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Talentos não envelhecem: 50+ no mercado
#26

Talentos não envelhecem: 50+ no mercado

DIVERSIDADEConvidados:

Layla Vallias - Mercadóloga e Co-fundadora do Guia Longevidade & Hype50+

Amanda Fernandes - Coordenadora de Recursos Humanos da CashMe

Sobre:

Experientes, conectados e conhecem a solução para boa parte dos problemas. Os profissionais maduros têm praticamente todas as qualidades que o mercado deseja. Então, por que a idade seria um problema? Neste Trampapo, Ana Paula Xongani e Ricardo Morais recebem Amanda Fernandes, coordenadora de RH da CashMe, e Layla Vallias, mercadóloga e co-fundadora do Guia Longevidade & Hype50+, para uma conversa sobre o mercado de trabalho para os profissionais com mais de 50 anos. Com o aumento da população idosa, as mudanças previdenciárias e da sociedade, é emergencial pensar em soluções para acabar com os preconceitos etários e com a cultura que exclui e invalida os mais experientes das empresas. Como podemos incentivar a permanência e a entrada dos idosos no mercado? Como eles podem contribuir para a saúde e inovação dos negócios? Quer fazer parte dessa conscientização e movimento? Aperte o play!

Talentos não envelhecem: 50+ no mercado
Transcrição:

Ana Paula Xongani – Você já parou para pensar como é maluca a contradição do mercado de trabalho quando o assunto são pessoas com mais de 50 anos? Pensa comigo, ao longo da vida, acumulam incontáveis conhecimentos e experiências, aprendem milhares de conceitos, processos, conhecem pessoas, comportamentos e aplicam tudo isso no trabalho. Se fizerem tudo certinho, se tornam tudo que as empresas querem, alguém que sabe das coisas, alguém que sabe resolver os problemas. Mas quando as pessoas envelhecem, parece que toda sabedoria que antes era tão valorizada, passa a ser negativa, de repente as empresas não querem mais contratá-las. Os colegas mais jovens não fazem questão de incluí-las, ajudá-las, e até discriminam quem está na terceira idade. Em tempos de maior longevidade de vida e de trabalho, como podemos repensar o mercado para incluir e acolher bem os mais velhos? Para muitos, envelhecer é ser substituível, descartável, mas para outros tantos, fazer 50, 60, 70, ou até mais, não faz grande diferença. Afinal, não há idade para continuar se movimentando. No Trampapo de hoje, vamos falar sobre a vivência e os desafios na carreira dos 50+.

(♫ Música ♫)

Ana Paula Xongani – Olá, eu sou Ana Paula Xongani, e para quem precisa de acessibilidade, é possível conferir as transcrições dos programas em texto ou em Libras no nosso site. É www.trampapo.com.br. Eu vou me apresentar e fazer minha autodescrição, e as nossas convidadas e o Ricardo também. Eu sou uma mulher preta, cis, de corpo volumoso, cabelos crespos e curtos, olhos escuros, por conta dessa pandemia, estou gravando aqui no meu pequeno closet e por isso eu visto uma blusinha marrom, quase do tom da minha pele, sem maquiagem e sem acessórios. E você Ricardo, como é que você está?

Ricardo Morais – Pessoal, tudo bem? Eu sou Ricardo Morais, eu estou responsável pelo marketing da Catho, faço aqui o par junto com a Xongani para receber os nossos convidados e ter um papo legal. Bom, vou me autodescrever. Eu sou um homem branco, agora magro, depois de ter ficado doente, estou magrinho, fazia tempo que eu não tinha esse peso, cabelos pretos curtos, sem barba, praticamente, tirei minha barba, eu tinha uma barba branca, agora chega de barba. Estou vestido com a camiseta branca, e sigo com a minha bermuda azul clara de flamingos e meu chinelo branco. Vou aproveitar aqui já e já puxar a Layla para falar com a gente, que é uma das convidadas. Layla, super bem-vinda, obrigado por ter aceito nosso convite, por favor, faça sua auto, claro que um pouquinho de você e faça sua autodescrição.

Layla – Ah, legal, bacana, muito feliz de estar aqui. Gente, eu sou a Layla, eu sou mineira, então vocês vão escutar aí alguns uais nessa conversa. Eu estudo esse mercado da longevidade há mais de cinco anos, sou apaixonada pelo tema, então estou muito feliz de estar aqui com vocês, fazendo minha autodescrição, isso é novo para mim, então vou tentar aqui. Eu sou uma mulher branca, tenho 30 anos, uso óculos, estou com uma camisa laranja, estou na casa do meu ex-esposo que é meu melhor amigo, então como que a gente está redefinindo as relações também, né, então estou nessa aqui. E o que mais, e é isso, gente.

Ana Paula Xongani – Arrasou, e tem um óculos lindo também.

Ricardo Morais – Eu adorei o óculos, ia falar agora, sabe como que é o óculos, gente? É um óculos grande, enorme, você fica linda.

Layla – Obrigada, obrigada.

Ricardo Morais – Amanda, agora nossa segunda convidada, Amanda Fernandes, Coordenadora de RH da CashMe, Amanda, fala um pouquinho de você e faz autodescrição, por favor.

Amanda Fernandes – Oi, pessoal, obrigada, é uma grande oportunidade para mim estar aqui, fico muito feliz. Como o Ricardo já falou, meu nome é Amanda Fernandes, sou Coordenadora de RH da CashMe, fintech do Grupo Cyrela. Sou uma mulher branca, magra, com cabelo preto, curto, na altura do queixo mais ou menos. 1,66, hoje estou vestindo uma camisa branca com listra preta. Um short preto e como estou trabalhando de casa, estou descalça, mesma, aqui no meu quarto, e também uso óculos.

Ana Paula Xongani – Olha, você arrasou na autodescrição, está vendo?

Ricardo Morais – É.

Ana Paula Xongani – Bom, vamos lá. No Trampapo de hoje, nós trouxemos convidados que podem ajudar muito quem tem mais idade a se posicionar no mercado de trabalho, a superar dificuldades, preconceitos e estigmas. Mas por que é que é importante a gente falar desse assunto? Por que é que a gente precisa dar atenção a essa pauta?

