuir com o sucesso das suas famílias. E principalmente para a gente gerar atenção nessa ideia de avaliem carreiras dentro das suas famílias, qual a carreira que é mais promissora, qual a carreira que tem mais sucesso mais imediato, qual a carreira que está gerando mais renda. Tudo isso é muito importante para a decisão de quem fica em casa com a criança, de quem não fica em casa, tenho uma experiência pessoal em relação a isso, inclusive. O State Eat Home Dead, o pai em período integral, é algo mais comum socialmente aceito nos dias de hoje, eu acho que o que precisa mudar, realmente é o desejo das pessoas a fazerem isso. Isso favorece inclusive as mulheres no mercado de trabalho, importante dizer que quando favorece a mulher, não necessariamente desfavorece o homem, só favorece a mulher, mesmo. Está tudo bem. Mas eu queria perguntar para vocês: essa decisão conciliada nas famílias, elas precisam acontecer, como que vocês enxergam essa possibilidade para que as mulheres voltem ao mercado de trabalho de uma forma justa, mas cuidando dessa aldeia em volta, para cuidar dos seus filhos, Vivi?

Vivian : – Bem, primeiro que para a gente conseguir ter essa escolha, as empresas precisam oferecer licença parental, não é?

Ana Paula Xongani : – Sim.

Vivian : – Hoje o que a gente tem, para a grande maioria das empresas, é a licença-maternidade, e nas empresas cidadãs, um período um pouco mais estendido. Algumas empresas oferecem licenças-paternidades estendidas, mas a licença-paternidade...

Ana Paula Xongani : – É de quanto tempo a estendida?

Vivian : – Depende, você tem até 20 dias, acho que é isso, me corrijam se eu estiver errada, mas são 20 dias para a empresa cidadã, mas a normal, são 5 dias.

Ana Paula Xongani : – Meu Deus.

Vivian : – Depois do nascimento dos filhos. E algumas empresas por iniciativas delas, equiparam as licenças entre homens e mulheres, no caso de Diagil, a gente tem empresas de tecnologia como o Google, Facebook, também oferecendo licenças-paternidades um pouco maiores. Mas para que essa decisão possa acontecer, esse diálogo na casa possa acontecer, quem é que vai ficar com o filho, a carreira de quem tem mais chance agora de decolar, precisa existir essa opção para o homem fazer também. De qualquer maneira, existe uma barreira nisso, a primeira barreira é tem um percentual muito grande dos homens no Brasil que nem usa os cinco dias de licença disponível. Eu não vou lembrar exatamente o percentual, mas num dos relatórios que a Pró-Mundo fez no estudo de paternidades no Brasil, eles apontaram uma utilização desses cinco dias, muito baixa, do tipo menos de 50% dos homens usam os cinco dias de licença.

Ricardo Morais : – Que absurdo.

Ana Paula Xongani : – Eita.

Vivian : – O que é que acontece? Você tem aí uma quantidade de homens que é assalariado, representante de vendas que trabalham por meta, então ele ficar cinco dias em casa, ele deixa de faturar, ele deixa de ter a comissão. Então assim, tem um monte de aspectos sobre isso, além da própria cultura, meu filho nasceu, agora eu tenho que trabalhar mais ainda, aquela cultura do provedor, que ainda é muito forte.

Ana Paula Xongani : – Dizem que existem fugas também, não é?

Vivian : – E muito ligado ao provedor financeiro, não necessariamente provedor afetivo. Mas assim, tirando tudo isso de lá da barreira que existe já da questão do machismo estrutural, de quem que é a responsabilidade do cuidado, para que mulheres e homens possam discutir sobre quem é que vai ficar em casa com os filhos para a mulher acessar o mercado de trabalho, retornar de licença-maternidade, a conversa sobre licença-parental precisa aumentar no Brasil, a gente precisa ter mais opção de pais que possam tirar licenças-paternidades estendidas ou licenças equiparadas entre homens e mulheres. Se isso acontecer, existe a possibilidade de as mulheres conversarem. Porque é mais difícil se isso não acontece, não existe a opção da licença-paternidade, da licença-parental, o homem falar: não, então tudo bem, deixa que eu saio do meu trabalho, porque agora sua carreira vai estar mais à frente do que a minha, existe uma pressão social muito grande em cima desse homem, ele precisa estar muito centrado dentro de quem ele é para aguentar também os comentários de que agora ele é um homem que fica em casa para que a mulher possa trabalhar. O machismo, ele não é só uma opressão contra as mulheres, é também contra os homens. Os homens também sofrem com isso, essa masculinidade um pouco tóxica.

