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Pessoas trans: trampos e vivências
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Pessoas trans: trampos e vivências

DIVERSIDADEConvidados:

Yasmin Vitória - Associada de sucesso do cliente latam na Salesforce

Danielle Torres - Departamento de prática profissional da KPMG

Sobre:

Você sabia que apenas 4% da população trans está formalmente inserida no mercado de trabalho? Neste Trampapo, Ana Paula Xongani recebe duas mulheres trans do mundo corporativo, Danielle Torres, da KPMG, e Yasmin Vitória, da Salesforce Brasil, que contam suas vivências, jornadas e lutas neste mercado de trabalho que ainda é tão fechado para a transgeneridade. Para elas, o certo é inegociável. Precisamos de medidas para alcançar o respeito e uma transformação social definitiva, afinal, ainda faltam oportunidades nas empresas, falta conhecimento e empatia por parte dos líderes e colegas de trabalho. Quer entender alguns dos motivos que fazem essa desigualdade existir e por que essa conversa é mais que importante para todas as pessoas? É fácil, aperte o play!

Pessoas trans: trampos e vivências
Transcrição:

Ana Paula Xongani – A luta para fazer com que as pessoas aceitem que vivemos em uma sociedade diversa, com todos os tipos de pessoas, continua. Nesses últimos anos, tivemos várias vitórias para as pessoas trans e travestis. São vitórias que fazem toda a diferença. Felizmente, temos visto pessoas trans mostrando a cara nas universidades, mostrando conquistas inspiradoras e ocupando os locais que são delas por direito. Mas ainda estamos longe de proporcionar o respeito que merecem dentro do mercado de trabalho. No Trampapo de hoje, discutiremos sobre os trampos e as vivências de pessoas trans e travestis no mercado, suas conquistas e tentaremos colocar um pouco de luz, para que muitas empresas e pessoas se abram para oportunidade de se transformar.

Vinheta – Trampapo, fica esperto, aumenta o som, que a gente tem o dom, se não quer trabalho chato, se liga no Trampapo, a Xongani e o Ricardo vão te dar um papo reto, evolua a sua cabeça, aproveita e fica esperto. Trampapo.

Ana Paula Xongani – Eu sou Ana Paula Xongani, e o Trampapo busca ser um podcast inclusivo para as pessoas com deficiência. Então para quem precisa de acessibilidade, é possível conferir a transcrição dos programas em texto ou em Libras no nosso site. Anota aí: www.trampapo.com.br. Eu vou fazer minha autodescrição e as nossas convidadas também vão fazer. Eu sou Ana Paula Xongani, eu sou Empresária de moda, Apresentadora, Criadora nas redes e Mãe. Hoje eu estou vestindo uma camiseta escrito: Leiam Mulheres Negras. Eu sou uma mulher preta, de cabelos bem curtinhos, corpo volumoso, olhos escuros, estou sem nenhuma maquiagem, eu acho que por hoje é só. E vocês, mulheres, vamos começar pela Yasmin, depois Danielle, se apresenta, fala um pouco de vocês e também façam suas autodescrições.

Yasmin Vitória – Olá a todas, todos e todes. Meu nome é Yasmin Vitória, trabalho na Salesforce do Brasil, numa equipe da América Latina no Sucesso do Cliente. Fazendo uma breve descrição minha, tenho 27 anos, sou uma mulher trans preta, com corpo volumoso, olhos pretos, cabelo mais ou menos até os ombros. E estou vestindo um macacão laranja, e estou aqui com vocês, obrigada a todos pelo convite, pela possibilidade de a gente poder externar sobre as nossas vivências, sobre a nossa vida, sobre as nossas últimas jornadas, e como que a gente consegue aguçar, a partir do momento que a gente consegue multiplicar esse conhecimento e democratizá-la ao ponto de trazer mais aliados para essa conversa. Obrigada.

Ana Paula Xongani – Obrigada você por estar aqui com a gente. E você, Dani?

Danielle Torres – Agradeço primeiramente, super obrigada pelo convite, meu nome é Danielle Torres, eu sou Sócia Diretora na KPMG no Brasil. Especializada em auditoria e contabilidade. Eu estou super feliz de participar hoje do programa, estou com uma regata clara, meu cabelo é loiro, nas pontas são rosa, meus olhos estão verdes, eles são castanhos e eu estou usando uma maquiagem leve.

Ana Paula Xongani – E vocês estão sentindo falta de uma voz, né? Eu também estou, é do Ricardo, hoje ele não está aqui no nosso episódio, mas mais uma vez, Ricardo, quero você lá nas nossas redes sociais participando, a gente está te esperando, eu estou com saudade. Muito bem, para começar a conversa, eu quero dizer para as nossas convidadas e também para quem está ouvindo o Trampapo, porque aqui a gente tem o lema de ser plural. Nós falamos com todas as pessoas de todas as idades, de várias características e de vários níveis de conhecimento. Mesmo quando o tema é sobre um grupo específico, como é o caso de hoje que vamos falar sobre transgeneridades. Sendo assim, é muito importante que a gente comece esse papo explicando alguns termos que vão ser muito falados por aqui. Para que todo mundo entenda e que possa se transformar no final desse episódio. Vamos lá. O termo trans ou travesti, é usado para se referir a uma pessoa que não se identifica com o gênero designado para ela no nascimento. A partir do que se convencionou como sexo biológico. Contudo, algumas pessoas percebem que se identificam com outro gênero, que é o que a gente chama ou foi designado como identidade de gênero. Essas pessoas, passam a viver como verdadeiramente são, e como elas se sentem, e desse jeito, claro, se sentem muito melhor consigo mesma. E quando precisam se identificar, são chamadas de pessoas trans, transgêneras ou travestis. Existem homens trans e existem mulheres trans. Outro termo bem importante para ser explicado aqui, é o que é cisgênero. É uma pessoa que se identifica com o gênero que foi designado pela sociedade compatível com o seu sexo biológico. Por isso, no meu caso, eu posso dizer que eu sou uma mulher cis. E aí mulheres, falei tudo, precisa acrescentar mais alguma coisa para a gente dar início a essa conversa?

Danielle Torres – Arrasou.

Ana Paula Xongani – Yas.

