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Qualificação: um chamado para a liberdade
#18

Qualificação: um chamado para a liberdade

QUALIFICAÇÃOConvidados:

Patrícia Anunciada - Educadora e pesquisadora das relações étnico-raciais

Camila Almeida - Líder da Arco Academy e design estratégico na Arco Hub de Inovação

Sobre:

Exigente e competitivo. É assim que se encontra o atual mercado de trabalho. Mas na corrida por um emprego, será mesmo que todos largam juntos nessa? Como ficam aqueles que não tiveram acesso a uma boa educação? No episódio #18 do Trampapo, Ana Paula Xongani e Ricardo Morais falam sobre como a qualificação pode te libertar para uma vida profissional mais feliz e para um mercado de trabalho mais diverso. Para essa conversa, recebemos Patricia Anunciada, educadora e pesquisadora das relações étnico-raciais, e Camila Almeida, líder da Arco Academy e design estratégico, que comentam sobre educação humanizada e seu processo de inovação, desigualdades sociais, meritocracia, escola do futuro e a relação entre qualificação e empregabilidade. Como podemos romper as barreiras e ajudar com a ascensão das pessoas menos favorecidas? As empresas podem contribuir para isso? Quais são as desvantagens de se adotar um sistema EAD? Além disso, tem dicas de qualificação gratuita ou barata! Aperte o play e descubra que a educação deve ser prática para "todes" e visar a liberdade sempre!

Qualificação: um chamado para a liberdade
Transcrição:

Ana Paula Xongani – A existência humana é por que se fez perguntando a raiz da transformação do mundo, há uma radicalidade na existência, que a radicalidade do ato de perguntar. Radicalmente a existência humana implica em assombro, pergunta e risco. E por tudo isso, implica em ação, transformação. Com essa citação de Paulo Freire, abrimos o Trampapo de hoje, para te fazer questionar, afinal, se as perguntas transformam o mundo e queremos o mundo mais justo, com mais oportunidades, iguais, empregos dignos, e liberdade para sermos e fazermos o que quisermos sem dominação, precisamos refletir sobre como a qualificação que conhecemos hoje, é um mecanismo que perpetua a desigualdade social, racial e de gênero. Além disso, em um mercado cada vez mais competitivo, um cursinho básico de informática ou de inglês, não é suficiente para você ser alguém na vida. Hoje em dia, talvez o nome da faculdade que você cursou, seus diplomas e idiomas te ajudem a vencer o seu rival na corrida por um emprego. E nessa corrida, como ficam aqueles que não tiveram acesso a uma boa educação? Será que correr com as próprias pernas é o bastante num mercado cada vez mais exigente? Vamos descobrir no Trampapo de hoje, como a qualificação pode te libertar para uma vida profissional mais feliz e para um mercado de trabalho mais diverso.

Ana Paula Xongani – Olá, eu sou Ana Paula Xongani, e o Trampapo busca ser um podcast inclusivo para as pessoas com deficiência. Então para quem precisa de acessibilidade, pode conferir a transcrição dos programas em texto ou em Libras, no nosso site. Anota aí: www.trampapo.com.br. Eu aqui vou fazer minha autodescrição para que vocês possam me conhecer melhor. Como eu disse, eu sou Ana Paula, eu sou uma mulher preta, agora de cabelos crescendo, não é Ricardo?

Ricardo Morais – Está ficando grande, hein.

Ana Paula Xongani – Cada episódio um pouquinho maior, eu tenho corpo volumoso, olhos escuros, hoje eu visto uma roupa listrada, com várias cores, com predominância em roxo, unhas coloridas, uma calça semissocial, e como sempre, tênis no pé. E você Ricardo?

Ricardo Morais – Oi pessoal, tudo bem? Eu sou Ricardo, estou de Gerente Sênior da Catho. Vou participar aqui como todas às vezes, aqui puxando um assunto junto com a Xongani. Bom, eu sou para esse caso aqui, específico, pensando para esse episódio, eu sou Professor, então para mim é ótimo bater papo sobre qualificação. Eu hoje estou de, eu sou um homem branco, olhos verdes, barba grisalha, logo-logo esse grisalho vai ser só branco. Cabelo preto, ainda está curto, hoje eu estou vestindo um tênis preto, uma saia de linho, sempre amassada como todo bom linho, e uma camiseta preta que há quase três anos não me servia, agora serve, pensa numa pessoa feliz.

Ana Paula Xongani – Eu diria que sua roupa preferida, hein Ricardo?

Ricardo Morais – Sim, sim. Vou aproveitar aqui também e já puxar as nossas convidadas para falarem com a gente. Patrícia. Fala para a gente, conta sobre você.

Patrícia – Eu sou Patrícia, eu sou uma mulher negra, tenho cabelo cacheado, olhos castanhos. E eu estou vestindo uma roupa listrada com predominância de amarelo. E tênis amarelo também.

Ricardo Morais – Legal, bem-vinda. Camila.

Camila – Oi pessoal. Eu sou uma mulher parda, não sei como significa essa cor, mas enfim. Eu sou uma mulher parda, de cabelo curto cacheado, eu uso óculos. Eu tenho uma pinta no queixo, isso é importante, é meu diferencial, hoje eu estou vestindo uma regata laranja, uma calça pantalona preta e uma sandália estampada com flores. E eu atuo como designer de serviço e designer de experiência.

Ana Paula Xongani – Muito bem, temos um timaço hoje. E para falar sobre um assunto que certamente não vai se esgotar nesse episódio, porque hoje a gente vai falar sobre educação, e a gente sabe que a educação está literalmente em tudo. A forma como somos educados, reflete diretamente no presente e no futuro de todas as relações sociais, principalmente no mercado de trabalho. Para muitos, você para ser alguém na vida, você precisa ter um determinado tempo de estudo, um determinado diploma, geralmente de uma faculdade específica, desenvolver um trabalho intelectual, e a qualificação é entendida como um processo de preparar o profissional para produzir dinheiro, seja para si próprio, ou seja, para o mercado, ou seja, para o sistema econômico. Mas para mim e eu acredito que para muitos aqui, a educação vai muito além disso. É principalmente a possibilidade de a gente construir imaginário de que tudo é possível, onde todos possam participar desse processo de educação. É permitir que o conhecimento seja absorvido e também produzido por todos, com o mesmo respeito. Assim, as possibilidades de caminhos serão diversos, serão vários. E não segregado a um grupo específico privilegiado, que se beneficiam dessa sociedade excludente. Então para começar esse bate-papo aqui, eu queria saber de vocês o que é educação na opinião de vocês? Vamos começar com você, Camila.