Ana Paula Xongani : – Bastante tóxica. Não, isso é bem importante, por exemplo, o meu companheiro trabalhava muito tempo numa emissora, e quando ele começou a participar da criação da própria filha, levar no médico, ou alguma coisa da escola, foi criado na empresa que os funcionários só poderiam sair duas vezes para acompanhar seus filhos ao médico. Então assim, ao ano, minha filha só poderia ficar doente duas vezes ao ano, fora isso, a responsabilidade era toda minha. E o lance do machismo é muito importante a gente trazer, porque aí a gente expande a ideia de ser só nas empresas, mas quem está entorno, a ideia da aldeia, da vila, que a Mari trouxe, quando meu companheiro decidiu ficar em casa nesse início de pandemia para que eu conseguisse continuar trabalhando mesmo estando em casa, trabalhando em casa, a pressão social não é só do mercado, mas também das pessoas que estão em volta. Então é de fato uma mudança de cultura nas empresas, mas é uma mudança de cultura na nossa sociedade.

Mariana Luz : – Pegando o gancho, gente, do que a Vivi trouxe do Pró-Mundo, um outro dado dessa pesquisa, é que 85% dos pais, fariam qualquer coisa para ter uma participação maior nessa criação dos filhos. Então assim, existe a esperança, eu queria complementar, dizendo que existe essa vontade, porque eu acho que, e aí isso tem a ver com o ambiente cultural que a gente vinha falando, com a necessidade de quebrar esse ambiente cultural, e aí Ana, o exemplo que você trouxe, ele é um exemplo, ele é super bacana, mas ele é na Nova Zelândia. E aí o que acontece, às vezes a realidade de bons exemplos muito distantes e únicos, acabam que ficam assim: ah não, mas é lá, é longe, não, na Europa, ou em outro, no caso da Nova Zelândia, na Oceania, mas assim, muito distante da nossa realidade. Então o que a gente precisa fazer? Usar essa potência de que puxa, se tem 85% dos pais que já despertou essa vontade, que já tem um anseio de estar mais perto, são esses pequenos passos que a gente está falando. A gente usar isso a favor de criar novos exemplos. De incentivar que isso aconteça, e eu acho que gente, claro, quando a gente fala de GPTW também, a gente pensa, são as maiores empresas para se trabalhar, e são mesmo, as maiores e as melhores. Agora é possível fazer isso no ambiente pequenininho? Também, mas com essas ações que são, poxa, vai levar, incentiva, uma pessoa que tem uma loja, uma farmácia, pode incentivar um pai a ir levar o filho na consulta, a ir para a apresentação de flauta, eu brinco, que é quase um estereotipo para a gente dizer: não, é super importante, porque aquele apoio, aquele vínculo, se estabelece nessa fase, e naquela presença, naquela reunião de pais para entender o que é que está acontecendo. Então é muito importante que a gente consiga permear isso como um conceito, que a gente consiga acreditar nisso, e de fato praticar nos diferentes cenários. Então acho que queria trazer esse dado para complementar a resposta da Vivi.

Ana Paula Xongani : – Muito legal esse dado, e que esses 85% de homens conversem com seus pares, seus amigos, seus chefes, para ajudar nessa mudança que a gente tanto deseja. E com a pandemia, vamos falar dessa realidade, tivemos mulheres que foram obrigadas a conciliar o trabalho de casa que ela já fazia, com a responsabilidade de cuidar dos seus filhos, que ficaram em casa em tempo integral, ainda teve as aulas, educação, uma série de coisas, ou seja, a demanda de trabalho aumentou muito. Algumas tem companheiros ou familiares, que contribuem para lidar com essa rotina. Mas outras tiveram que realizar verdadeiros milagres para cuidar disso tudo.

Ricardo Morais : – Em outro estudo realizado pela Catho, nós levantamos que 60% das mulheres afirmaram sentir os impactos do isolamento social na sua saúde emocional, com destaque para ansiedade, que é o mal da atualidade. Dentre as maiores dificuldades do trabalho remoto das mães em quarentena, estão lá: conciliar isolamento social e saúde menta; conciliar trabalho, tarefas domésticas e filhos. Falta de espaço adequado para trabalhar e falta de concentração para as atividades profissionais. A pesquisa com mulheres também mostrou outros fatores causados pela quarentena, estresse, cansaço, cansaço mental, desmotivação, perda de sono, tristeza, solidão, depressão.