Yasmin Vitória – Não, arrasou, Xongani. Acho que primeiro de tudo é importante como você mesma pontuou, a gente dar nomes as pessoas, dar nome aos corpos, dar nome, acho que o que não é nomeado, é difícil a gente poder significá-lo, difícil a gente poder, enfim, poder traduzir essas vivências. Então é superimportante quando a gente nos autoidentificamos também, e também a gente também, o outro também passe a identificar. Porque às vezes que aquele outro é diferente, e você automaticamente é considerado como universal, né, o outro precisa ser significado, o outro precisa. E aí você parte do pressuposto que eu sou diferente, eu sou anormal, eu sou adversidade, eu sou tudo aquilo diferente de você que é considerado como um padrão, que é considerado como a norma. Então por isso que mais do que importante também, né, e são questões complementares não excludentes, a gente discutir transgeneridade, cisgeneridade, negritude, branquitude também, não é por que cada um, parte das suas especificidades, é importante que cada um também se designe para que possa falar daquilo que você afeta outras pessoas, daquilo que também você automaticamente é afetado. Então acho que foi brilhante a introdução que você fez, é interessante comentar também que travestilidade, transgeneridade também, corpos travestigeneres, como a Érika Rico sempre comenta, essa é uma identidade feminina, acho que você pode perguntar para a pessoa, muitas pessoas me perguntam assim, olha, eu não sei como que me refiro a você, primeiro que é interessante que as pessoas não se chamem pelo nome, porque a gente está falando de humanização, de você humanizar corpos, você humanizar pessoas, você humanizar vivências. E aí acho que quando você entrar um pouquinho mais nos pormenores, acho que se a pessoa tiver alguma dúvida, pergunta para a pessoa, referindo-se a ela em relação ao nome. Mas em relação a ser uma mulher trans ou travesti, que também é uma dúvida comumente falada, eu acho que vai muito da pessoa e como que ela gostaria de se referir, mas também é interessante que isso virou um ato político, isso é a nossa resistência, é uma resistência política também. Então a gente está falando de mulheridades, a gente está falando de travestilidades também, então a gente está reivindicando direitos que muito tempo nos foi negado. Então quando uma mulher bate no peito e fala assim: eu quero, por favor, ser chamada de travesti, é porque essa identidade feminina ela precisa ser reivindicada, ela precisa ser de uma certa forma, legitimada, até que a gente consiga mostrar para a sociedade que esses corpos são mais do aquilo que foi designado.

Ana Paula Xongani – Que bom, e a gente tem sim que celebrar, tanto a sua existência, Yasmin, quanto a sua existência, Dani, nessas empresas que as respeitam e as acolhem nas suas totalidades, absorvendo seus talentos, suas competências e tudo mais. Mas a gente também não pode deixar de dizer que é uma exceção à regra, infelizmente. Uma exceção à regra, que precisa ser mudada. Eu digo isso por que entre a população trans, apenas 4% está no mercado do trabalho formalmente, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, que chama ANTRA. E além de tudo, é importante a gente lembrar também que 90% dessas pessoas acabam tendo que recorrer a prostituição para sobreviver, não é uma escolha, é uma obrigação. Dito isso, eu queria saber de vocês duas, como que é acessar esses lugares de trabalho, se vocês ainda se sentem essa exceção à regra, se vocês se sentem pavimentando os caminhos para que outras mulheres e outros homens trans consigam entrar no mercado de trabalho formal. Dani.

Danielle Torres – Vamos lá, vou começar, achei muito sensível, brilhante as colocações que a Yas fez. E quando eu paro para pensar na minha própria vivência profissional, eu não tenho como falar que eu não sou uma exceção, porque eu sou, e sou muito uma exceção, porque se procurar o meu nome na própria internet, muitas vezes vai estar associada, que eu sou a primeira pessoa trans executiva do Brasil. O que claro, eu sempre falo bom, eu não sei até que ponto de fato eu sou a primeira, mas talvez uma que teve visibilidade, de uma forma mais ampla, provavelmente sim. Então é claro que eu não consigo deixar de me sentir uma exceção, ao mesmo tempo, o que eu penso é muito no ponto que você colocou, o que eu estou pavimentando e mais do que isso, quem será a pessoa a me superar, porque isso é o mais importante. Por que eu sou, digamos, uma pessoa do meu tempo, digamos assim, se eu fui a primeira de fato, vai ter um limite até onde eu vou, eu vou conseguir chegar, não o limite que eu me imponho, mas um próprio momento que eu vivo. Agora, as pessoas trans que estão iniciando as suas carreiras nesse momento, ela já tem uma outra herança de mundo, muito diferente da minha. E o que é que com o meu trabalho, o que é que com a minha abertura, elas podem se beneficiar. Assim como se talvez a gente fosse numa organização há 30 anos atrás, a gente não teria mulheres cisgêneros trabalhando ou teriam pouquíssimas posições.

Ana Paula Xongani – Hum, hum. Nem mulheres negras, por exemplo.

Danielle Torres – Nem mulheres negras e por aí vai, né?

Ana Paula Xongani – Hum, hum.

Danielle Torres – Eu brinco, quando eu estava na escola, ninguém era homossexual, né? E não é que as pessoas não eram, é que simplesmente não se falava a esse respeito e ponto. Então a partir do momento que você começa a trazer essa visibilidade, você abre ao mesmo tempo, o caminho.

Ana Paula Xongani – Maravilhosa. E você, Yas, além de tudo, tem as intersecções, né, se é uma mulher trans e preta. Qual é o seu legado nessa trajetória profissional?

Yasmin Vitória – Xongani, primeiro assim, vivo as palavras da Dani, eu acho que ela trouxe foi muito importante em relação aquilo que a gente já comentou sobre humanizar, então não ser a Dani da KPMG, a executiva trans, não ser a Yasmin, a pessoa da América Latina, da Salesforce que é uma trans, sabe?

Ana Paula Xongani – Ham, ham.