Ricardo Morais – A gente olha aqui, tem um estudo do Ministério da Economia, que mostra que o número de idosos trabalhando carteira assinada, aumentou em 43% de 2013 para 2017, a população com mais idade, ainda segue trabalhando. Aí daí vem aquela primeira pergunta: isso é um bom sinal? Será? Tem mais pessoas mais velhas trabalhando? Bom, a gente deve partir de um grande princípio, que é a sociedade envelheceu, está envelhecendo, e não dá para negar que agora além de ter mais pessoas com mais idade andando por aí, o trabalho também tem que ser uma opção para grande parte dessa população. E isso tornou uma obrigação, de se manter ativo e conseguir pagar as contas.

Ana Paula Xongani – Muita gente contribuindo com nosso episódio. E vamos ouvir a Eva, que ela tem o que dizer.

Eva – Meu nome é Eva, tenho 65 anos, sou aposentada há mais de 10 anos. Eu me aposentei como Auxiliar de Enfermagem, e trabalhei muitos anos no Hospital de Clínicas, depois eu vim para o Taboão da Serra na área de saúde pública, onde passei por várias UBSs. Durante essa minha trajetória, eu senti muito a discriminação, mas tudo bem, depois trabalhei muito também com estagiários, residentes, estagiário que acabava de chegar, que ele tinha a teoria, ele tinha toda a área acadêmica, mas ele não tinha experiência que nós tínhamos dentro do hospital, não na área médica dele. E eles também pouco se dirigiam a nós, quando se dirigiam, assim, sempre como se dizíamos nós naquela época, né, eles nos olhavam de cima para baixo. Poucos eram que nos viam como essenciais, como hoje a enfermagem é muito valorizada, por causa da pandemia, ela é lembrada. Mas financeiramente, ela não é reconhecida. Porque hoje nós temos muito aposentados, que eu posso falar da minha área, que são aposentadas às vezes até de dois empregos, e estão aí correndo atrás, tendo que trabalhar, alguns trabalhando de cuidadores, outros se reinventando, graças a Deus a minha geração tem muito para se reinventar. Então se reinventam, por que muitos hoje são chefes de família, que a gente vê os jovens desempregados, e os pais tendo que assumir não só o filho, às vezes até netos, então isso o salário por ser muito pouco, eles têm que correr atrás. E o mercado de trabalho traz, que é os chamados idosos, é muito restrito, não importa se você tem a experiência, você não tem a juventude. Então isso também é uma barreira muito grande. Então é uma luta, por que hoje uma pessoa de 60 anos é considerada idosa, quando ela está no auge, ela pode trabalhar, ela pode produzir, mas ela tem que fazer uma opção, se ela se aposenta, ela não consegue mais voltar ao mercado de trabalho. É muito difícil.

Ana Paula Xongani – Quanta coisa importante, Eva trouxe pra gente, como ela falou e a gente também falou ali em cima, cada vez mais observamos que pessoas com mais idade, estão tentando permanecer no mercado de trabalho. Até por que com a nova previdência, e com aposentadoria super baixa, trabalhar hoje é uma questão de sobrevivência, e eu quero ouvir de vocês o que é que vocês acham dessa relação de maior longevidade de vida, com o exercício do trabalho. Layla.

Layla – Bom, ótimo ponto. Assim, a Eva trouxe aqui vários conceitos que eu acho que são importantes pontuar. Que o legal é isso, tem toda parte de conceituação teórica do por que é que isso está acontecendo, não só no Brasil, mas no mundo todo a gente está vivendo isso. E é o que existe na prática, só que antes, essas pessoas estavam realmente ali invisibilizadas, e a gente está tentando trazê-las à tona, mas vamos começar. Primeiro, o que é que é essa revolução da longevidade, por que é que a gente tem que falar disso? Não tem jeito, um, a gente está vivendo mais tempo. Então hoje no Brasil, a idade média de 76 anos, só que a gente já vê ali uma expansão mesmo da vida, extensão da vida para mais de 80 anos, e do outro lado, por que a gente está tendo menos filhos. Então o que é que isso impacta? Impacta tudo, gente, impacta o shopping que vai começar a vender mais para mulheres acima de 50 anos, impacta o dentista que agora ao invés de vender aparelho para adolescente, vai começar a vender prótese, e é óbvio que impacta também o mercado de trabalho, por que a gente começa a ter o que antes era muito falado, das pessoas mais velhas terem que sair do mercado de trabalho para o jovem entrar, tipo, vou dar licença para as novas, para a juventude entrar, isso já não vai fazendo muito sentido, por que hoje a gente tem como Eva também trouxe, 64% das famílias brasileiras, as casas são bancadas por pessoas acima de 60 anos. Então essa longevidade, essa extensão da vida que ninguém se preparou para ela, vai exigir que as pessoas trabalhem mais por ocupação, como o Ricardo trouxe aqui, pró querer trabalhar, por que a vida está mais ampla, então meu pai de 70 anos está criando, acabou de abrir um restaurante vegano, então assim, a vontade de expansão, a vontade de continuar fazendo, mas principalmente a necessidade de renda.