Camila – Legal. Educação para mim é muito do que você falou, e principalmente sobre criar pontes assim, eu acredito que educar é você possibilitar que o conhecimento se construa, não necessariamente sobre você jogar na cabeça de alguém, milhares de informações, as pessoas não são HDs, elas não são livros em branco que a gente preenche. Então como que o educador consegue conectar com quem está sendo educado, experiências, conteúdos, vivências para que isso transforme dentro daquela pessoa, e de fato vire alguma coisa útil para a vida dela, útil para que ela consiga aplicar, seja no mercado de trabalho, ou em qualquer outro lugar.

Ana Paula Xongani – E para você Patrícia, o que é educação?

Patrícia – Então, além de ser Professora, eu sou mãe. Então para mim a educação ela começa ali, já na gestação. Então por que a criança está ouvindo a sua voz, enfim, está criando uma relação, e acho que a educação ela é um processo que começa e não acaba nunca. Então para mim é um processo continuo sempre, e ela está no gesto, está no olhar, está na forma como a gente se expressa, como a gente se relaciona com as pessoas. Então é um processo muito amplo, que a gente acaba delimitando muitas vezes para o banco das escolas, das universidades. Mas eu acho que o tempo todo, em todos os momentos a gente está educando e sendo educado, que a gente como um ser social, a gente aprende, desaprende, o tempo todo. Então para mim educação é esse processo que a gente está em constante aprendizado, e que tem um começo, mas não tem fim.

Ana Paula Xongani – Ricardo, Professor, traz sua perspectiva, o que é educação para você?

Ricardo Morais – Eu acho legal, porque o que a Patrícia colocou, minha mãe é professora, minha mãe é Pedagoga. Então para mim, e meus irmãos também aprenderam, começaram a ser professor também, alguns seguiram carreira, eu depois ao longo do tempo também caí. Eu digo por que cair, porque você é pego, você cai na educação, acabou, você nunca mais deixa de ser. Tenho uma irmã que virou defensora pública, mas ela foi historiadora, sempre deu aula, a primeira coisa que ela fala: ah, eu sou professora. Porque você não deixa de ser. Educação para mim aí é um processo de crescimento, dos dois lados. De quem ensina e de quem aprende. Então se você de fato coloca a educação como algo que é necessário para você como pessoa, para crescer, crescer na sociedade, você sempre está aprendendo. É uma paixão eterna.

Ana Paula Xongani – Bom, já deu para sentir o impacto que o modo de educar tem perante a vida de todas as pessoas, e no mercado de trabalho isso é muito visível. A ligação está diretamente, por exemplo, com o cargo que você vai ocupar quando você começar a trabalhar, qual, quem são as pessoas que vão fundar as empresas, quem serão os fundadores, quem serão os empregados. A educação também tem a ver com o modo que o mercado se expressa. Com o modo que o mercado vai se pôr, se transformar. Então se hoje temos indústrias com corporações, microempresas, que exploram capital humano, desrespeitam os funcionários, lucram ilegalmente, poluem e cometem tantas atrocidades, é também resultado de uma educação que vem formando estudantes e adultos desumanos, sem olhar para o próximo, opressores, materialistas, anos após anos.

Ricardo Morais – Bom, novamente citando Paulo Freire, não é, o mais célebre educador, diga-se de passagem, brasileiro, tem gente que reclama dele, mas a melhor pessoa, hein, por favor. Quem apenas fala e jamais ouve, quem mobiliza o conhecimento e transfere a estudantes, não importa se de escolas primárias ou universitárias, quem ouve o eco apenas de suas próprias palavras, uma espécie de narcisismo oral, quem considera a petulância da classe trabalhadora, reivindicar seus direitos, quem pensa por outro lado, que a classe trabalhadora é demasiada, inculta e incapaz, necessitando por isso ser libertada de cima para baixo, não tem realmente nada que ver com libertação, nem democracia.

Ana Paula Xongani – E uma educação sem liberdade e sem democracia, não é educação, é alienação, é condicionar pensamento e comportamento que vão manter girando essa roda do jeito que ela está hoje, a gente quer sempre transformar essa roda como é que está. Onde opressores, bilionários e políticos corruptos lucram com a exploração e a precarização de vida dos trabalhadores. Ou seja, o que a gente está aqui propondo, é que a gente tenha uma educação onde todes participem, de forma ativa, e para isso é preciso liberdade, uma vez eu ouvi uma frase que disse que liberdade é não ter medo, na educação é isso, para a gente ter liberdade, a gente não pode ter medo de se expressar. Então eu queria saber de vocês, vocês três, hoje eu estou aqui, Rick, me sentindo como? Diante de pessoas que vão me ensinar, que você como Professor também. Como podemos usar a educação como ferramenta para construir um mercado de trabalho mais humano, aonde começa tudo isso, é lá atrás? E no ensino fundamental, é na barriga da mãe, é antes? Aonde começa uma educação humanizada que vai impactar lá na frente no mercado de trabalho?

Patrícia – Eu acho que começa na barriga da mãe, mesmo, eu acho que a educação humanizada começa quando a gente trata bem o porteiro, quando a gente mostra para as crianças, como as outras pessoas devem ser tratadas. E pensando na educação, é muito engraçado pensar educação humanizada, porque realmente a educação nos humaniza. Acho que a escola, na verdade, a escola, a educação que é oferecida na escola, cria muitos abismos e acaba refletindo a desigualdade que tem na sociedade. Então eu acho muito contraditório, mas na nossa sociedade faz todo sentido falar em educação humanizada, porque o tempo todo a gente está vendo a desumanização, por meio da desigualdade, a gente vai vendo as pessoas que têm acesso ao mercado de trabalho, as pessoas que não têm, as pessoas não são culpadas, a sociedade é culpada, eu acho que a gente está num processo de culpar as pessoas, ah, você não chegou lá porque você não se esforçou o suficiente, porque você não passou nesse vestibular, porque você não estudou o suficiente. Então eu acho que a gente precisa lidar com essas questões sociais e levar para a sala de aula e mostrar que a nossa realidade ela é embasada em justiça, em desigualdade, é estruturante.