Yasmin Vitória – É interessante que esses marcadores, eles são muito fortes, mas ao mesmo tempo, eu imagino que num primeiro momento, talvez seja interessante, sabe, porque as pessoas, elas, isso gera minha inquietação, isso gera uma provocação, a gente está lutando para que a gente realmente sejamos nós mesmos, para que a gente seja respeitada, independente de ser trans ou não. Mas eu assim como a Dani, eu também gosto das pessoas me veem também, com um olhar alheio e fala assim olha: é uma trans, olha que legal, sabe, isso gera, sabe, toda uma série de gatilhos na pessoa. E acho que isso é importante no primeiro momento, a gente só não gostaria de ser reduzida apenas a isso, que é o que a Dani comentou brilhantemente. Acho que é muito chato você, primeiro, ser, significar e ser taxada como uma única e possível, único possível destino, uma única possível pessoa, uma única habilidade, pensando que a gente pode ser tantas outras coisas como qualquer outra pessoa, né? Então eu concordo com a Dani, acho que a gente tem um papel coletivo, nossa responsabilidade ela é coletiva em relação a tudo que a gente vem fazendo. Eu sempre comento e sinceramente eu não consigo fazer com que o caminho de outras pessoas seja menos dolorosos. Por que é que eu sempre comento isso? Porque a vivência, ela é muito particular, ela é muito individual. E isso também vai muito a partir daqueles matadouros que a gente comentou. Qual que é o território que essa pessoa está inserida? A questão de cruzamento aí de intersecções como raça, assim, tem um monte de questões que se eu falasse assim: olha, só pelo fato dele estar aqui numa empresa americana, isso vai fazer com que outras pessoas não sofram. Sinceramente, seria uma hipocrisia e assim, uma fala muito errônea da minha parte, né?

Ana Paula Xongani – Ham, ham.

Yasmin Vitória – Mas o que eu posso fazer, é a partir da minha responsabilidade coletiva, fazer com que esse lugar, ele gera essas inquietações, é que eu faça parte da construção dessas pontes ao invés de muros, e isso a partir da minha vivência, da minha fala, da minha escuta, em parte, que eu tomei muitas vezes, da construção de trazer aliados para a conversa também, isso vai possível quando tiver vivendo nesse lugar. Então acho que essa questão de trilhar esse caminho em termo de que com outras venham, não atrás de nós, mas do nosso lado, e consigam passar orientação isso sem que as arestas estejam muito altas, acho que talvez esse seja o discurso, sabe. Talvez algum espinho vai esbarrar ali no meio, talvez vai doer, talvez vai sangrar, são coisas inerentes, então pode acontecer. Mas a ideia é que a gente consiga fazer dessa luta coletiva, e que a partir dessas mudanças, dessas coisas que a gente vai começando a trabalhar, outras pessoas consigam passar orientação isso de uma forma um pouco mais amena.

Ana Paula Xongani – Eu tenho certeza que vocês estão pavimentando um monte, não só a empresa de vocês, mas também o que sai para fora, né? Aqui nessa conversa, a gente espera também que seja aí mais um pouco de pavimentação para essas transformações que a gente deseja. E vocês tiveram a oportunidade de encontrar bons empregos em empresas que verdadeiramente veem valor na diversidade. E é preciso que as empresas e seus dirigentes entendam que, e tenha consciência que incluir e promover a diversidade, não é uma questão de favor, e nem de gentileza, elas precisam entender que acaba sendo uma relação de ganha-ganha para todas as partes. Quanto mais uma equipe for diversa e a gente está falando isso sempre em vários episódios aqui no Trampapo, mais potente vai ser o resultado, ou seja, todo mundo sai ganhando. E especificamente sobre pessoas trans e travestis, são pessoas com diversas potências, com capacidades plurais, com múltiplas formações e talentos. São não só oportunidades de emprego, mas oportunidade de uma transformação social. Na visão de vocês, quais são as principais vantagens de incluir pessoas trans? Sejam para os efeitos dos negócios das empresas, os business, mesmo, granas e tudo mais, seja para praticar empatia, igualdade, para diluir os preconceitos, o que vocês gostariam de destacar como os principais ganhos na inclusão e na integração de pessoas diversas e de pessoas trans nas empresas de modo geral? Quem quer começar? Vou deixar vocês escolherem, agora.

Danielle Torres – Quer começar, Yas?

Yasmin Vitória – Sim, pode ser, Dani. Obrigada, Dani. É o seguinte, primeiro que eu acho que é o certo a ser feito e o certo a ser feito, ele é inegociável, eu sempre falo isso. Então a gente está falando de uma ação que tem que realmente acontecer, e além de certo a ser feito, de ser uma justiça social, e também uma reparação, por que não, a gente também está falando de uma burrice econômica, as pessoas que se negam ou que acham que isso não vai levar a lugar algum. Então são dois pontos aqui, no social e econômico, sobretudo, a gente tem diversas empresas, consultorias, pesquisas, questões acadêmicas que já comprovaram que de fato há um aumento em potencial, aí falando até monetariamente em relação aos ganhos explícitos que essas empresas podem ganhar, com essa pluralidade de conhecimento, de vivências, de histórias, porque justamente as pessoas partem de partilhas diferentes, e conseguem ter olhar humano em relação aquilo que ela vivenciou. Então assim, você tem lá a pessoa no grupo, cujo, algumas pessoas do grupo, cujas vivências são as mesmas, como que ela vai poder enfim, pensar e falar de um produto ou serviço para público destinado, né? Então você acaba que pega numa situação de ordenamento comum, então acho que essa questão de você trazer conhecimentos, trazer histórias, é muito importante, é o correto a ser feito, que as empresas já entenderam que isso vai poder trazer um ganha-ganha também, sobretudo, para a pessoa que vai participar dessa mudança também.

Ana Paula Xongani – Dani.