Ana Paula Xongani : – É isso. Esse tempo, com esse acúmulo de função, gerou novas perspectivas de carreira? Vocês acham que diante dessa pressão toda, as mulheres conseguiram criar possibilidades de carreira? O home office que parecia tão sonhados para as mães, passou a ser um pesadelo? Ou gerou oportunidade? Ou as empresas podem criar forma de transformar o home office em algo positivo, e inclusive a gente tem um episódio ótimo aqui sobre home office, se a gente cruzar, é o primeiro episódio, não é Rick?

Ricardo Morais : – É o primeiro episódio.

Ana Paula Xongani : – Se a gente cruzar aqui com esse episódio de maternidade, pode gerar boas soluções. Mas eu quero saber de vocês, qual que é o mundo ideal para as mães que trabalham em casa? Como que elas podem conciliar tudo isso e pensar numa carreira próspera?

Mariana Luz : – Legal. Olha gente, acho que a gente falou muito disso ao longo, desde o início da pandemia, a gente na fundação por ter esse trabalho com as empresas e por entender que são justamente essas grandes empresas que criaram o caminho do home office, porque eu acho que também isso é importante dizer, significa um percentual mínimo da massa trabalhadora brasileira, quem está em home office. Então assim, e aí a gente já está falando dessas empresas que têm a possibilidade, as empresas que tiveram a possibilidade de deixar os funcionários em home office, são as empresas que têm a possibilidade de criar políticas amigáveis e de flexibilização para a primeira infância. Então acho que isso é muito importante da gente separar, porque o dado era assim, acho que no auge da pandemia, 13% da massa trabalhadora brasileira estava em home office. Então assim, acho que é uma realidade que a gente precisa também já colocar num lugar de privilégio, mesmo, que foi a possibilidade de estar no conforto e segurança das nossas casas. Então fazendo essa distinção, o que eu acho é se a gente está falando de empresas grandes, a gente está falando de empresas que teriam no momento de pandemia, a obrigação na minha opinião de oferecer um acolhimento para esse momento inusitado, inédito, que ninguém nunca tinha vivido, e que todo mundo começou a aprender junto. Então eu acho que assim, a gente olhou muito para a possibilidade de fazer intervalos entre reuniões, de não ter reuniões maiores do que uma ou duas horas, de você criar um espaço maior para o almoço. Porque a família, seja o pai ou a mãe, tem que preparar o almoço, depois tem que lavar a louça do almoço, depois tem que ajudar a criança almoçar. Almoço não vem só.

Ricardo Morais : – A louça não sai sozinha, a louça não lava sozinha.

Mariana Luz : – Isso, então assim, a gente começou a falar justamente sobre boas práticas a serem implementadas por essas empresas grandes, que tinham seus funcionários em home office. Então, e aí outras coisas, evitar reunião, porque eu acho que uma coisa que a gente aprendeu aqui é: a gente realmente precisa daquela reunião ou a gente pode mandar um e-mail?

Ana Paula Xongani : – Eu tenho uma camiseta: eu sobrevivi a mais uma reunião que poderia ser ruim.

Mariana Luz : – Boa camisa, Ana. E eu acho que assim, que tenham mais camisetas assim, porque eu acho que a gente de certa maneira, no início, fez uma transição direta, do mundo do escritório para o on-line, só que no escritório você estava aqui, você olhava no olho, não era por uma tela, não era por eventualmente cruzou com uma pessoa saindo de uma sala, você já tratava de um assunto, aí não, você marca uma reunião, a reunião é com vídeo, porque ninguém mais fala ao telefone, e isso tudo gera desgaste, gente, gera desgastes que o Ricardo já trouxe, que é toda essa lista aí de impacto em saúde mental, em capacidade de concentração e foco, porque há dados que comprovam isso, se você fica olhando para a tela, é mais cansativo, teu olho, eu comecei a pingar colírio nos primeiros meses de quarentena. Então o que eu acho assim, é realmente essa atenção, e não uma transferência direta ao que a gente estava habituado, conhecia, que eu acho que foi muito o que aconteceu no início. E aí esse Ana, é o copo da atenção. Eu acho que tem um copo cheio que é a gente bate o martelo sobre maternidade em relação à flexibilidade, e eu acho que se havia resistências no mundo corporativo sobre o home office dar certo ou não, isso acabou. Então a gente teve que dar certo por um ano, então a gente precisa fazer dar certo, a partir de agora, em certa medida, não acho que vai ser tudo, não acho que vai ser 100% uma coisa, nem 100% outra. O que é maravilhoso, que é a gente encontrar o caminho do meio, que é o caminho do equilíbrio, que é o caminho da flexibilidade, e que é o caminho de que se eu precisar então sair da minha reunião, assim como eu precisei ir fazer o almoço, para levar meu filho à consulta do pediatra, eu volto, eu faço meu trabalho depois, eu não vou deixar de entregar, eu não vou deixar de dar resultado. Mas existe um caminho de conciliar o ambiente doméstico e o ambiente profissional de uma forma eu acho que menos complexa, no imaginário daqueles chefes que queriam que todo mundo ficasse batendo cartão. Então vamos lá chefes e chefas por aí, bora entender que o mundo obrigou a gente a parar, e se a gente for inteligente, a gente vai repensar. E é isso que acho que é o convite que eu faço a todo mundo que está nos ouvindo e que tem essa possibilidade.