Ana Paula Xongani – Gente, eu acabei de descobrir que esse assunto é um assunto que me comove, eu estou assim completamente emocionada. Primeiro porque assim, muita gente que escuta nosso Trampapo, são pessoas mais velhas, mas a gente também tem muitas pessoas jovens, e se tornam urgente a gente falar para os jovens, para nós jovens, que cuidar das gerações mais velhas, é cuidar da gente, mesmo, a gente vai envelhecer. É tão óbvio, mas a gente esquece, eu fico imaginando essa família onde o filho retorna para casa, e precisa da ajuda desses pais mais velhos, muitas vezes é a mesma pessoa que lá na frente no trabalho, não emprega essas pessoas pelo preconceito etário. Então essa conta acaba não fechando. E outra coisa que eu fiquei pensando enquanto vocês duas falavam, é que a gente já falou várias vezes em todos os episódios, a gente já teve episódios que a gente falou sobre trans e gêneros, a gente já teve episódios que a gente falou sobre negritudes, a gente teve episódios que a gente falou sobre LGBTQIA+, a gente sempre diz que a diversidade gera impacto positivo. Acho que vale lembrar que essa diversidade que gera impacto positivo, também serve para as melhores idades, para as maiores idades. Até porque se o mercado está mudando, traz essas pessoas para perto, para dentro da empresa, para conhecer esse mercado de forma próxima, se aproximar desse mercado, trazer novas ideias, entender as necessidades, é tão mais fácil. E a outra coisa é que assim, antigamente, as pessoas tinham carreiras muito longas, 30 anos na mesma empresa, e tudo mais, hoje em dia, não, as pessoas, jovens ou não, ficam quatro, cinco anos, mudam de empresa, isso é bom, isso, o mercado vê isso com bons olhos. Então o que é uma pessoa velha para o mercado de trabalho? Você não vai ficar com ela 30 anos, necessariamente, talvez você vai ficar quatro, três, depois ela vai mudar de empresa, e você pode absorver os conhecimentos dessa pessoa mais velha.

Ricardo Morais – Tem uma falácia aí, que quando as empresas começam a pegar esse profissional que está há muito tempo e vai colocando ele do lado, ele fica, o ancião com arcabouço que sabe onde fica as coisas antigas da empresa, ou ele vai para uma outra empresa, ah não, talvez tem uma experiência ou outra, não sei se eu quero, tem que ser algo jovem, por que o jovem que traz a novidade. Erro, erro absurdo, o jovem é curioso, quem vai trazer a novidade é aquele que já sabe o que é o passado, se você não conhece a sua história, você repete o mesmo erro no futuro. Então as empresas que começam a ter essa sacada, dá para citar o exemplo aqui do Pão-de-Açúcar que pegou somente no começo da pandemia, contratou muitas pessoas de mais idade, para lidar com o público, eles tinham ali aquele problema ali, dele ser um pouco do grupo de risco, mas procuravam pessoas mais maduras, por que são os que melhor sabem tratar com pessoas, porque tem uma inteligência emocional muito mais preparada.

Ana Paula Xongani – Fala com seus iguais.

Ricardo Morais – É, então quando a empresa começa a ter essa visão, é interessante, e essa diversidade é importante, a pirâmide do Brasil mudou rapidamente, então a população agora é mais madura, a gente era um país de pessoas mais jovens, não somos mais, não é? Então agora com essa população mais, com maior idade, vamos chamar assim, é um grupo consumidor maior. Então o que adianta colocar um jovem, um publicitário, todo tatuado, que para ficar fazendo campanha para alguém de 50 anos, se ele não sabe exatamente o que é que as demandas desse público. Tem todo um capital que pode fazer e a gente devia olhar essa longevidade também a empresa como é um grupo que vai continuar me consumindo, então eu preciso que ele continue consumindo por muito mais tempo. Então tem a visão acho que do exercício e do trabalho, mas esse exercício de trabalho gera dinheiro, que gera consumo. Então a empresa tem que estar de olho nisso.

Amanda Fernandes – Ricardo, esse ponto acho que é superimportante, até te dar um exemplo na própria CashMe que eu atuo, hoje, e aí falando no cenário atual, a nossa média do nosso cliente, é de 45 anos. Então se eu não tenho pessoas com essa idade ou mais, fazendo parte do meu time, eu não consigo conversar com essas pessoas. E aí tanto é que você falou em relação ao mercado, até desse público que está ativo, que quer saber mais das tecnologias, então a gente precisa conversar com eles, se a gente não tem pessoas nas nossas empresas falando com essas pessoas, a gente vai tentar vender algo que a maioria da população não está entendendo. Então acho que é superimportante essa visão do olhar para o cliente, mesmo.

Layla – É isso, né, do ponto de vista de mercado, que é um mercadão, não dá mesmo, quem não olhar, vai perder, vai perder negócio, e do outro lado, que é o das pessoas. Então assim, não tem jeito mais, assim. E a gente tem dentro desse mercado da longevidade uma pessoa, que ele se chama Tipy Onley lá dos Estados Unidos, ele foi um Conselheiro do RBMB por quatro anos, na primeira semana ele quase foi mandado, ele queria sair, quase pediu para sair, por que ele nem entendia as palavras que aquele bando de geração z estava falando, e aí depois se manteve firme lá, e descobriu que todo o potencial dele, emocional, de manter a calma, de experiência, de ler, ler as pessoas, de ler o momento, aquilo foi essencial para o crescimento do RBMB, a penetração nos outros países. E hoje ele criou uma escola para novos anciões. Anciões. Que é isso, ele fala assim: as pessoas têm que entender que agora os 50+ tem novo papel, e esse, essa pessoa precisa entender qual é o papel dela. E assim, eu tenho uma, a minha relação intergeracional, com a minha sócia, que tem 64 anos e eu tenho 30, é maravilhosa assim, a gente não tinha parado para pensar na nossa diferença de idade, até alguém chamar a gente para falar sobre a nossa relação. E assim, o que ela traz para nossa parceria, é muita coisa que eu demoraria anos, e muitos anos para conseguir aprender. Então é maravilhoso, do ponto de vista do jovem, tem que ter o jovem tatuado, mas a gente precisa da outra pessoa mais velha, para nos dar esse equilíbrio, assim. E a empresa só ganha mesmo com essa diversidade.

Ana Paula Xongani – Há um tempo atrás, esse termo melhor idade, ganhava muita popularidade para se referir a uma pessoa que depois de uma vida toda, consegue descansar e colher os frutos do seu trabalho. Mas isso tem se transformado nos últimos anos. Mesmo que muitas pessoas com mais idade, ainda tenha possibilidade de aproveitar a aposentadoria, os netos e a tranquilidade, outra grande parte não pode se dar a esse luxo. Na realidade em que vivemos, fazer economia se tornou muito, muito mais difícil, é privilégio para poucos. A maioria da população brasileira trabalha o dia todo, para pôr comida na mesa à noite. O custo de vida, só aumenta e o salário quase nada.