Danielle Torres – Uau, maravilhosa, Yas. Acho que eu concordo com tudo que você falou, certo é sempre um bom norte, porque pelo simples fato dele ser certo. Então eu acho que é fantástico. Do ponto de vista que a gente falou um pouquinho sobre negócio, uma coisa que eu costumo chamar a atenção, é falar olha, as pessoas trans, elas estão cada vez mais em posições, cada vez mais independentes, cada vez mais economicamente ativas. Vocês têm certeza que vocês não querem dialogar com esse mercado? Porque alguém vai conversar. Cada vez mais assim, ainda é muito pouco, é muito pouco, mesmo, basta ir numa qualquer loja ou qualquer ambiente que fala: somos para todas as mulheres. Aí eu pergunto: será que eu estou nesse todas? E muitas, e para muitas, não, passa longe, tipo, então, mas você já começa a ver cada vez mais uma preocupação, de como é que a gente vai dialogar com esse público? Como é que a gente vai trazer? Então o convite que eu sempre faço às empresas é: vocês vão esperar realmente esse se tornar um mercado economicamente interessante para começar ou será que já está se tornando cada vez mais, a gente tem pessoas trans nas mais diversas posições, a gente tem pessoas trans que são executivas como nós duas aqui, temos pessoas trans em casas legislativas, temos cientistas, temos pessoas trans que estão cada vez mais, atrizes, temos todo tipo de pessoa trans, cada vez mais, cada vez mais economicamente forte e cada vez mais falando não, nós existimos, nós somos humanas e nós estamos aqui para conviver com todos nessa sociedade. Até quando a gente vai esperar? Porque honestamente, eu acho que é uma grande oportunidade de a gente começar a atender adequadamente a um público que é muito mal atendido, eu falo da minha própria experiência, extremamente mal atendido. Então é uma grande oportunidade para as organizações, e eu já dialoguei com muitas organizações, eu vejo que tem muitas que já estão extremamente preocupadas em como é que eu faço para ser um empregador que gere, digamos, tensão, porque hoje em dia a gente está falando de uma força de trabalho global, e não só uma força de trabalho global, mas uma força de trabalho que vai ter que mostrar as suas competências, porque senão a sua concorrência acaba se sobressaindo.

Ana Paula Xongani – Acho que um dos primeiros passos para a gente colocar tudo isso em prática, começa na celebração, mesmo, da presença de pessoas trans na nossa volta, na sociedade. Ao invés de excluir ou marginalizá-las. E falar sobre exclusão e sobre preconceito, a gente também precisa falar sobre emprego e educação. A baixa escolaridade dificulta o acesso a emprego, a gente já sabe disso. E a AfroReggae levantou que menos de 1% das pessoas trans, estão na universidade, e 72% delas, não concluíram o ensino médio. Isso acontece por que as pessoas trans, em grande parte das vezes, são expulsas das instituições familiares, das famílias, mesmo, das escolas, das instituições religiosas, de convívios sociais, e consequentemente do mercado de trabalho. Acho que aqui todas nós concordamos que a educação é a base para muita coisa, mas somente ela, poderia melhorar esse quadro? E fazer com que as pessoas trans estejam incluídas. Porque eu costumo dizer que eu tenho pressa, que eu não quero só as coisas para as próximas gerações, eu quero as coisas para a minha, eu quero vivenciar a mudança. Por isso eu pergunto para vocês: como a gente pode agir para modificar tanto preconceito? Eu sei que é a pergunta de um milhão de dólares, mas vamos trazer insights aqui. Tem como a gente transformar o hoje, as pessoas adultas, quem está ao nosso redor, ou só a nova geração é a solução? Dani, você começa agora.

Danielle Torres – Eu estou pensando aqui, que de fato é uma pergunta muito complexa. Você sabe que quando eu paro para pensar nessa questão, o que motiva o preconceito, eu não deixo de esbarrar no desconhecer, no não saber sobre algo e desconhecer mesmo uma pessoa. Eu já assisti, costumo falar isso, verdadeiras transformações de pessoas a minha volta, de pessoas que eu falava: ah, essa pessoa, ela tem uma limitação nessa compreensão, que talvez ela não supere e de repente você ver essa pessoa, sabe, aí eu não estou aqui falando necessariamente de usar termos corretos, etc., porque claro que tudo isso é muito importante, mas o sentimento ele continua ali, né. Tem pessoas que usam termos bonitinhos, mas você não sente uma troca bacana, e tem pessoas que se atrapalham bastante, mas elas são tão, sabe, fofas mesmo na sua colocação, que você fala: cara, tudo bem, vamos dar sequência, mas o termo é superimportante, eu não estou falando que não é. Mas dentro, mas eu já vi verdadeiras transformações, então eu acho que a gente sensibiliza muito por essa questão emocional da própria empatia. Agora é muito complexo, porque assim, você traz uma estatística de uma limitação educacional tão grande, como é que você muda isso, você tirar uma pessoa de dentro do seu seio familiar, são temas de uma complexidade tão grande, que assim, a superação disso, ela assim, eu tenho dificuldade de colocar isso como a gente vai fazer uma superação desses temas. E o que eu consigo pensar é de fato na parte do que eu consigo fazer, eu consigo como a gente já colocou, pavimentar um caminho, eu consigo dialogar, eu consigo estar presente em espaços que talvez não esperassem a minha presença, eu consigo agir com naturalidade, eu consigo em última instância, me amar. E essa última frase, eu posso garantir para vocês que é a mais difícil, pelo menos foi o que eu demorei muito para conseguir, do ponto de vista pessoal, porque assim, quando a gente toca no universo transgênero, especialmente falando um pouquinho sobre mim, eu acho que a gente toca em algo, e eu compreendo que existem n populações que são marginalizadas, aqui eu não estou querendo hierarquizar de forma alguma, dor, porque dor é dor. Mas eu acho que a dor de não ter o direito de existir, ela é muito complexa para se superar. Então você vive com essa dor, eu não tenho o direito de existir, e associado a isso, eu não encontro no social, referências, porque a gente fala ah, quem é a pessoa trans que te inspira? Eu falo: cara, assim, atualmente eu consigo até responder, mas por muito tempo, eu ficava ali quem, tipo, então assim, então eu vou ter que ser essa pessoa, assim como a Yas, eu tenho certeza que ela é em muitos ambientes. Agora, gente, é injusto demais pedir isso para o indivíduo, então por isso que se amar é difícil, porque você tem que se amar sem referências, estabelecer os seus padrões sem referências, sofrendo críticas de tudo quanto é lado, e no final do dia, falar, eu vou ter empatia com tudo isso. Uau, é assim, eu vou falar para vocês que foi uma missão por mais de uma década para mim, que continuamente eu me exército nesse sentido, de falar: eu não vou deixar o não saber das pessoas, afetar o meu orgulho e do meu próprio existir.