Camila – E aí só um complemento, o que a Patrícia está trazendo é muito essa questão da representatividade, então a educação, ela tem esse poder de colocar na nossa frente, logo no início, o que é bom, o que é mau, o que deve ser feito, o humano ele aprende por imitação, somos macaquinhos de imitação, a gente aprende vendo o próximo. Então se o mundo é violento, e é tudo que a gente coloca na frente das pessoas, ou se o mundo é desigual, se o mundo é corrupto, e é tudo isso que eu coloco na frente, eu vou aprender que está ok, que está normal, que faz parte. E não tem que reagir a respeito, porque eu não vejo exemplos de reação, eu não vejo outros caminhos. Então um papel que eu acredito que é muito grande dos educadores é: como que eu transmito ou como que eu pratico esse pensamento crítico, de que esse mundo que está sendo colocado na sua frente, não é a realidade. Não é a única versão da realidade no caso. E como que a gente cria caminhos para que essas pessoas desde pequenininhas, até enfim, já dentro de organizações, consigam se libertar desse show de Truman, desse véu que está na frente delas e tomar uma atitude.

Ana Paula Xongani – Também precisamos questionar o quanto que o processo educacional colabora para a continuidade dessas opressões. O quanto que a forma que educamos as crianças, adolescentes, e também universitários, gente, porque vamos lá, todo mundo já vai sentir o arrepio na coluna, porque a universidade é um espaço muito complexo. O quanto que isso corrobora com o machismo, com o racismo, com o capacitismo, capacitismo para quem não sabe, é o preconceito com as pessoas com deficiência. Gordofobia e xenofobia. Enfim, com todas as formas de desrespeito e privação do direito do próximo. O estudo precisa ser entendido como um ato contra a hegemonia patriarcal e racista, precisa transgredir, a educação precisa ser prática que visa a liberdade sempre.

Ricardo Morais – Bom, é aquela coisa, não é, tem educação para dominar, educação para libertar. Existem programas educacionais e professores que reproduzem padrões, em discursos que impactam desde a pessoa desde a infância de algum modo, até quando crescem, enfim, se mantém. E esse modo varia de acordo com a classe social, no gênero e etnia de cada uma dessas pessoas.

Ana Paula Xongani – É sobre isso que fala o livro da nossa rainha, Bel Roux, Ensinando a Transgredir, é o nome. A educação como prática de liberdade, a autora é Professora, Filósofa, Teórica, Feminista, Artista e Ativista Racial, dona da minha vida, e aborda um tipo de educação transgressora. Para além das fronteiras raciais de gênero e de classe, é transgressora, mesmo. Em sua vida, Bel Roux experimentou diferentes ambientes de educação, em um na sua infância, enquanto havia a segregação no Sul dos Estados Unidos, ela aprendia com professores e colegas negros, e entendeu ali como um local seguro, um local de descoberta, e isso gera o quê? Libertação. Outros tantos lugares foram ambientes de dominação e obediência, muitas vezes os professores brancos que reforçavam os estereótipos, silenciavam culturas diferentes, silenciavam as culturas afrodescentes, ignoravam tentativas de aprendizado, de estudos dos negros, e não propunha o que você falou, que é a diversidade, não propunha debates e referências teóricas que representasse ela como uma mulher negra.

Ricardo Morais – E aí também está a importância de um espaço seguro para poder potencializar o aprendizado, estimular a fala, a curiosidade e os questionamentos críticos. E para criar uma sala de aula plural, precisam entender a dor de abandonar as velhas formas de pensar, e está complicado. Que queremos sempre ambientes que viabilizem a transgressão, uma nova forma de ver o mundo. Como vocês acham que a mentalidade, aquilo que chamamos de mindset para inovação, pode ser estimulada? Mindset é então mentalidade, forma que você pensa, seja no contexto inchado, bem específico, quando a gente entra em uma determinada profissão/área, ou de um modo maior, mais macro, que inclusive possa viabilizar mudanças positivas para o mundo, como você acha isso, Camila?

Camila – Bom, o mindset para inovação, quando a gente fala de inovação, a gente está falando de experimentar alguma coisa nova, de sair da nossa zona de conforto. E para que a gente saia da zona de conforto, a gente precisa de uma zona de segurança. Então para inovar, eu preciso estar seguro. E aí independente de você estar num ambiente estudantil ou se você está realmente já num ambiente de trabalho, numa empresa, se você não tem esse espaço de segurança, fica muito complexo você conseguir inovar. Porque inovar significa correr riscos, e se você se arriscar e falhar, tem grandes consequências. Então para mim, o fomento do mindset, o fomento da mentalidade inovadora, começa com o fomento à experimentação, pequenos experimentos, com pequeno impacto, ensinando essas pessoas a transitarem sem medo. Estou falando de experimentação, eu quero falar de você conseguir experimentar sem medo de errar. E saber que se você errar, está tudo bem, porque é um experimento, você vai aprender alguma coisa com isso. E esse espaço de segurança, ele pode ser oferecido pela sua empresa, então laboratório de experimentação com projetos pequenos, em que você pode testar, mas principalmente pelas escolas e universidades. Então quando a gente é muito criancinha, a gente tem esses espaços de experimentação, a gente ganha uma folha de papel, lápis de cor e a gente faz um rabisco e fala que é um elefante, e todo mundo bate palma. Ninguém diz para você que aquilo é um bloby, uma coisa estranha. Conforme você vai crescendo, você vai tendo regras, você vai tendo que se adequar, e essa experimentação vai ficando cada vez mais arriscada, mais difícil de acontecer. Então o que eu proponho é que a gente retorne para esse ambiente mais fluido, mais livre, em que a gente aprenda primeiro e execute depois.

Patrícia – Eu acho assim, que a gente é muito castrado em todos os sentidos, a gente não tem muita autonomia. Porque por mais que a gente tenha uma certa liberdade na escola, a gente tem que ter o mesmo resultado no final. Então, por exemplo, eu questiono muito o ensino de matemática, porque assim, às vezes você chega de formas diferentes no mesmo resultado, mas todo mundo tem que chegar do mesmo jeito naquele resultado. Então quando o professor, a própria educação, ela impõe alguns padrões, e a gente na escola, eu acho que a gente aprende muito a ser contido, a ser castrado, a ter pouca autonomia. Então eu tenho que reproduzir o que aquele autor disse, e na própria universidade, você faz um TCC, você não pode falar em primeira pessoa, você tem que ah, segundo fulano de tal, o TCC é um resumo de vários autores, e o mestrado também, eu concluí agora o mestrado, a dissertação, e é isso, eu ainda tive um pouco de liberdade, porque eu pude escrever em primeira pessoa. Mas assim, foi uma troca assim, que o meu orientador aceitou e que bancou, mas muita gente não banca isso, uma dissertação em primeira pessoa, porque a gente tem que sempre ter embasamento do outro, porque a gente é como se fosse vazio, eu não sei nada, então se eu não citei fulano de tal, que é mais famoso na área, estou tratando de educação, eu não posso ter um ponto de vista próprio, eu tenho que sempre embasar. Então acho que na educação, e mesmo no mercado de trabalho, as pessoas elas não sentem que elas têm essa liberdade, porque o tempo todo, eu tenho medo de errar. Então a gente segue muito uma cartilha, a gente quer viver com o script. Então eu acho que no mercado de trabalho, é sempre aquele script, e fora que assim, é sempre aquela coisa, a gente não tem liberdade, tem horário para entrar, tem horário para sair, tem horário para almoçar, então o tempo inteiro a gente é castrado, a gente é condicionado para um determinado comportamento.