Ricardo Morais – Layla, você que entende bastante desse comportamento dos 50+, você acha que essa transformação que os mantêm no mercado, que segura ainda por mais tempo, é positiva em algum sentido? E depois, se essa longevidade profissional acaba sendo também encarada como uma forma de contribuir com a sociedade, uma oportunidade de não enferrujar, que fala: ah, não quero ficar enferrujado, então se eu estou trabalhando, eu ainda estou ativo, isso faz bem para mim. E aí para finalizar, tipo, os danos emocionais, até psicológicos, enfim, de trabalhar por tanto tempo, porque também você não tem mais a capacidade, algumas vezes até física, porque você já por muito tempo, dependendo da função que você esteja, acaba também pesando com o tempo, como é que esses itens se equalizam na sua cabeça quando você olha para isso?

Layla – Então, esse é um assunto super delicado, bem controverso, assim, cheio de polêmica. Por que envolve um monte de coisa, envolve previdência, aí já começa a envolver, quando a gente fala a sociedade, você puxa de um lado e mexe um monte de coisa. E a primeira coisa é não achar que todos 50+ é do mesmo jeito. Então aqui não é mesmo, a gente tem que falar da pessoa, baixa renda, do maduro baixa renda, dos 60+, dos 70+ que trabalha, tem um trabalho ali braçal, tudo é muito complexo, e até agora eu estudei um pouco mais sobre esse assunto recentemente para entender o que é que os outros países também já estão fazendo, e a realidade é que ninguém tem uma resposta pronta, não existe uma resposta pronta, tem até um tratado aí no começo desse ano, tipo, vamos nos juntar, da OMS, assim, da ONU, tipo vamos nos juntar para a gente começar a refletir sobre o assunto, por que a realidade é: vamos ter que trabalhar por mais tempo, ponto, assim, não vai ter jeito. Então assim, está todo mundo discutindo esse assunto, o mundo inteiro, não temos respostas ainda, temos tentativas, então tem tentativa, por exemplo, de ah, vamos aumentar um pouquinho, de 60 anos para 65, vamos igualar a aposentadoria das mulheres com a dos homens, por que hoje mulher aposenta um pouco mais cedo, vamos fazer isso, vamos olhar para o trabalhador rural de uma forma diferente. Então tem algumas questões, mas o fato é: a gente tem que começar a juntar dinheiro hoje, assim urgente, por que a gente vai viver muito mais do que a gente imaginou, e uma pessoa de 70 anos, também vai ter que ter essa noção de tipo, não sei quanto eu vou viver, tenho que me programar, eu tenho que gerar renda e tenho que guardar dinheiro, isso para todo mundo, e obviamente quem é de baixa renda, óbvio que sofre muito mais, por que não tem o dinheiro para guardar e não consegue às vezes gerar essa renda extra, e aí nesse caso, é onde atua mesmo os projetos sociais de auxílio e tudo mais, renda básica, universal, renda mínima universal, enfim, aí tem todas essas discussões.

Amanda Fernandes – Esse ponto que a Layla trouxe, é realmente de a gente revisar as formas de trabalho, quando a gente está falando dessa longevidade. Então também de pensar em outras formas, ainda é uma, são perguntas, a gente precisa se unir não só como país, mas também como mundo, para ir encontrando soluções. Mas ao mesmo tempo, um ponto que o Ricardo trouxe, sobre a questão dos danos emocionais e psicológicos, óbvio que eu estou falando de uma parte privilegiada, que também quer escolher, ah, eu quero ter uma outra carreira agora, isso também pode acontecer quando você já se aposentou, eu tenho até um exemplo recente, minha mãe acabou de se aposentar, estava sofrendo bastante de deixar a carreira dela e tudo mais, e no contexto de pandemia, e também está pensando aí em como se reinventar. Porque também não quer deixar de trabalhar, a geração que está ativa. Então pensar aí nos danos emocionais e psicológicos e físicos, não só de quem por ter mais idade, mas até de quem vai parar de trabalhar e também quer se manter ativo, por que para o psicológico dela, vai ser bom.

Ana Paula Xongani – Estando trabalhando ou não, seja por escolha ou não, o que é inegociável, é a necessidade de respeito com as pessoas. Uma pesquisa do Data Folha diz que 90% das pessoas, acham que existem preconceito contra as pessoas mais velhas. Vamos ouvir a Gilsete, o que ela tem a falar sobre respeito.

Gilsete – Meu nome é Gilsete, tenho 56 anos de idade. 32 anos de empresa, ainda na ativa, cerca de 20 anos de cargo de gestão, e sou mulher. Eu digo que eu não sou uma privilegiada, sou uma sobrevivente, partindo do princípio da cultura do país, onde 18 anos é muito cedo, 30 anos é muito tarde, 50 anos então, nem se conta. Então você está inserido nesse mercado do trabalho ainda na ativa com essa faixa de idade, é um desafio constante, quando você apresenta o seu currículo, e as pessoas meio que se sentem surpresas como se o seu tempo tivesse acabado, como quem diz: ainda você está aqui? Como se você não tivesse direito de estar ali. E se você ainda está buscando uma oportunidade, é como se você não tivesse o direito. Eu tive oportunidade de conhecer culturas e políticas de outros países, onde a visão é diferente, há um respeito, há um espaço não pela idade, na minha opinião, na minha vivência, é isso que nos falta, respeito.

Ricardo Morais – É, gente, é testemunho pesado, né, por que você sente na fala dela, o fel, o amargor do que se passa. Você vê, né, então a gente, falar como as pessoas enxergam o mercado de trabalho, como espaço para quem tem mais de 50, não é uma questão só de não, você não tem espaço, você não pode. Ela fala que no dia a dia é como se ela precisasse provar que ainda é digna e capaz de ocupar uma posição na empresa, sendo que a gente começa, para todo mundo começa a carreira, nosso primeiro pedido sempre é, você tem experiência, e quando a pessoa tem toda a experiência do planeta, ela tem que se provar ainda digna. E eu acho que é esse ponto dos conflitos entre as gerações, é muito significativo, porque as pessoas mais velhas não têm um espaço no mercado. Como vocês acham que esse conflito pode ser solucionado? Como fazer com que os mais jovens não discriminem até o básico, não desrespeitem os mais velhos? Como é que você imagina isso, Amanda?