Yasmin Vitória – Falou tudo, Dani. Acho que só voltando o que a Xongani comentou, acho que não basta só educação, sabe, Ana. Tem que haver também oportunidades. Acho que, e pessoas que intencionalmente querem fazer parte dessa mudança, a partir do momento em que ela também sabe que ela é parte do problema também. Eu comento que assim, os fracos usam a força e os fortes usam o conhecimento, a sabedoria. Então foi isso que os últimos anos, eu tenho tentado conquistar, de que para que pudesse sobreviver nesses grandes espaços, como eu e a Dani comentamos, para que a gente consiga dialogar, para que a gente consiga permear esse lugar de uma forma melhor, sem ser muito afetado em relação a isso. E, mas, não basta só você enquanto indivíduo trabalhar para que você queira estar apenas naquela empresa, se também não há uma contrapartida por parte do empregador, uma contrapartida por parte das pessoas. Por que acaba dando também todos esses episódios que a gente às vezes passa, tudo bem, a gente trabalha o nossos emocional, o nosso comportamento, mas se a outra pessoa também falar lógico, eu quero outro lugar, ela não quer, ela vai ser grosseira, ela vai ser grotesca, sabe, fica uma coisa assim muito me responsabilizando por uma coisa que deveria ser coletiva, sabe. Eu tenho que saber me comportar nos lugares, mas também a outra pessoa tem que saber atender várias pessoas, vários tipos de público. E assim também é na empresa, quando eu falo na empresa, é a gente tem muitas pessoas que hoje estão formadas, que estão em pleno ascensão, que estão inseridas aí no meio acadêmico, terminando o ensino médio, mas que não tem oportunidades de poder entrar nessas empresas, se desenvolver e consequentemente também, criar um plano de carreira, poderá ascender socialmente, economicamente, profissionalmente dentro dessas empresas também. Então não adianta você só me responsabilizar e falar assim: ah, não conseguiu por que não quis ou por que não fez o suficiente, por que não se esforçou o suficiente, sabe, tem que também ter a outra pessoa e falar assim, poxa, qual o grupo que eu estou querendo, como que é as estatísticas do grupo, quais são as vivências, quais são todos os ônus e os bônus, sabe, a gente precisa entender e partir do princípio que há uma heterogeneidade dentro desses grupos sociais. E até que ponto a gente é inclusivo e a gente tem parte, sabe? Só ficar falando é muito fácil, eu quero ver na prática.

Ana Paula Xongani – A questão da transfobia não é um problema das pessoas trans, é um problema da nossa sociedade. É muito importante, galera, que a gente se responsabilize pelos problemas sociais, se senta, ser social que pode fazer com que as transformações aconteçam, o problema é seu, o problema é meu, o problema é nosso. E quando a gente sente responsável, a gente tem mais sede de fazer a mudança acontecer. Então agora vamos fazer aqui aquele exercício de empatia, rapidinho. Imagina o drama de estudar e batalhar para conseguir uma colocação dentro do mercado de trabalho, ao mesmo tempo que sua luta principal é pelo respeito e pelo direito de existir e ser quem é. As pessoas trans, acabam sendo pessoas que chegam às empresas, quando chegam, chegam de uma forma muito vulnerável e fragilizada, inclusive emocionalmente. O primeiro desafio é o processo seletivo, quando consegue uma entrevista, ficam pensando se a empresa sabe quem está entrevistando diretamente, direito. Já dá aquela insegurança e o medo de sofrer a transfobia, pode vir até do entrevistador, que não está preparado a lidar com todo e qualquer tipo de público, com todo e qualquer tipo de entrevistado, e acontece ali uma discriminação que abala ainda mais o emocional dessas pessoas. E quando a contratação acontece, o mesmo receio volta. Será que os meus colegas de trabalho vão me respeitar, será que eles vão interagir comigo. Será que vai ter pessoas parecidas comigo, vai ter aquele espelho, será que vai ter pessoas com quem eu posso me acolher, será que vai ter os tais aliados? Será que eu vou ter a oportunidade de aprender e de crescer sendo eu quem eu sou? Sendo eu uma pessoa trans? Só o fato de ter tantas dúvidas, essa complexidade já aumenta, e isso acaba sendo muito conturbado nesse processo. E eu quero perguntar para vocês, como foi esse processo seletivo de vocês, como foi esse momento profissional, se vocês também sentiram todos esses questionamentos e se isso prejudicou em algum momento. E se prejudicou, qual foi o próximo passo? Qual foi o pulo do gato da superação de vocês?

Danielle Torres – Pensar que eu sou trans como limite, é algo que vem na minha cabeça com frequência. Eu até comentei um pouquinho sobre isso, eu tenho um limite, é dado que é o limite do meu tempo, mas eu não posso ser ao mesmo tempo o meu limite. Então o diálogo é que eu estou o tempo inteiro buscando quebrar, para tomar cuidado para eu não me colocar como o limite da minha própria, da minha própria história. E eu acho que em primeiro lugar, a gente precisa, que isso eu penso muito enquanto pessoa transgênero, me aproximar de uma empresa que tenham valores que são coerentes com os meus valores. Tem certos lugares que talvez não vai adiantar, sabe, ou pelo menos vai ser uma luta talvez grande demais, né. E eu não sei se eu sou essa pessoa que vai provocar essa luta. Agora, existem organizações que elas estão digamos, interessadas em crescer por meio da diversidade, essa organização, então o primeiro passo é esse, eu preciso encontrar uma organização que esteja interessada em crescer por meio da diversidade. Porque quando eu estou num processo seletivo, ou qualquer outra atividade profissional, o que eu preciso que aconteça, é que ser transgênero seja um “e” e não um “mas”. No sentido de que eu tenho muito orgulho do meu currículo, se eu ouço você falar, nossa, realmente eu tenho muitas formações, eu falo diversos idiomas, eu já trabalhei em vários mercados e tudo mais, eu tenho muita experiência profissional. Agora tudo isso que fica muito interessante, se eu vou para um processo seletivo, mas a Dani é transgênero, não sabe de nada, porque de alguma forma vai ter algum olhar sobre algo, ah, mas tudo bem você falar português, inglês, espanhol e francês, mas eu queria alguém que falasse outra língua. Nossa, tem tanta gente assim que fala tantos idiomas por aí? Então assim, então a gente consegue dar um olhar, ah que maravilhoso que você tem uma mega experiência nesse mercado, mas eu queria naquele lá que você não tem, então assim, não é tão difícil assim a gente trazer alguns elementos. É por isso que eu falo, que o “mas”, ele é um limitador muito grande que está com a minha contraparte, o que eu busco é um ambiente que seja o “e”.

Ana Paula Xongani – E sua experiência, Yas?