Ana Paula Xongani – E complementando essas possibilidades que vocês falaram, ainda mais quando você fala da escola, até por que existem várias maneiras de ensinar e também existem várias maneiras de aprender, várias maneiras de trocar o tempo todo. Cada vez mais tem que ser falado da tal escola do futuro, que envolve mudanças na forma como os alunos se sentam na sala de aula, por exemplo. Até o protagonismo que é cedido para o professor, é questionado. Na escola do futuro, por exemplo, as cadeiras são em rodas, inclusive reproduzindo educações africanas, as pessoas aprendem em roda. E o aluno teria o primeiro contato sobre o conteúdo em casa e depois ele chegaria na escola já para essas discussões, ou seja, quando ele tem contato antes em casa, ele traz não só o conteúdo, mas ele traz toda a sua vivência.

Ricardo Morais – Legal quando você começa a ver que o papel do professor é questionado como alguém que manda, mas eu acho que o professor tem que ser basicamente um maestro, ele só vai garantir que tudo, o facilitador. Bom, outra metodologia também é o Eduscrum, acho que de educação no Scrum, que é uma terminologia que a gente usa bastante em tecnologia para falar o método de como as coisas podem acontecer dentro de um projeto. Bom, no Eduscrum, os alunos dividem pequenos grupos, definem as tarefas de cada um em um projeto, e a cada rodada é definido o novo líder de time. É exatamente como a metodologia age ou fala em tecnologia. Com essa metodologia, é possível desenvolver a autonomia dos estudantes, e até habilidades de liderança, que é muito bacana desde cedo você saber quem vai ter esses papéis e como exercer esses papéis. Bom, fora isso, os alunos também terão para desenvolver habilidades como inteligência emocional, criatividade, gestão de pessoas, resolução de problemas, pensamento crítico, coordenação, tomada de decisões, negociação, ufa, e flexibilidade cognitiva. O que eu acho legal é, esse estudo personalizado, ele também pode ser uma espécie de inovação, de toda forma é isso que ele acaba trazendo. Então nesse modelo de estudo, uma grade curricular é feita em cima das características pessoais de cada aluno, e aí levando em consideração suas dificuldades e seus talentos naturais.

Ana Paula Xongani – Já falamos muito por aqui que a educação tem um enorme poder de transformação. E não falta caminhos, é importante assim, a gente exaltar, porque temos muitos educadores preparados e teorias que podem promover o avanço social, através da informação e da educação. Mas por outro lado desta moeda, está o quê? O poder público, e não é nenhum segredo que as autoridades, principalmente de hoje em dia, não tem interesse nenhum em inovação e estimular pensamento crítico, em conscientização de classe, em conscientização de gênero e de raça, muito pelo contrário.

Ricardo Morais – É, vou dizer que essa gestão atual é péssima, mas isso não faz as anteriores terem sido nada boas, como educador a gente sabe que isso aí vem de muito, é um plano contra a população desde todo o sempre. E essas últimas notícias a respeito de educação são péssimas, desanimadoras para dizer no mínimo. Bom, além de uma pandemia que já serviu para afundar a desigualdade de ensino entre alunos de baixa, média e alta classe. Então quem tem acesso e quem não vai nenhum acesso. Há o desmanche de política de incentivo da educação nos últimos anos, isso é a pior coisa ainda, até o investimento de longo prazo está acabando. Bom, teve limitação no teto de gastos com a educação, cortes, encerramento de bolsas e programas como CAPES, Prouni, Sisu, Ciências Sem Fronteiras. Sem me aprofundar também na desvalorização dos profissionais de educação, cada vez mais o educador é deixado de escanteio, aí tem desde salários que são péssimos e ínfimos, e contém trabalhos banalizados, e aqui acho que cabe dizer também que é o seguinte, a gente fala muito da educação pública, sobre esses programas, e dos baixos salários dos professores, mas na real, mesmo em escolas particulares, são péssimos os pagamentos, são péssimos. Tirando as grandes escolas, aquelas super renomadas, onde só tem alta e alta classe, no resto a educação particular é muito ruim e paga mal os professores.

Ana Paula Xongani – Em meio a tudo isso, continuamos com o quê? Uma sociedade super prejudicada. Quem depende então do ensino público, ou que não tem acesso as hiper escolas particulares, fica atrás de quem teve as melhores oportunidades, isso se reflete lá no mercado de trabalho, ocupando cargos menores, ou precisando estudar e ralar o dobro para conquistar um espaço no mercado. Pensando nesse descaso, que parece não ter fim, como podemos romper as barreiras e ajudar com a ascensão das pessoas menos favorecidas, e principalmente as empresas podem contribuir para isso, digamos que essa pessoa não teve a oportunidade em toda a sua formação. Ela chegou na empresa, o que é que pode mudar para mudar a vida dessas pessoas? Camila.

Camila – Bom, com certeza a empresa pode ajudar e muito, eu acho que é o papel social da empresa, eu sempre achei muito curioso a gente usar a palavra recurso humano, como se o humano fosse um recurso que tem fim, que acaba. Mas já que é um recurso, já que você está usando então, já que as pessoas estão a serviço da empresa, como que ela ajuda, como que ela fica a serviço, entendendo quem essa pessoa é, quais são os desejos e aptidões que ela tem, até onde ela pode ir nessa empresa, e como que a gente pode desenvolver ela. Então você pode ter desde ensino mais literal, então uma universidade corporativa, você pode ajudar essa pessoa a se especializar em alguma área específica, você pode trazer conhecimento para dentro da empresa ou solicitar que ela faça algum curso fora, que ela tenha essa capacitação por fora.