Ana Paula Xongani : – E para terminar essa deliciosa conversa, vamos para o nosso quadro Dica Extracurricular. Aqui é o quadro onde vocês dão dicas, pode ser filme, pode ser série, pode ser podcast, uma palestra disponível na internet, que tem a ver com os nossos assuntos, que tem a ver com o tema de hoje para quem quiser continuar conversando sobre isso depois de terminar esse episódio. Quem começa?

Ricardo Morais : – A minha dica vai ser um documentário que está na Netflix. The Mask Living, que basicamente é a máscara em que eu vivo. Então é um documentário que fala sobre masculinidade tóxica, como ela afeta aos homens com relação aos cuidados dos filhos ou afetam no geral. Então a crise das crianças americanas e como educar uma geração de homens saudáveis. Então com especialistas e outros acadêmicos, então é uma forma de a gente olhar para esse lado que a gente está falando muito aqui, do trabalho da mãe, mas acho que começa também o trabalho do, se trabalhar direito como o pai.

Ana Paula Xongani : – Arrasou. Vai Vivi.

Vivian : – Eu separei aqui alguns relatórios, eu falei do relatório da Pró-Mundo que eu acho que vale à pena todo mundo pesquisar, porque eu entendo que quem está ouvindo a gente, é quem também está pensando sobre o mercado de trabalho, mas também tem as empresas empregadoras escutando. Então o próprio, tudo que é indicadores sobre a questão de parentalidade, sobre a questão da primeira infância, é muito importante que quem atua nessa área, que tem interesse de saber mais, vá atrás disso. Então a gente tem o relatório da Pró-Mundo, a gente tem os relatórios da Accentury, que falam sobre o Employee Experience, que é a experiência dos colaboradores dentro das organizações, e muitos desses relatórios, trazem a questão do impacto da chegada dos filhos nas carreiras, tanto dos homens, quanto das mulheres. Quero trazer um filme aqui muito para as mulheres, que chama a história de um casamento, está na Netflix também. É um filme que fala sobre divórcio, mas fala muito sobre cuidado, sobre carreiras de homens e mulheres, e priorização dessas carreiras. Tem o Trule também que fala sobre o trabalho doméstico, mas tem que estar com um pouco de, o emocional um pouco melhorado para assistir esses filmes, está bem mulheres?

Ana Paula Xongani : – Olha o gatilho, o alerta.

Vivian : – Eles são, tem uns gatilhos aí, porque é a realidade de uma maneira tão intensa, que às vezes a gente precisa estar preparada para olhar para ela. Mas então assim, as minhas dicas são esses dois filmes, muito para entender a realidade do que significa o trabalho de cuidado, e que esses relatórios e os indicadores ligados à primeira infância e a parentalidade sejam buscados e estudados. Convido para olhar para a empresa, a própria Maternativa está aí, a gente tem diversos estudos, um diálogo grande com as empresas sobre isso. A gente tem Think Olga, Think Eva falando agora também sobre economia do cuidado de uma maneira muito intensa com relatórios incríveis. Então pesquisem sobre parentalidade, sobre chegada dos filhos e sobre primeira infância.

Ana Paula Xongani : – Mari, suas dicas?