Yasmin Vitória – Nossa, maravilhosa. Bom, eu não tenho esse pegar todo que a Dani tem. Inclusive ela não sabe, mas enfim, quando há três anos mais ou menos, quando eu comecei a olhar o mercado, né, e saí de uma outra multinacional e vim para cá, eu falei nossa, eu queria ter, sabe, queria ter algo tangível, queria ver alguém, quando eu pesquisei sobre a Dani, eu falei assim: caramba, eu posso ser essa pessoa também, sabe? Então o quão é importante, essa questão representatividade, você sabe, e assim, é com pessoas pretas também, você olha, mulher cis, preta, você fala, caramba, dá para também chegar lá, sabe, óbvio, cada um tem o ponto de partida, mas só que você se olhar e você se ver também, se projetar, acho que essa a palavra, você se projetar a partir do outro, sabe? Eu sou por que nós somos, então é muito interessante isso. Falando por mim, eu tive uma experiência muito bacana na Salesforce, porque aqui na América Latina eu sou a primeira, confesso, mas a nível mundial, já tinha pesquisado algumas coisas, a gente tem diretoras, tem até RVPs também trans na nossa matriz, algumas, conheço, outras não, mas aqui na América Latina, sim, eu sou a primeira. Então confesso que você já entra numa situação assim, colocando esse limitador, você mesmo, sabe, a outra pessoa nem falou nada, a outra pessoa nem te questionou, mas você já chega naquela, com aqueles pensamentos oriundos, com tudo aquilo que você já passou, daqueles gatilhos automaticamente vem a sua mente. Mas não houve anúncio, sabe, quando eu entrei na Salesforce do Brasil, assim, nossa, está vindo a primeira trans do Brasil, da América Latina, sabe, não, isso de forma alguma aconteceu, sabe, as pessoas ficaram checando, mandar e-mail, treinar, não, até por que também acho que vou muito nessa parada que a Dani comentou de você olhar as empresas que têm feat com seu eu, sabe, que você consegue ver os valores dela, dentro do seu, sabe, ou pelo menos algumas similaridades, então isso é muito importante.

Ana Paula Xongani – A gente fala muito aqui no Trampapo que o mercado é seu, inclusive eu adoro esse bordão do Trampapo, o mercado é seu. E quando você passa por uma entrevista de emprego, é importante que você também entreviste a empresa que você vai trabalhar, a gente falou já em vários episódios sobre alinhar a cultura da empresa, com os seus valores. Inclusive na Catho, tem um lugar onde você pode pesquisar a empresa, chama por dentro da empresa, você coloca um nome e lá você vai ver a nota da empresa, você vai ver relatos de outras pessoas, sobre essa empresa. Então é isso, se coloca no mercado nesse lugar também, se coloca no lugar de uma pessoa que também está entrevistando o lugar que vai te entrevistar. Como eu falei no começo desse episódio, o cenário para as pessoas trans no mercado de trabalho, não é nada positivo. Mas estamos aqui com pessoas que fogem a essa regra, e a gente precisa sim, celebrar, mas elas não são as únicas, ao meu ver, a gente precisa ativamente buscar referência, a gente precisa buscar por artistas trans e consumir as suas artes. Entender sobre suas vivências, aprender direto da fonte, oferecer escuta para que as pessoas trans falem por elas mesmas. Precisamos ler pessoas trans, adotar e adotar esses aprendizados no nosso dia a dia. Existem muitos exemplos de referências e inspirações, e eu até quero citar algumas aqui. Como a primeira mulher trans a conseguir um doutorado no Brasil, ela chama Luma Nogueira de Andrade, Doutora em Educação, o Marcelo Caetano que é Cientista Político e o primeiro homem trans negro, graduado pela Universidade de Brasília, e a Meg Raiara, a primeira travesti negra a obter o grau de Doutora na Universidade UFPR. Entre tantas outras histórias de sucesso, que a gente vê e que seja cada vez mais crescente. Isso tudo é sobre representatividade e visibilidade. Não dá para a gente discutir tudo isso sem dizer que é essencial mostrar que as pessoas trans podem e devem estar em todos os lugares, em diversas posições na sociedade. E a minha última pergunta para vocês, o quanto vocês acham que essa visibilidade, essa oportunidade, pode dar autonomia social para as pessoas trans e o que é que essa autonomia tem de impacto no mundo que a gente vive? Agora sim, primeiro é a Yasmin. Vamos lá, Yas.

Yasmin Vitória – Bom, acho que essa autonomia ela possibilita a gente existir nesses grandes espaços, em todos aqueles que de novo não foram configurados para nossa existência. E a gente também ter minimamente poder de compra, a gente também ter possibilidade de crescer, possibilidade de se desenvolver, possibilidade de contribuir, para outras narrativas de vidas também. Eu acho que não existe nós sem nós. Então toda essa, elas são muito importantes, né, então quando a gente está falando de autonomia, a gente está falando de você poder escolher, de você poder optar por aquilo que você quer para sua vida, aquilo que você quer ser, aquilo que você, onde que você quer estar, onde você quer penetrar, sabe. Então eu sempre também foi um dos relacionamentos da minha vida, você ter essa possibilidade autônoma de você ser dona da sua vida, você ser dona da sua carreira, obviamente, mesmo você fazendo parte de um contexto social, com regras de convívio social, no meio empresarial também, que a gente sempre que tem por vários processos avaliativos. Mas quando você tem, você sabe que você é dono do seu caminho, da sua história, da sua trajetória, isso faz com que outras pessoas não te limitem, isso faz com que outras não digam quem você é, ou para onde você vai. Independente de onde você veio. Então acho que essa possibilidade de potência, mesmo, acho que só tem dados positivos, adjetivos positivos para a gente falar aqui.