Ana Paula Xongani – Pode fazer rodas, rodas de conversa, onde cada um ensina, aprende?

Camila – Pode, era isso que eu ia sugerir. Então na verdade, as empresas, elas têm um enorme potencial interno, que são os outros, as outras pessoas que já estão lá, há mais tempo, fazendo aquela coisa há mais tempo. Então fomentar rodas de conversa, fomentar trocas, fomentar realmente que as pessoas se conheçam e aprendam umas com as outras. Eu acho muito bonito quando você tem a oportunidade de trabalhar do lado de alguém que faz uma função diferente da sua e você aprende o que a pessoa faz, claro que você não vai fazer exatamente a mesma coisa, mas você entende como que o seu trabalho, a sua entrega impacta. Isso te torna mais empático, humaniza o teu trabalho, porque você sabe que tem uma outra pessoa que vai receber, empodera, você fala, é importante eu fazer isso direito, porque vai chegar ali de outra forma.

Ricardo Morais – E todo mundo gosta de aprender, não tem essa, todo mundo fica feliz quando aprende uma coisa nova, mesmo que não vá praticar.

Ana Paula Xongani – E muita gente gosta de ensinar também, porque ensinar é maior gostoso.

Camila – Sim, total. E tem uma coisa de você poder também dar protagonismo. Então muitas pessoas sabem muito, estudam por conta própria, seja no meio que elas encontrarem, então livro, filme, podcast, o que achar, mas guardam para si. Porque às vezes ela está num cargo inferior, às vezes ela não é ninguém naquela empresa, e ela não passa para frente, e gente, elas são assim, poços de conhecimento.

Patrícia – Eu acredito que as empresas têm que fazer parcerias com a sociedade. Por exemplo, com as escolas, por exemplo, eu como Professora da rede pública, eu tive várias formações e escolas de idiomas, por exemplo, caríssimas que eu não poderia pagar, só que devido a uma parceria com a rede pública, eu tive acesso, então eu recebi uma bolsa, que eu era Professora de universidade pública, para ir para os Estados Unidos, por exemplo, uma coisa que eu nunca teria imaginado. Então é importante ter essas parcerias, com a própria sociedade, com, por exemplo, programas como o Jovem Aprendiz, eu comecei a trabalhar como Jovem Aprendiz com 16 anos.

Camila – Eu também.

Ana Paula Xongani – Eu comecei com 14.

Patrícia – Sabe, e naquela época, era mais comum, hoje em dia eu vejo pouco, mas as empresas, por exemplo, pagavam cursos de idiomas, então faz parceria com o seu entorno. Então tem escola de idioma, coloca seus funcionários naquela escola ou leva algum professor daquela escola para dar aula para os seus funcionários, enfim, tem várias alternativas, eu acho que é importante, as empresas elas muitas vezes, elas culpam as pessoas pela falta de capacitação. Então eu falo assim, ah, eu vou importar mão de obra de outro país, porque o Brasil, a população tem muito esse discurso. A nossa educação é defasada, a gente não tem bons profissionais. Mas por que é que ela é defasada? Porque as pessoas têm vontade, as pessoas têm interesse, mas muitas vezes é inacessível. Eu mesma como professora, eu gostaria de fazer cursos assim, nossa, mas eu não consigo pagar, porque, por exemplo, se eu fosse fazer mestrado em uma universidade como a PUC, que é onde eu me formei, isso seria 2.500 por mês, eu não tenho esse dinheiro para pagar. Então a gente, a PUC já foi mais filantrópica, enfim, mas acho que as empresas, as grandes universidades, precisam fazer parceria com a sociedade, mesmo, porque é um espaço em que muitas vezes as pessoas são privadas e não deveriam ser, porque a educação, a USP mesmo, a universidade pública que exclui um monte de gente da escola pública. Então as instituições muitas vezes em vez de fazer parcerias, elas vão excluindo, e elas vão pegando as pessoas que têm as melhores oportunidades, mas que vem de berço, que vem de família. Meus alunos do terceiro ano do ensino médio, eles receberam bolsa para estudar numa instituição assim de inglês, super cara, e assim, eles saíram com inglês fluente de lá. Então eu dei aula, eu falava: gente, eles falam melhor, inglês melhor que eu, eles chegavam com cada dúvida, coisa assim rebuscada que eu não usava com eles, porque é aquela realidade de ensino de inglês em escola pública. Então é importante você devolver para a sociedade, porque as empresas lucram bilhões, mesmo que seja debatendo do seu imposto, sabe, mas devolve para a sociedade uma parte daquele lucro, beneficiando os seus funcionários, os jovens que estão entrando na sua empresa, porque não é falta de vontade, muitas vezes é falta de oportunidade financeira, mesmo.

Ricardo Morais – Essa escola que fez esse programa, qual foi?

Patrícia – Alumni.

Ricardo Morais – Alumni, vamos falar, a escola fez programa legal, então está certo. Segundo informações da síntese de indicadores do IBGE, em 2018, 11% dos adolescentes com 15 a 17 anos de idade, que estavam entre os 20% da população, com os menores rendimentos, abandonaram a escola, sem concluírem o ensino básico. Zero. Oito vezes mais que jovens da mesma idade com maiores rendimentos. Então, dá para ver aqui como a desigualdade só enterra mais as pessoas, não é? Cerca de 40% da população brasileira com 25 anos ou mais de idade, não tinham instrução ou sequer concluíram o ensino fundamental. Considerando-se o analfabetismo entre as pessoas com 15 anos ou mais de idade, o Brasil tem a maior taxa, 8% entre 16 países da América Latina, segundo a UNESCO.

Ana Paula Xongani – E agora eu tenho uma pergunta que não é fácil, aquela pergunta de um milhão de dólares, que é: A desigualdade social, ela afeta e afetará sempre a vida das pessoas. Então a gente percebe que aquele discurso balela da meritocracia não faz nenhum sentido para a sociedade desigualdade que a gente tem, e que a gente vive. Como garantir, eu gostaria de fazer a pergunta assim, como garantir que todas as pessoas periféricas, pretas, mulheres, atípicos, consigam pelo menos uma chance justa quando tem menos acesso à educação, e menos acesso à qualificação profissional. Talvez essa pergunta seja muito difícil, não é? Todos. Então eu queria também transformar essa pergunta de uma outra forma. Quais caminhos a gente pode oferecer para as pessoas que estão ouvindo esse podcast hoje, e que querem ascender profissionalmente? E por mais que não tenha o apoio da sociedade civil, talvez não tenha as possibilidades financeiras da sua família, ou não esteja dentro de um ambiente favorável para isso, o que ela pode fazer numa gestão, num autoconhecimento, para transformar sua educação e para de alguma forma transformar sua vida?