Mariana Luz : – Ai gente, eu tenho um monte. Mas acho que tem tantas aí, eu vou já indicar então o site da fundação, porque a gente tem uma biblioteca com um monte de coisa, que é www.fncsv.org.br, e três produtos nossos que eu sou apaixonada, eu sei que com o viés, mas que são os dois documentários, Começo da Vida, o 1 e o 2, que trazem muitas das informações de por que esse troço é a coisa mais importante do mundo, gente, e que a gente tem uma hashtag aqui na fundação, que é primeira infância primeiro, então assim, tudo importa, tudo é importante. Mas a primeira infância, gente, ela vem primeiro, então vamos cuidar dela. E aí o Começo da Vida 1 e 2, fala sobre isso, no Começo da Vida 2 que a gente lançou o ano passado, então é super recente, os dois estão também nas plataformas abertas, Netflix, Videocamp. Ele fala muito sobre a interação da natureza, que é o que a gente não falou aqui, mas que é super legal, porque tem várias empresas que já estão com esse olhar também, algumas empresas que estão com esse olhar então de ter um espaço, um ambiente para a saúde mental dos funcionários e também das crianças. Então que essa interação com a natureza, ela é fundamental para a gente manter a nossa saúde mental, a nossa capacidade de foco. E isso também começa no início da vida. E aí por fim, vou dar uma dica, que está acontecendo, que é a gente está com uma série com o Dráuzio Varela no programa É de Casa, todo sábado de manhã, ele sai assim umas 9h, 9h20, já foram três episódios, mais por vir, são nove. E em cada episódio a gente tem o Dr. Dráuzio falando um pouco da questão do tema daquele episódio. Então a gente, o episódio foi o pai presente, então que tem tudo a ver, gente, o João é um personagem inacreditável, maravilhoso, quem quer ser um pai presente, assiste esse documentário. Quem precisa tornar um pai presente, assiste também, e vai lá e passa para ele depois, e tem vários outros falando aí dos cuidados da primeira infância, pré-natal, e depois dos cuidados nos primeiros meses de vida, amamentação, nutrição, tem um monte de tema bacana, e que com uma história real, e com o Dr. Dráuzio explicando um pouco o que é que significa e também está no ar, depois eles ficam disponíveis aí na internet para quem não conseguir assistir no programa. E eu recomendo como série. E toda assim, gente, tem muita coisa bacana, eu acho que tem muitos pais que tem feito hoje em dia canais sobre paternidade, e mostrar situações cotidianas com o filho, então acho, recomendo que faça essa busca também. E aqueles que tiverem mais habilidade, quem sabe se inspiram e começam a postar as suas próprias situações, porque eu acho que fortalece aquela ideia de um movimento liderado também pelos pais, e mostrando exemplos do dia a dia, do cotidiano da vida real que acontece em cada família brasileira, e que deveria ser parte do nosso consciente coletivo.

Ana Paula Xongani : – Bom, eu vou para minha indicação para a gente entender um pouco mais sobre a raiz disso tudo, eu tenho um livro que eu gostei muito, que chama O Ponto Zero. Trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, essa é minha dica de hoje. E a gente está terminando o Trampapo, que conversa importante, deliciosa, eu adorei, e você, Ricardo?

Ricardo Morais : – Muito, porque para mim, é o Trampapo que agora mais do que nunca para os homens ouvirem, ouvirem, ouvirem, e ouvirem de novo, e contarem para todos os amigos.

Ana Paula Xongani : – Vivi, muito obrigada pela sua participação aqui hoje.

Vivian : – Foi um prazer, um prazer muito grande conversar com vocês, agradeço a oportunidade de falar um pouco sobre isso, porque é aquilo, se a gente conversa, se a gente fala, se consegue levar isso para mais pessoas, uma sementinha vai sendo plantada e são dessas sementinhas que nascem as transformações que a gente precisa. Muito obrigada.

Ana Paula Xongani : – Mariana, obrigada também por estar aqui com a gente.

Ricardo Morais : – Valeu Mari, obrigado, obrigado, Vivi.

Mariana Luz : – Super obrigada, e pela oportunidade, foi um prazer imenso estar aqui, gente.

Ana Paula Xongani : – É isso, eu queria muito agradecer, adorei o papo de hoje, acho que esse episódio é especial para mim, porque hoje eu vim gravar o quê? Com a minha filha. Então agradeço especial para a Catho, para a Pod 360, pelo Trampapo pelo acolhimento. A gente deu várias dicas aqui hoje, então estão todas disponíveis e bem facilitadas lá no nosso site: www.trampapo.com.br. E acompanha também a gente nas redes sociais: @trampapo.podcast. Um beijo, até o próximo episódio e tchau.

Vinheta – Trampapo, fica esperto, aumenta o som, que a gente tem o dom, se não quer trabalho chato, se liga no Trampapo, a Xongani e o Ricardo vão te dar um papo reto, evolua a sua cabeça, aproveita e fica esperto. Trampapo.

Produzido por