Danielle Torres – Olha, eu acho que referência social é tudo, é você enxergar que existe o caminho, existe a possibilidade. Eu fiquei encantada que a Yas falou que foi procurar sobre mim, né, que acabou me encontrando quando estava fazendo a sua própria reflexão no seu universo de trabalho, né. Porque eu também encontrei pessoas, né, uma delas é a Márcia Rocha, que eu acho que é uma pessoa super querida, uma pioneira na luta dos nossos direitos, no âmbito realmente do direito, no âmbito ali das organizações que ela fazia parte, uma pessoa que eu já tive a oportunidade de dialogar, de palestra em conjunto mais de uma vez. E foi uma pessoa que para mim foi uma referência, né, talvez ela não tivesse naquele contexto corporativo que eu me encontrava, mas eu falei poxa, ela me representa, uma pessoa que traz uma luta, que traz um repertório e que já mostrou que algo é possível, será que eu consigo dar um outro passo também, num outro sentido agora num âmbito um pouco mais corporativo. E por aí vai, isso conecta um pouco quando o que eu falei logo no começo, né, o meu maior legado para mim vai ser, ser superada, porque certamente uma pessoa como a Yas, ela pode ver o meu trabalho, e um dia ela vai ter todas as oportunidades também. Outra garota trans que está iniciando a sua carreira, né, num momento bastante insipiente, ela também vai poder ver o meu trabalho, e o trabalho da Yas, e de tantas outras que estão por aí, lutando e fala: não, existe um espaço para mim também, porque o grande problema é quando a gente olha para um ambiente e fala: ah não, isso aí é só para homens brancos cisgêneros. Aí a gente fala bom, eu não pertenço a esse universo, não vou nem tentar. Então por muitas vezes eu tive que ser pioneira em muitos contextos, mas eu também eu sempre reconheço o quanto eu herdei, o quanto teve pessoas antes de mim que lutaram, e lutaram de uma forma assim, num ambiente muito mais difícil que o meu. Até quando eu falo, ah, o meu ambiente é difícil, sim, o meu ambiente é difícil, mas não se compara com o que algumas pessoas já viveram. Então eu preciso ter esse reconhecimento, preciso ter essa gratidão e sempre me lembrar que eu estou aonde eu estou, pelas inúmeras, inúmeras mulheres que vieram antes de mim, e aí eu estou falando das mulheres transgêneras e mulheres cisgêneras também, a luta delas é que permite hoje eu esta aonde eu estou, e está tendo a oportunidade de fazer um diálogo com pessoas tão queridas como eu estou fazendo hoje. Então é esse reconhecimento, referência é tudo, porque referência faz a gente perceber que a gente pode chegar lá.

Ana Paula Xongani – Maravilhoso. Agora vamos para o nosso quadro a Dica Extracurricular. Nesse quadro, convido vocês a dar uma dica de filmes, série, pode ser leitura, pode ser uma palestra disponível na internet, para quem quer continuar essa conversa logo depois do nosso podcast. Quem quer começar? Quem tem uma dica boa aí?

Yasmin Vitória – Ah, eu indico além das pessoas se conectarem com outras pessoas, obviamente, né, acho que a leitura é muito importante, mas você consumir conteúdos de pessoas diversas, também se faz muito importante, tem que ser presente na nossa rotina diária. Óbvio que se a pessoa achar que faz sentido ou não para ela também. Uma leitura que a gente queira de um livro, acho que Quem Tem Medo do Feminismo Negro, eu acho que faz muito sentido para minha vida assim, e para todas as outras mulheres também, em relação a justamente isso que a gente várias vezes comentou aqui, a gente vê em diversos lugares. Então apesar de a gente ter algumas questões em comum, a gente tem algumas especificidades também. Então a gente sabe que tem algumas pautas emergentes, tem algumas pautas urgentes, tem algumas pautas de alguns recortes que precisam ser faladas, né? E esses recortes são de pessoas trans, o feminismo trans, o feminismo travestigênero, o feminismo negro, que estão reivindicando, que estão pleiteando, que estão lutando, que está pedindo muitas outras coisas, além daquele do que o feminismo, que infelizmente algumas pessoas acham que acaba sendo homogêneo, mas que não é. A gente tem diversas outras pessoas que enquanto você está pedindo por um direito x, a pessoa está buscando pelo direito -A, sabe assim? Então ela está lá no outro lado da ponta, desse ecossistema todo de desigualdade social que a gente vive. Então é importante a gente falar assim desses recortes, eu acho que o Quem tem medo do feminismo negro traz bastante essa perspectiva de uma narrativa contada por nós, para nós, e como que a gente pode a partir desses conhecimentos múltiplos, trazer isso um pouco mais para a nossa realidade. E de pessoas, enfim, acho que a gente tem várias referências. Leandrinha, Márcia Rocha, Patrícia Santos, Rachel Mayer também, e tantas outras, Luiza Helena Trajano, a Dani também, de novo Dani, eu fico muito feliz de estar aqui com você, porque comentei, assim, há três anos, eu venho passando por esse processo muito recente, e diferente de você em que buscou pessoas, óbvio, né, cheguei a buscar outras referências, mas eu queria ter algo mais tangível próximo da minha realidade, ou daquela realidade que eu quero para mim, que eu quero projetar para que eu um dia chegue lá. Então óbvio, acho que essa questão do contexto mais corporativo, uma pessoa que mais se aproximou e que cuja trajetória de vida, que o status atual, fala assim, nossa, tem essa possibilidade de projetar, de entender enquanto indivíduo e profissional, acho que isso é importante, por isso que eu acho que eu cito o seu nome ao invés de outras pessoas que estão mais numa luta mais social no âmbito social. Pessoas mais próximas da realidade que eu tanto gosto e que enfim, eu tenho muita ambição, por crescer mais e mais. Então acho que essas mulheres que eu comentei, esse livro da Jamila, enfim.

Ana Paula Xongani – Ótimo, incrível. Dani, suas dicas para a gente.