Patrícia – Bom, realmente é a pergunta de um milhão de dólares. Mas um caminho possível, é muito isso um pouco do que Ricardo estava trazendo para a gente de ser o agente da própria educação. Então como que eu consigo buscar esse conhecimento que eu quero? Quem tem esse conhecimento? Eu acho que essa é a primeira pergunta: o que é que eu quero aprender e quem sabe isso que eu quero aprender? Como que eu chego nessa pessoa? Eu conheço alguém que conhece alguém? Hoje em dia a gente vive na era da rede social, então será que se eu perguntar num grupo de WhatsApp da família, será que o primo do amigo do tio do vizinho não conhece alguém que sabe fazer isso, que sabe falar do que eu estou querendo aprender? Se eu tenho estrutura, o que é que eu consigo achar na internet na minha língua? Se eu consigo acessar outras línguas, o que é que não tem disponível para mim nesse infinito que é a internet? E se eu não tenho essa estrutura, o que é que eu consigo físico, que acesso que eu tenho talvez a outros materiais, se eu consigo acesso à leitura, leitura, ótimo, senão será que eu consigo pedir para alguém me contar essa história? E eu acredito muito em chegar junto, chega e cola em alguém que sabe isso que você quer aprender, e cara, fala, eu adoro esse assunto, quero uma boa conversa.

Ana Paula Xongani – Gente, eu aprendo muito conversando.

Camila – Gente, foi assim que eu consegui meu primeiro emprego.

Ana Paula Xongani – Agora vamos para o nosso quadro Manda o Papo. Aqui é o momento que a gente tem de trazer mais gente para essa roda de conversa, inclusive se você quiser mandar seu áudio, sugestão, quiser participar aqui com a gente, é só entrar nas nossas redes sociais, no nosso site www.trampapo.com.br e participa aqui com a gente, quanto mais voz, mais gente falando, melhor. Vamos ouvir o Manda o Papo de hoje.

Aline – Olá, meu nome é Aline. Eu trabalho na rede particular de ensino há cinco anos e na rede pública há 10. E o que eu percebo na educação é o descaso, uma desvalorização muito grande. A educação ela ficou dividida em duas partes, uma parte que eu começo e a outra que é o descaso. A parte do comércio, o que vale mais é a quantidade e não a qualidade. Ou seja, você é o que você paga, se você paga, você passa. Então isso é uma questão muito delicada, isso desvalorizou muito a questão de aprendizagem dos alunos. Já a parte do descaso, é justamente a parte superdelicada, porque os nossos governantes não querem pessoas instruídas, não querem pessoas educadas, por quê? Porque não vão votar neles, nós teremos uma noção de política pública muito grande, e isso ia dificultar muito a questão da corrupção. Então essa é uma das partes que com certeza o governo aprendeu que tem que desvalorizar bastante o ensino, para que eles continuem no poder.

Ana Paula Xongani – Pensando ainda em alternativas, e de uma forma questionadora, antes mesmo da pandemia, do Covid-19, que ainda não terminou, os cursos EAD que são ensinos à distância, que a gente vai chamar assim aqui, mas pode ser também o ensino on-line, o ensino não presencial, já eram muito procurados, seja pela praticidade de você poder estudar em casa, seja pela necessidade de você estudar enquanto cuida dos filhos, ou seja, pela facilidade de você não ter que se deslocar para uma instituição de ensino depois de um longo dia de trabalho. E o EAD, pode se tornar uma substituta fixa para o sistema tradicional de ensino, isso pode se tornar realidade. Quais seriam as desvantagens de a gente focar no estudo EAD, deixando os métodos tradicionais um pouco mais de lado, onde a gente encontra menos as pessoas. Esse formato ele pode ser um aliado para as novas maneiras de pensar, de criar, de desconstruir, construir informação? Será que é uma forma de democratizar o ensino? Será que mais gente vai acessar o ensino superior por conta do ensino à distância? Como vocês veem isso? É uma alternativa ou é uma questão? Patrícia.

Patrícia – Eu acho que é uma questão, por exemplo, agora na pandemia como professora, tenho 22 turmas, mais ou menos 800 alunos.

Ana Paula Xongani – Nossa.

Patrícia – Pouquíssimos acessaram. Então pode ser uma facilidade para nós que temos o privilégio, que temos acesso à tecnologia, mas a realidade do Brasil, e isso eu estou falando de São Paulo, São Paulo, metrópole. Então assim, infelizmente, muitos alunos não acessaram, porque não tem acesso à internet, não tem computador, não tem tablet, tem um celular para a família, então às vezes batia o horário de aula, ou o pai e a mãe ia trabalhar e levava o celular, essa é a realidade do Brasil. E, infelizmente, acho que a pandemia ela veio escancarar uma coisa assim, que a gente já sabia, mas é possível, sim, por exemplo, eu fiz pedagogia pela UNESP, uma parte foi semipresencial, foi ótimo, porque você rompe algumas barreiras aí, e, por exemplo, tem acesso, faço curso com professores de outros estados, de outros países, porque tem agora a opção de EAD. Só que isso pensando na gente que tem uma estrutura, então eu acho que é uma questão, porque a maioria da sociedade não tem, então, por exemplo, você vai para outro país, as pessoas têm Wi-Fi em todos os lugares, até no carro. Então aqui no Brasil, onde você tem Wi-Fi é caro, é pago, e mesmo assim não é de boa qualidade. Então é uma questão, porque precisa de toda uma estrutura, que infelizmente, os nossos governantes não oferecem, e mesmo em universidade pública. Tem muitos alunos que também não têm computador. Então isso se tornou uma questão, mesmo dentro da própria USP. Ah professores, está bom, a gente vai ter que fazer essa disciplina, mas, e aí, eu não tenho acesso, eu não tenho computador em casa, usava computador aqui na universidade. Então assim, infelizmente a nossa estrutura ela é muito, deixa muito a desejar. Então se torna uma questão na nossa realidade social, mesmo.