Amanda Fernandes – Eu acredito que todo mundo tem um papel mesmo de combater o etarismo, o preconceito, vamos chamar aqui de velhofobia, de uma forma geral. Que todo mundo vai passar por isso, foi o que eu falei logo no início, e acho que para qualquer coisa, para combate, eu sou muito do viés da educação, então a gente precisa continuar educando, e falando acho que num ambiente assim, papel dentro de uma empresa, a empresa ela tem que entrar em consonância com a sociedade, a gente precisa falar de uma empresa inclusiva, então a gente tem que ter isso nas culturas organizacionais, tem que ensinar, tem que ter treinamento, tem que mostrar os ganhos de formas gerais.

Layla – Esse assunto do preconceito etário, etarismo, idadismo, enfim, são todos esses nomes, velhofobia, é o grande problema da longevidade, em tudo, mercado de trabalho é o que a gente está tratando aqui, mas a falta de políticas públicas, por que essa pauta, por que é que só agora a gente está vendo o rombo da previdência, enfim, tudo acontece por conta desse grande problema, e aí eu sou a favor de falar sobre isso na escola, nas faculdades, a gente tem que falar, enfim, tem toda aí uma transformação cultural, assim como tivemos, e a gente ainda rala para ter em relação, toda diversidade racial, de orientação sexual, enfim, todas essas outras coisas também. Todos esses outros pontos superimportantes. A gente tem que falar também da diversidade etária. Tem todo esse ponto, e tem um ponto prático que é se você é um profissional jovem e não entendeu que isso é importante, meu filho, você vai perder mercado, você vai perder dinheiro no futuro, assim, ponto, fato. Então assim, olha para isso, como está dado, assim, você não tem que questionar, com essas pessoas. E aí do ponto de vista também assim mais prático, tático, das empresas, a primeira coisa é, eu acho ótimo me chamar para ir nas empresas, é como eu pago meus boletos, mas olha, comece por dentro, com certeza você tem algum parceiro, você tem algum, você tem algum profissional, algum colaborador que tem mais de 50 anos. Conversa com ele, tenta entendê-lo, chama ele para desenvolver esse programa de trabalho para os 50+, ou para começar a entender esse assunto. Porque aí vai ser tão de dentro para fora, sabe, aí é tão mais verdadeira as coisas, do que de fato só ficar assim: ah, isso é uma tendência, deixa pegar carona e vou. Por que eu, por exemplo, tenho um amigo de 85 anos, que assim, eu conheci nessa trajetória, gente, ele escreve newsletters semanais de assuntos inovadores, assim, ele manda para as pessoas, e o cara não para. E é isso, então você começa a entender que aquela relação também é muito benéfica para você.

Ana Paula Xongani – Sabe que sempre quando a gente fala sobre diversidades, no plural mesmo, né, de todas elas, eu sempre lembro e penso em afeto, você, a Layla trouxe aqui duas vezes, dois, já citou dois amigos dela, uma sócia mais velha. Uma vez eu fiz um vídeo no meu canal falando sobre isso, por que é que a gente não tem amigos mais velhos, por que é que os mais velhos a gente não os considera amigo. E isso acaba refletindo no mercado de trabalho e nas nossas relações de trabalho. Talvez ali dentro do seu ambiente corporativo tem uma pessoa mais velha que você nunca chamou para o almoço, e você também está perdendo oportunidade de relação, a gente aprende também nas relações dentro desses ambientes corporativos. Então que tal se aproximar, né, se aproximar dessas pessoas que estão ao seu redor, oferecer afeto a elas também, o que pode gerar parcerias de trabalho dentro da sua empresa, o que pode gerar grandes ideias dependendo da área que você atua, e mais do que isso, pode gerar o lindo, a beleza do afeto e das relações. Ainda sobre o que a Gilsete falou, ela comenta sobre ser uma questão cultural do nosso país, esse desrespeito todo. Nossa, dá até vergonha. Em outros países, como, por exemplo, no Japão e na China, a velhice é sinônimo de sabedoria e respeito, a cultura dessas sociedades tem como tradição, cuidar e reverenciar os seus idosos. Os japoneses os consultam antes das decisões, por considerarem seus conselhos sábios e experientes. Esses ensinamentos são resultados de uma educação milenar de respeito. E não é só nos países asiáticos, a gente também encontra essa experiência em outros lugares do mundo. Mas vamos falar do nosso país, do Brasil, como vocês veem esse quadro, quando que vocês percebem que a falta de respeito é uma cultura? Não só das empresas, mas da nossa sociedade como um todo?

Layla – Você falou do afeto, Ana Paula, eu gosto muito de trazer um exemplo, que foi uma coisa também muito inédita assim, que eu vivi, que quando eu fui convidada para participar de um grupo de discussão numa escola, que os meninos de 7 a 12 anos, decidiram criar soluções para pessoas acima de 60 anos, foi uma decisão deles. Então assim, eu fiquei tão emocionada, eu falei assim, mas olha, eu quero levar meus amigos, e aí levei, mas enfim, mais três amigos ali, 60, 70, 80+, e foi muito interessante o que uma menina falou, eu não lembro a idade dela, mas devia ter seus 10 anos, que ela falou assim, a gente deu um desafio para eles, que era eles criaram uma solução, vamos supor, criei um parque e com coisas especiais, e para 60+. E tinha que perguntar para pessoas perto, para os avós, para as avós, e tudo mais. E essa menina chegou e falou assim: nossa, foi muito interessante a experiência, a menina de 10 anos falando, foi muito interessante a experiência, por que eu sempre, eu vou na casa da minha vó todos os dias almoçar, eu vou lá todo dia e fico lá um tempão, só que eu nunca tinha perguntado para ela do que é que ela gosta, então eu nunca tinha perguntado para ela o que era importante para ela. Assim, e isso, a gente viu também em outro exercício de empresa, quando a gente lançou também esse desafio de perguntar para pessoas próximas, até pode ser família, mesmo, pai e tudo, como foi seu primeiro dia de trabalho, qual foi o maior frio da sua barriga, sabe, qual era o seu sonho quando você tinha 20 anos, qual foi sua frustração, o quanto que a gente está perdendo a não perguntar para essas pessoas, e realmente escutar, então eu acho que tem um trabalho de escuta muito grande, que de novo, a gente aprende muito no caminho, se a gente usasse esse conhecimento que a gente tem de mais de 30 milhões de pessoas acima de 60 anos, e mais de 50 milhões de pessoas acima de 50 anos, eu tenho certeza que muita coisa a gente resolveria.