Danielle Torres – Primeiramente agradecer a Yas, como uma pessoa muito querida e que bom que a nossa admiração é mútua, aliás, fico muito feliz e sensibilizada mesmo, com suas palavras. E sabe, eu vou indicar, eu podia também assim como a Yas colocou, vários elementos, mas eu vou indicar três leituras que para mim foram importantes. Eu acho que a primeira delas é o livro que chama Mulheres que Correm com os Lobos, que trata de arquétipos femininos com uma profundidade, eu não sei quanto a vocês, mas às vezes, muitas vezes eu lia aquele livro, eu ficava meio sem ar, que ela trata com uma profundidade sobre os arquétipos femininos assim que realmente mexe muito com a minha estrutura, pelo menos. A vida de Jazz Jennings também eu acho fantástico, a história de uma garota trans americana, garota, hoje em dia já mulher. E ela conta e traz de uma maneira muito sensível como é crescer sendo transgênero, o que é aquela exclusão, algumas crueldades que a pessoa passa, que você fala gente, toca muito, toca muito, a gente se enxerga muito lá, é muito complicado. Mas ao mesmo tempo, foi uma leitura que me ajudou muito também. E uma, e também eu vou colocar sobre um clássico que eu gosto muito, eu já li mais de uma vez, porque é um livro que me toca demais, que é o Conde de Monte Cristo. Por que eu acho lindo do Conde de Monte Cristo, é que Edmond Dantes, ele é preso, né, ele encontra uma libertação digamos espiritual por uma pessoa que é guia, a gente está falando de referências, e ele encontra uma libertação espiritual em primeiro lugar numa pessoa que é guia. E aí, aí por muitos anos da minha vida, eu sempre me enxerguei nessa prisão, que assim como a Yas, eu também assumi o meu gênero num outro momento de vida. Então eu sempre me encontrei também dentro dessa prisão, e eu sempre me questionava muito, o que é que eu faço depois dessa prisão, porque o Edmond Dantes como a gente bem conhece, ele desenvolve uma história de vingança, né. Mas eu acho que ali é um aprendizado maravilhoso, porque o que eu guiei a minha vida, eu falo bom, depois que eu saí dessa minha própria prisão pessoal de estar presa em mim mesmo, o que eu quero é ter uma visão de empatia, né. Então para mim é um livro que ele me mostra muito do que é uma vida que a gente constrói com base num sentimento de agora é a minha vez, e uma vida que a gente pode construir com base num sentimento de agregar, é uma obra maravilhosa, não dá para eu esgotar ela falando em um, dois minutos, é uma obra que dá, deve ter teses e teses a esse respeito, mas eu estou falando só da parte que me tocou.

Ana Paula Xongani – Bom, já que eu sou uma grande blogueirinha, eu vou indicar as amigas, eu vou indicar alguns perfis do Instagram hoje. Primeiro, Rosa Luz, uma artista completa, maravilhosa e que tem muito dizer, acho que as influencers têm um papel muito bacana de divulgar, facilitar, termos conceitos, ideias e vivências, então Rosa Luz é uma das minhas grandes referências, a Bixarte também que é uma Poeta, uma das minha preferidas poetas. A Transpreta também, que sempre traz suas vivências, traz também suas teorias sobre a vivência trans, eu gosto muito. A Aretha Sadick, que eu adoro as contações de história, ela conta as histórias de religiões de matriz africana, sempre trazendo a intersecção da sua vivência enquanto uma mulher preta e trans. Mulheres, eu quero muito agradecer vocês por esse incrível diálogo, antes de a gente se despedir, eu quero saber onde a gente encontra vocês, o que vocês, aonde, o que vocês querem deixar aqui para a gente continuar se conectando? E o que vocês têm a dizer para finalizar? Primeiro você, Dani.

Danielle Torres – Está bom. Eu costumo sempre finalizar falando as pessoas que estão em papel de gestão, acreditem no potencial que vocês têm de provocar essa mudança, a inclusão de pessoas trans, ela depende de todos nós, e qualquer um que está num papel de gestão que tem a oportunidade de entrevistar alguém, tem a oportunidade de entrevistar uma pessoa transgênera e realizar a inclusão dessa pessoa no mercado, e não pense que isso não faz diferença, faz muita, muita diferença. Então acho que cada um de nós, pode ter essa devolutiva social. Quem quiser conhecer mais sobre o meu trabalho enquanto, digamos, diversidade, pode olhar o meu perfil no Instagram, é d.danielletorres. Está bom? Muito obrigada pelo convite mais uma vez.

Ana Paula Xongani – Yas.

Yasmin Vitória – Agradecer todas também, foi incrível, acho que a gente falou sobre o certo, de novo, o certo é negociável, o certo é o certo, e como que a gente consegue trazer outras pessoas para essa conversa também. É interessante que as oportunidades, como a Dani comentou, elas são super parte desse processo de transformação, não basta só a gente colocar tudo na conta do indivíduo, se não há essa contrapartida sem personalidade, essa vontade, essa ação indo para essa parte empírica mesmo de fazer acontecer. Então escutem, nos ouçam, nos consuma, e realmente entenda que ninguém está falando que você é privilegiado, que você precisa ser culpado em relação a isso, mas que você também pode se responsabilizar e usar desses privilégios para que a gente consiga entrar nesses espaços, para que a gente consiga penetrar nesses lugares, ascender, crescer, enfim. Então é superimportante dentro desse ecossistema, a gente contar com pessoas que realmente podem ser muros, podem ser pontes para que de fato esses muros possam ser derrubados. E esses muros, eles são vários, a gente ainda está falando de um grupo que ainda infelizmente é muito julgado, criminalizado, deslegitimado, com olhares perversos, então como que a gente consegue tirar essa cultura empática, inclusiva? Não apenas chamar por chamar, ou escutar por escutar, mas você fala poxa, agora realmente eu vou me responsabilizar, eu vou tomar uma ação e fazer com que esse realmente se torne num processo empírico, que todo mundo ganhe, tem que ser um ganha-ganha para todo mundo. Minhas redes sociais, yasmim.vitoriaoficial no Instagram, e no LinkedIn, Yasmin Vitória.

Ana Paula Xongani – Maravilhosa. Bom, eu já até escrevi aqui no meu post it, o certo a ser feito é inegociável, uma frase que eu vou levar para sempre. A gente tinha como proposta, objetivo desse episódio que fosse um episódio transformador, eu acho que a gente conseguiu. Então eu convido vocês a compartilhar esse e dos outros episódios também do Trampapo, compartilha, seja a ponte para mais pessoas ouvirem, para mais pessoas se conectarem, para mais pessoas aprenderem. Quero lembrar vocês que têm tudo ali organizado no nosso site: www.trampapo.com.br. Todas as nossas dicas e indicações, está tudo lá para você continuar essa discussão e essa conversa aí onde você está. Quero muito agradecer vocês, muito obrigada pela conversa, pelo diálogo, certamente vou levar um pouco dessa conversa para sempre na minha vida e a gente se vê no próximo episódio, obrigada quem chegou até aqui, um beijo e tchau.

Vinheta – Trampapo, fica esperto, aumenta o som, que a gente tem o dom, se não quer trabalho chato, se liga no Trampapo, a Xongani e o Ricardo vão te dar um papo reto, evolua a sua cabeça, aproveita e fica esperto. Trampapo.

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