Camila – Sim, com certeza. Complementando o que a Patrícia trouxe, supondo que as pessoas tenham a infraestrutura, então elas têm os equipamentos, elas têm a internet, elas conseguem ter espaço, porque não é só você ter a infraestrutura, você comentou sobre a questão do filho, gente, pandemia, isso não é, você não está em casa estudando de boa, você tem a sua vida para dar conta, a casa, a criança, o cachorro, o vizinho, então se você tem...

Ana Paula Xongani – O caos.

Camila – O caos. Então você tem a infra, você tem espaço mental, o EAD é uma excelente opção. Então acesso, pô, o que é isso, a gente está conseguindo ter acesso a cursos estrangeiros que não existiam antes e por conta agora dessa questão global, estão on-line, estão às vezes gratuitos. Você pode trocar com comunidades que você não teria acesso, eu tenho, eu participo de rodas de conversa de grupos, com pessoas pelo Brasil todo que antes talvez não fosse uma possibilidade agora, por que já que a gente não pode se encontrar fisicamente, não faz sentido restringir. Eu vejo o EAD sendo uma realidade para ensino superior só para quem consegue acessar essa estrutura. Mas eu vejo também muito para as universidades corporativas, das megaestruturas das grandes corporações. E aí só um complemento, eu acredito bastante que a gente vai viver um modelo híbrido, então eu sou formada em designer industrial, eu fiz, mexi com madeira, com processos físicos, esse é o tipo de coisa que você perde a qualidade no EAD, o aluno ele precisa pôr a mão, ele precisa, o aluno de produto, ele pensa em 3D, tridimensionalmente, arquitetura também.

Ricardo Morais – Sim.

Camila – Mas não só, então eu acredito que com a evolução das tecnologias e o acesso que as pessoas vão começar a ter, enfim, vão se ampliar ali, a gente vai ter esse modelo híbrido, em que eu tenho a maioria do meu ensino em casa, eu recebo material, eu consumo, eu debato às vezes com colegas, e aí eu vou para a escola para uma prática, para um laboratório, para uma sessão especial, mas eu vou uma vez por semana, uma vez a cada 15 dias. E isso eu acho que amplia talvez a possibilidade, eu consigo ter uma unidade física, que consegue ser acessada por mais pessoas, eu triplico, quadriplico o volume que consegue acessar aquele espaço. Então eu acho que o híbrido é um caminho.

Ana Paula Xongani – olha, a gente levantou muitos pontos sobre EAD, mas acho que uma coisa central que ficou aqui é: pode ser positivo, mas para ser positivo para todes.

Ricardo Morais – Hum, hum.

Ana Paula Xongani – Agora vamos para o nosso último quadro, que chama Dica Extracurricular. É um momento que vocês nos dão dica para as pessoas que querem continuar estudando, aprendendo, seguir com esse bate-papo, para além desse episódio. Pode ser uma dica de filme, pode ser um livro, pode ser uma série, pode ser uma palestra que esteja disponível na internet, e quem quer começar com dica hoje?

Camila – Eu posso começar. Na verdade, são três dicas. A primeira é uma plataforma, que eu acho que é o melhor YouTube do mundo, que é o TED. Não sei se todo mundo já ouviu falar, mas se escreve T.E.D, e eles são uma central de palestras gratuitas, e eles têm, a maioria das coisas ou é dublada ou legendada em português, então dá para acessar.

Ana Paula Xongani – Todas as coisas são.

Camila – É uma regra. Amo eles, TED, vocês têm meu coração. E a palestra que eu recomendo para todo mundo, e eu assisto sempre, é a do Ken Robinson, que fala, na verdade, é uma pergunta: Será que as escolas matam a criatividade? E é uma palestra muito interessante em que ele dá uma chacoalhada no que a gente entende no que é o ensino e como que esse ensino vai de fato tirando de nós, a capacidade de ser criativo, que para ele e outros estudiosos da área é a base do ser humano e é para onde a gente tem que ir. Principalmente agora nesse mundo em que a máquina vai fazer tudo que é repetitivo, e escalável, vai ser máquina, tudo que é humano, que é criativo, que é conexão, vai ser feito por pessoas. E a outra dica que eu tenho para dar é um livro que eu gosto bastante, que chama Confiança Criativa, esse é mais voltado para os adultos, então como que você adulto resgata sua confiança criativa, como que você consegue ser mais inventivo, mais criativo, mais novador e mais curioso. É do Tom e David Kelley, e eu recomendo super a leitura.

Ana Paula Xongani – Patrícia, suas dicas de hoje.

Patrícia – Olha, eu pensei também no TED Tok, só que eu pensei num vídeo que eu passo para os alunos sempre, e sempre que tem formação de professor também, que é O Perigo da História Única, que eu acho que tem super a ver com o que a gente está conversando.

Ana Paula Xongani – Chimamanda?

Patrícia – Isso, da Chimamanda Adichie, que é uma Escritora nigeriana, e o livro tem agora transcrito, então a palestra está agora transcrita, então você pode comprar o livro, você pode ver a palestra, e eu acho que dialoga muito com o que a gente está conversando. Então pensando na questão da inovação de pontos de vista. Então a gente para inovar, a gente precisa mudar a nossa mentalidade, que muitas vezes tem muita coisa cristalizada, muito ranço da escravidão, enfim, da desigualdade, e muitas vezes a nossa forma de pensar, por mais bem intencionado que esteja, ela ainda tem um viés de supremacia branca, o machista. Então essa palestra mostra muito isso, como você começa contando as histórias. E eu acho que isso, independente da área que você atue, é pensar, é sempre repensar, então qualquer ambiente de trabalho e qualquer forma de trabalho, tem sempre uma lógica, mas o que é que dá para você desconstruir dentro dessa lógica para melhorar, aquela forma de trabalhar e o próprio mercado de trabalho, e as outras pessoas. Então como que a gente vai renovar essas relações. E eu acho que ela traz provocações que são muito importantes para todos os profissionais, que nós seremos mais humanizados e humanos dentro das empresas, e das escolas.

Ana Paula Xongani – Maravilhoso. Rick.