Ana Paula Xongani – Eu estou adorando esse episódio, cheio de manda o papo, e vamos ouvir mais um.

Cristina Mendonça – Eu comecei a empreender aos meus 50 anos, a minha empresa é a Xongani, onde eu realizo sonhos, seja ele de empresas ou de pessoas particulares, como vestido, casamento, formaturas, ou mimos para as grandes empresas. E empreender para mim, não foi difícil, foi uma opção, então aos 50 eu quis empreender, e era um momento que as portas ficavam abertas, eu podia receber meus clientes, trazer altos papos, conversar, senti-los presencialmente como cada um deseja o seu produto. Hoje, o meu maior desafio está sendo realizar trabalho e vendas, através das redes sociais. Por quê? Porque era uma parte da empresa que era destinada às meninas fazerem, as minhas estagiárias, eu confesso que até não entendia muito o caminho, de vez em quando eu olhava assim e falava: meu, será que está todo mundo trabalhando mesmo? Mas o resultado era positivo, eu comecei a acreditar sim, e a Ana Paula sempre me fala: mãe, é assim o processo, mas como eu venho de uma outra geração, eu tive bastante dificuldade de assimilar o movimento do digital, hoje, fazendo parte dele, por conta de ser uma pessoa que não possa estar com outras pessoas, vocês têm me ajudado muito, muito mesmo, nesse olhar global da digitalização e do merchandising via rede social. Obrigada, Rick, obrigada, Ana Paula, obrigada equipe Trampapo, por me trazer também o sonho de continuar antenada com a vida tecnológica e com os novos caminhos do empreendedorismo e do profissionalismo que é o que vocês trazem com tanta maestria. Gratidão sempre. Tchau.

Ana Paula Xongani – Fã número 1 do Trampapo, e ela escuta tudo, tudo, tudo. Mas a Cristina Mendonça, minha mãe, bateu numa tecla muito importante que é a questão da digitalização dos negócios, da necessidade de estar sempre antenado sobre os avanços tecnológicos das metodologias do momento, e tudo que vem surgindo para que a vida profissional após os 50, seja mais produtiva, eficiente, e também para ser mais competitivo no mercado. E aí eu pergunto para vocês, como no seu tempo, as pessoas com mais de 50, 50+, sexagenária como ela gosta de dizer, podem se atualizar num mundo onde tudo muda o tempo todo?

Layla – Ótimo, ótimo falar desse tema de inclusão digital, por que inclusive é um dos maiores tabus, assim, na hora, é uma das, parece que é um dos argumentos para as empresas não quererem contratar a pessoa, chega e fala assim: não, ela vai chegar aqui, não vai saber nada do sistema, não vai saber fazer a campanha do Edis lá, do Facebook, trelelê, do Instagram, do Tik Tok, você é sempre a primeira que está na ponta da linha. Ah não, essa pessoa não é digital, mentira, a gente já tem dados que mostram que sim, as pessoas são digitais, elas estão no WhatsApp, estão no Facebook, estão no Instagram, vive ali comunicando, assistindo YouTube, aprendendo pelo YouTube, até minha avó mesmo, agora durante a pandemia, ela aprendeu a fazer decupagem pelo YouTube, vive fazendo isso, assim, ela, então assim, a realidade é: estão digitais. Óbvio, como que eles se mantêm ativos e aprendendo o tempo inteiro? Acho que tem um desafio nosso de mercado, que é pegar essas informações e realmente disponibilizarem ela de uma forma mais acessível, que eu acho que a gente tem muito esse desafio, assim, por exemplo, quem entra num site de empreendedorismo, já ouvi entrevistados chegando e falando assim: ah, eu entrei lá e esse site não é para mim, que claramente as palavras que foram usadas, a letra, o tamanho da letra, eu não consegui enxergar, porque era cinza com fundo branco, então assim, automaticamente a jornada de aprendizagem ali, do aprendizado, às vezes já é excludente, porque nada foi pensado para eles. Então eles chegam e falam assim: ah, isso já não é para mim, esse evento on-line tem lá limite de idade, que existe ainda hoje, gente, tem evento de empreendedores, por exemplo, que a idade máxima é 45 anos, ou seja, não é para todas as idades. É assim, é uma coisa louca.

Amanda Fernandes – Assustada.

Layla – E aí, não, assim, entre outras coisas, que eu já ouvi também de entrevistado é que a própria empresa não chama esses colaboradores para treinamento, então eles não são atualizados, eles não são nem convidados para o treinamento.

Ana Paula Xongani – Estimulados.

Layla – Nada estimulados. Então assim, hoje eu acho que tem, assim, tem a curiosidade que aflora, quem é curioso, quem é fuçador, vai e vai mesmo, e aprende na marra, e vai aprendendo, e se enfiando nos lugares, que é esse perfil mais expansivo e tal. Mas a gente tem um perfil que é uma grande maioria, que tem sim que a gente tem que olhar para eles, e estimulá-los com esse conteúdo. Então eu acho que é em toda essa parte de usabilidade digital, que nós como mercado, como criadores de conteúdo, enfim, a gente tem que pensar nessa jornada para esse público, e eu acho que a forma mais fácil é de sensibilizar as faculdades, sensibilizar os outros criadores de conteúdo, para incluir essas pessoas nessa educação, enfim, chamar para, não é só chamar para festa, não tem uma coisa, isso, não é só chamar para festa, tem que chamar para dançar.

Amanda Fernandes – Tem que chamar para dançar.

Layla – Exato, eu acho que é isso. Então assim, a gente tem que não só achar que está convidando, por que está convidando todo mundo, ah, o conteúdo está ali disponível para todo mundo, vai, aprende quem quer, mentira, tem todo um estímulo de a pessoa se sentir confortável, aprendendo o que ela está lendo, aquele conteúdo, enfim, e tudo mais.

Amanda Fernandes – E eu vejo também que tem o lugar de você também se colocar no lugar do outro de ensinar também, aí falando mais de dia a dia, às vezes a gente não tem paciência nem para explicar alguma coisa, eu posso até me colocar às vezes em situações parecidas, vou trazer aqui o exemplo da minha mãe, espero que ela escute também, ela passou pelo processo da pandemia, e ela não tinha um contexto de trabalho, de trabalhar com plataforma tipo de comunicação, não era, não fazia parte do dia a dia dela. Então também a gente se colocar no lugar do outro de ensinar, vão ter as pessoas como a Layla falou, que são mais curiosas, que vão tipo, se virar ali, vão apertar um monte de coisa para aprender, mas vão ter aquelas que vão ter mais insegurança e a gente também se colocar nesse papel aí de paciente, para ser paciente para explicar o outro. Acho que a Layla trouxe muito bem, até a outra pergunta, quando a gente falou de a escuta, também perguntar para o outro o que é que você não está entendendo, se colocar e querer ouvir, acho que é a empatia também.

Ana Paula Xongani – Maravilhoso. Eu tenho essa experiência assim, a minha mãe ela tem 63, e ela super digital, ela está em todas as redes, inclusive foi convidada pelo próprio Tik Tok para estar no Tik Tok já nessa visão de mercado da própria plataforma, de entender que se os mais velhos estiverem lá, mais fortalecido estará a plataforma. Então ela foi convidada, ela está lá fazendo Tik Tok, inclusive muito mais do que eu. E existe um senso muito forte na maioria das culturas, e aqui no Brasil também, que o trabalho é a nossa principal forma de exercer cidadania, de se mostrar útil, capaz. O trabalho nos oferece a possibilidade de convívio com outras pessoas, de conhecimento, e também um papel importante na individualidade das pessoas. Não é à toa que a gente costuma emendar a nossa profissão logo depois do nosso nome, quando a gente se apresenta para alguém, não é?

Ricardo Morais – Aqui em São Paulo então é quase que primeiro você fala o seu cargo, para depois falar que faz, para depois falar o seu nome. É até bizarro. E quando o trabalho é tirado das pessoas, é comum elas se sentirem insuficientes, e para que tenha o direito ao trabalho negado, que é pior ainda, acabam sendo muito fortemente também você medir desprezo, de rejeição. Bom, quais medidas vocês acham que a gente poderia existir ou serem mais exploradas para que essas pessoas mais velhas tenham oportunidade de trabalhar? Como é que você imagina isso, Amanda?

Amanda Fernandes – Acho que esse ponto importante que você trouxe, Ricardo, de se sentir útil. Então, e a Layla também trouxe muito até do empreendedor de 40 anos, digamos assim, de enxergar, agora eu tenho esse cliente, e aí não tenho espaço para ele. Então é realmente escutar quem, escutar as pessoas, que querem continuar ativas também. E as medidas, eu vejo muito de dar oportunidade e tratar de igual, sabe, mas tendo um espaço para isso, sendo de uma forma genuína, e não só ah, vou colocar porque está na moda ter gente mais velha aqui na minha empresa. É de fato dar oportunidade para que eles apresentem propostas, projetos, criem espaço de troca, e de aprendizado também, com quem é mais novo, enfim, outras gerações.

Layla – Essa fase de encerramento de ciclo, que é essa quando a pessoa perde o sobrenome corporativo, ele impacta muito, até eles têm alguns estudiosos, antropólogos que falam que é a segunda grande revolução da nossa vida adulta, na verdade, por que a gente tem ali a faculdade, e depois você trabalha, trabalha, e depois tem o pós-trabalho. Então assim, eu acho que é um grande marco na nossa vida adulta, quando a gente perde esse sobrenome corporativo, e isso tem um impacto enorme, principalmente nos homens, que os homens mais velhos que depois de perder esse status, e até o papel dele na sociedade, na família, que é do provedor, que é daquele, o cara que trabalha e tal. E aí quando ele volta para casa, ele está sem espaço, ele não sabe o que fazer, então a gente vê ali uma queda, assim, um momento de depressão muito forte, assim, acentuado, dá para ver assim na jornada da vida dos estudos, que eu vejo, e também de pessoas perto de mim. E algumas empresas já estão olhando para isso, como um olhar social, e estão já se questionando, isso, essa, toda essa queda no padrão de vida, dessa parte emocional, essa depressão e tudo mais, isso é minha responsabilidade social, já tem algumas empresas que estão bancando isso, que estão se questionando, estão bancando esse assunto. E fala: é, é meu papel social, e aí o que é que elas têm feito, tradicionalmente tem um programa que chama programação pré-aposentadoria, que era uma coisa meio dessas coisas, tipo assim, sabe, está lá na regrinha do RH, você vai e segue e tudo mais, e o bonde anda, e é aquele PPT de 20 anos atrás, e até tem muita gente que fala em entrevista, que fala assim: eu descobri que eu estava velho quando chegou um e-mail me chamando para o PPA, para o Programa Pré-Aposentadoria, que até então eu não tinha, eu não sabia que eu era velho. E me contaram, então espera aí, opa, eu vou levar um chute na bunda, vão me demitir, e eu vou ter que me virar. Então essas empresas que já estão mais sensíveis ao tema, estão transformando esse Programa Pré-Aposentadoria para Programa Para Longevidade, para PPL, que é o olhar para essa vida, é quase assim, são encontros de preparação para esse profissional, é continuarem nessa longevidade que está cada vez mais extensa. O que é que essa pessoa vai fazer depois dali? Será que tem como ela começar a prestar consultoria para a empresa, e é uma forma de a gente garantir a experiência dela. E ela continuar gerando renda e trabalho, e aí isso vai meio que indo aos poucos, meu avô lá atrás, naquela época que podia ter três aposentadorias, felizmente, ele fez isso, então ele foi engenheiro da Usiminas lá em Belo Horizonte, saiu, fez a primeira, aposentou, e aí ele ficou como consultor por aí mais uns 15 anos. Tem como a gente fazer isso? Já tem algumas empresas bancando isso, entendendo que é o papel social delas, e eu acho que é uma coisa bem inteligente da empresa, por que é um formato de você fazer um bem social para o seu colaborador, garantir isso, então já como benefício isso é interessante, a empresa se torna mais atrativa, e também ainda manter o conhecimento perto.