Ricardo Morais – Legal. Bom, vou pegar três dicas, acho que uma primeira que é mais clássica, que é o SENAI, parceria com o SESI, eles têm cursos gratuitos, só procurar lá no SENAI, entra no site deles, se você fizer, tirar 70%, sai com certificado, tem várias áreas, então é bem ok. Mas já que todo mundo tem celular, quem está vendo esse podcast aqui, tem um interesse um pouco mais sobre tecnologia, fala um pouco mais sobre o mercado digital, tem todos que são bem simples, dão certificado e tem emprego a rodo. Primeiro, baixa o aplicativo do Google, é o Google Primer, P-R-I-M-E-R. Você baixa ali no Google Play, instala no celular, e através dele você aprende todas as certificações do Google. E se você tiver o seu próprio negócio, você aprende como fazer melhor o seu próprio negócio. Então você que é empreendedor, treina ali. E é o mercado que sempre precisa de pessoas. E o outro é do Facebook, o Facebook Blue Print, então que é blue de azul em inglês e print. Aí quando você vai vem, você vai aprender a mexer em Instagram, em Facebook, WhatsApp, você vai tirar certificações de como fazer campanha.

Ana Paula Xongani – Olha o currículo enchendo.

Ricardo Morais – Exato. E aí, pessoal, façam essas certificações, não tenho menor dúvida, o mercado de publicidade, o mercado digital tem carência de profissionais que tenham isso, tem muita gente que fala: não, eu já trabalho com isso, eu entendo, não importa a área que você está, está desempregado, se você tiver com tempo, estuda esses dois, é super didático, é em português, é tranquilo. Terminou, coloca isso nas redes, você vai conseguir um emprego. Isso é fatal, porque está faltando gente.

Patrícia – Fora que é muito chique dizer que você estudou na Google ou no Facebook.

Ricardo Morais – Exato.

Camila – Certificado.

Ana Paula Xongani – Vou indicar dois livros da Bel Roux, o Ensinando a Transgredir, Educação como Prática da Liberdade, e o Ensinando Pensamento Crítico, Sabedoria Prática, todos da nossa rainha. Também quero indicar um outro podcast que eu apresento também, que chama Nada Sei que eu fiz em parceria com o Instituto Ayrton Senna, então se você for educador, educadora, se você é professor, se você está no chão da escola, ou se você for aluno, lá a gente discute novas formas de educação que vai como a gente aprendeu nesse podcast, chega lá no mercado de trabalho. E minha terceira indicação, eu quero indicar o canal Letras Pretas. De quem que é esse canal, Patrícia?

Ricardo Morais – De quem será?

Patrícia – Ah, é o canal que eu tenho, voltado para os professores, que indica obras de autores e autoras negras, porque apesar de ser formada em letras, eu não tive contato na universidade com autores e autoras negras, fui fazer um curso na USP sobre literatura africana, literatura afro-brasileira e pensei em divulgar obras para os professores poderem usar na sala de aula e desconstruir um pouco essa lógica aí que privilegia autores homens brancos do Sudeste.

Ricardo Morais – Então erro.

Ana Paula Xongani – Então pronto, já está indicado, o canal Letras Pretas, e se vocês quiserem pegar todas essas dicas, perdeu algum nome, quer direto o link, uma coisa assim mais fácil, entra no nosso site www.trampapo.com.br, que está tudo lá mastigado para você clicar. Vamos lá, gente, considerações finais, para o final desse episódio. Vamos fazer um a, todo mundo? Foi tão bom. Quais suas considerações finais, Patrícia?

Patrícia – Eu acho extremamente válido esse assunto que a gente está conversando, porque a gente tem que assumir a nossa responsabilidade, a gente fala muito da sociedade, mas nós fazemos parte da sociedade. Então se a gente está numa sociedade desigual, que castra, que tira oportunidades das pessoas ou coloca as pessoas em determinados lugares, e a parte do crescimento profissional também é rever as nossas próprias atitudes, rever aquilo que a gente é autoritário, aquilo que a gente não é humilde, aquilo que a gente não quer ensinar, aquilo que a gente não quer aprender, que a gente não erra, que nós somos semideuses. Então eu acho que esse diálogo é muito importante, por que para eu crescer profissionalmente, eu preciso crescer como ser humano, eu preciso aprender a me relacionar porque eu preciso do outro o tempo inteiro. Não dá para ser feliz sozinho, não dá para aprender e para ensinar sozinho. Então a gente precisa muito estar aberto ao diálogo e a aprender e a ensinar. E estar disposto a errar, porque muitas vezes os erros que são os nossos maiores aprendizados. Então esse espaço foi maravilhoso, adorei esse diálogo.

Ana Paula Xongani – Camila.

Camila – O que dizer depois de Patrícia? Apenas #copiotudo. Gente, eu acho que foi fundamental esse papo, eu acho que tem esse lugar em que a gente se autorresponsabiliza pela nossa própria educação e como que a gente pode tomar um pouco as rédeas e fazer acontecer. E me veio também muito essa questão que todos somos privilegiados em algum grau, todo mundo está um pouco melhor que alguém. Então além de você olhar para você no que é que você pode se desenvolver, o que é que você pode fazer para o seu próprio crescimento, o que é que você pode fazer para o próximo, a quem que você pode servir. Então se você manja de matemática, quem que você pode ajudar, se você tem conhecimento numa segunda língua, como que você pode passar isso para frente? Então fica muito para mim essa questão de somos todos aprendizes e somos todos educadores. E como que a gente consegue ampliar essa roda para o mundo.

Ricardo Morais – Lindo isso. O meu ponto vai para as empresas e para quem está dentro delas. Que somos todos nós no final das contas, a gente tem na minha visão, uma obrigação pessoal, de quando fica falando: ah, é por que eu quero crescer como indivíduo, eu quero melhorar, eu quero isso, a sociedade tem que ser melhor, e aí a Patrícia, você é a sociedade, então tende a sociedade pequena, corporativa que você está, está todo mundo lutando para um espaço? Ajude alguém. Chega em casa e até agora nesse momento, põe a mão na cabeça e se pergunta: quando foi a última vez que você parou para ensinar alguém? Não importa o que. Quando foi que você dedicou cinco minutos do seu tempo por uma dúvida de alguém bem Junior? E quando foi que você se colocou numa posição de querer aprender? Pratica isso, você marca na agenda, faz pelo menos duas vezes por semana isso, se você bater esses três, vai por mim, você está fazendo um mundo bem melhor.

Ana Paula Xongani – Maravilhoso. A gente termina quase emocionado esse episódio, com tantos insights e com tanta vontade de fazer diferente daqui para frente. Quero agradecer muito vocês, Patrícia, Camila, Rick que está sempre aqui comigo. A gente se vê no próximo episódio do Trampapo, enquanto isso, até o próximo, a gente espera nas redes sociais. Facebook e Instagram, @trampapo.podcast e no nosso site, mais uma vez www.trampapo.com.br. Um beijo, até o próximo episódio e tchau.

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