Ana Paula Xongani – Bom, já começamos as dicas, vamos continuar, agora a gente vai começar o nosso quadro Dica Extracurricular. Esse quadro, é para eu pedir para vocês nossas convidadas, eu, Ricardo também, dar uma dica para a gente continuar esse papo. Pode ser uma palestra, pode ser um filme, um vídeo, uma dica de leitura, pode ser alguma coisa que esteja no Instagram, o que vocês quiserem. Quem quer começar as dicas de hoje?

Amanda Fernandes – Eu separei uma dica aqui, foi até onde eu conheci o trabalho da Layla, então...

Ana Paula Xongani – Hum!

Amanda Fernandes – Por coincidência depois eu me dei conta de que ela estaria aqui entre nós, é o podcast da CBN Gerações, então acho que é muito legal não só a gente falar do tema em si, de hoje, mas de gerações de uma forma geral, por que não tem como falar só de gente mais velha, só de gente mais nova, a gente tem que falar de todas as gerações no mesmo espaço. Então acho que são histórias e trajetórias legais de aprendizados, de profissionais, enfim, de diferentes idades. Então deixo essa aí a minha dica para vocês.

Layla – Muito bom.

Ana Paula Xongani – Arrasou. Layla, a sua dica.

Layla – Olha, a minha dica para quem tem Netflix, é assistir Grace and Frankie, gente, que é o melhor seriado, assim, você vai quebrar todos os preconceitos, todos os tabus, quando você ver duas mulheres acima de 80 anos, vendendo vibrador, assim, você quebra tudo, tudo, tudo cai por terra. Então assim, assistam, quem não tem Netflix, sigam a Rita Lee no Instagram, que já é também, Vera Bolt que é maravilhosa. Então assim, só vai, gente, sigam pessoas mais velhas e inspiradoras, que vão te dar, te dar gás para chegar lá bem.

Ana Paula Xongani – Muito bem. Você, Ricardo, tem dicas hoje?

Ricardo Morais – Tenho. Eu peguei um, que é um canal que tem no YouTube, a voz da razão, é um programa apresentado por três mulheres, a Gilda de 78, a Sandra de 83 e a Helena de 92. Elas respondem perguntas enviadas pelos internautas, assim através de vídeos mandados por WhatsApp, e elas colocam sempre no canal delas no YouTube. E aí tem toda sorte de opinião, conselho, muito, muito, muito engraçado e perspicaz, porque elas contam com a história delas, as três amigas se conhecem há mais de 50 anos, então elas colocam, tiram esse estereótipo da vovó e você tem aquele conselho de alguém com muita experiência. É fenomenal, é fenomenal, assim, vale à pena.

Amanda Fernandes – Ricardo, a Helena é muito mais jovem do que eu, viu? Olha, a gente já viajou juntas, vou te contar que ela é muito mais jovem do que eu, com seus 92 anos.

Ana Paula Xongani – Maravilhosos. E o nome do canal é ótimo, porque tem um trocadilho, a voz e avós, enfim. Já entrevistei elas também, incrível, incrível, incrível. Vou indicar também um vídeo do YouTube, da Maira Lemos, ela traz várias reflexões sobre os idosos e sobre essa fase da vida, e quero indicar também minha bloguerinha preferida, Cris Mendonça, Cris minha mãe, que como eu disse, está no Instagram, e também está arrasando muito mais do que eu no Tik Tok. Para a gente se aproximar dessas referências, desse cotidiano de pessoas sexagenárias, como eu disse, é o jeito que ela gosta de ser lembrada. É muito bom para a gente se aproximar mesmo, gerar afeto, empatia e levar para o mercado de trabalho. E não esqueçam, tá gente, o mercado também é seu, pessoas com 50+ e sexagenárias. Bom, quero muito agradecer Eva, Gilusete e Cristina, pelos depoimentos, para o Manda o Papo de hoje, sem dúvida, vocês foram fundamentais para a gente fazer esse episódio de hoje, quero agradecer também vocês duas, Layla, Amanda, você Ricardo, por todas as contribuições e por esse desejo de a gente fazer um mundo melhor, um mundo mais justo para daqui a pouco, ser um mundo nosso, que daqui a pouco a gente também tem 50+.

Ricardo Morais – Obrigado Layla, obrigado Amanda por terem vindo, eu fico muito feliz de ter tido essa conversa com vocês, é legal quando a gente fala de um assunto desse que é um presente para alguns e é o nosso futuro, para daqui a pouco.

Layla – Obrigada, pessoal, pelo convite. Acho que você fechou aí com uma chave de ouro, Ricardo, falando do presente para alguns e o futuro, não tem como a gente não olhar para frente, é o nosso lugar que a gente vai ocupar. Então se for para pensar com mais carinho, pensa também aí você que você vai chegar lá também.

Amanda Fernandes – Isso, obrigada, gente, adorei o papo, nossa, muito gostoso, e vou terminar também com essa pergunta aí que não é minha, viu, é da Candice, ela é uma outra estudiosa do assunto, e ela fala assim: o que é que você hoje está fazendo para sua velha do futuro? Ou o seu velho do futuro? Hoje eu já comecei, viu, por que eu fui na nutricionista, até atrasei aqui. Então, assim, o que é que hoje você está fazendo? Obrigada.

Ana Paula Xongani – É isso. Ou aquela também não é minha, mas o que você quer ser quando envelhecer, né?

Ricardo Morais – É.

Ana Paula Xongani – É isso, eu quero sempre te convidar, acessar as nossas redes sociais no Facebook, ir lá no Instagram, @trampapo.podcast, entra no nosso site que todas essas dicas estão lá listadas, facinho para você continuar pensando sobre isso. A gente se vê no próximo episódio do Trampapo. Um beijo e até a próxima.

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