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Afrofuturismo e antirracismo no mercado de trabalho
#25

Afrofuturismo e antirracismo no mercado de trabalho

DIVERSIDADEConvidados:

Akin Abaz - CEO da Infopreta e Consultor de Inovação

Ale Santos - Autor Afrofuturista e Comunicador Digital

Sobre:

Como será o amanhã? Será que depois de tantas desigualdades raciais, a sociedade vai continuar avançando às custas da desvalorização de certas vidas? Será que no futuro a tecnologia vai ser acessível para todos ou as soluções superinteligentes vão continuar sendo um privilégio de poucos grupos? Será que no futuro a população preta vai estar integrada aos desenvolvimentos científicos, tecnológicos e sociais? E se esse futuro pudesse, desde já, ser pensado também para e pela a comunidade negra? Neste episódio, Ana Paula Xongani e Ricardo Morais recebem o escritor afrofuturista, Ale Santos, e o CEO da Infopreta, Akin Abaz, para debater o atual cenário para pessoas negras no mercado de trabalho e as soluções para torná-lo antirracista a partir das perspectivas afrofuturistas. Quer entender mais sobre esse conceito e saber como podemos transformar o futuro e o presente do mercado de trabalho? Aperte o play!

Afrofuturismo e antirracismo no mercado de trabalho
Transcrição:

Ana Paula Xongani – Para a pensar no futuro. Imagine-se, vivendo numa sociedade, daqui a algumas poucas décadas. Provavelmente, sua imaginação foi afetada por imagens de filmes futuristas, com carros voadores, super computadores, hologramas e portas automáticas por todos os cantos. Mas essa ideia de futuro, advinda, principalmente, do cinema, não inclui todes. Nessa concepção universal e hegemônica da ideia de futuro, não imaginamos pessoas negras, não pensamos em como as pessoas negras são representadas ou deixam de estar representadas e isso reforça algumas mensagens vindas do passado, presentes no agora e que se projetam no futuro. Na civilização que conhecemos temos poucos negros e negras em posições de respeito, protagonismo e liderança e, se não repensarmos em como a sociedade e o futuro podem ser antirracistas, a vivência negra vai continuar envolvida pelo racismo, pela opressão e exclusão. No Trampapo de hoje teremos uma ótica afrofuturista de como podemos construir novos imaginários para a população negra no mercado de trabalho. Vamos refletir e pensar em um futuro possível, onde nós, pretos e pretas, também vamos controlar tecnologias, presidir empresas, governar e ocupar todos os espaços. Sim, nós podemos.

Ana Paula Xongani – Eu sou Ana Paula Xongani, eu sou empresária, criadora nas redes, apresentadora e mãe. Para quem precisa de acessibilidade, é possível conferir as transcrições dos programas em texto ou em libras no nosso site. Anota aí: www.trampapo.com.br. Eu vou fazer a minha autodescrição, para que vocês me conheçam melhor. Eu sou uma mulher preta, Cis, de corpo volumoso, cabelos crespos e curtos, olhos escuros. Por conta do agravamento da pandemia, estou gravando no meu pequeno closet e por isso eu estou usando uma Camiseta Tie Dye, sem maquiagem, sem assessórios, mas estou feliz hoje, porque o meu companheiro de Trampapo está aqui comigo, Rick bom demais ter você de volta. Como é que você está?

Ricardo Morais – Ah, oi, pessoal. Depois de uma temporada meio caótica, fiquei meio adoentado, agora está tudo bem. Bom estar de volta com vocês, ainda mais num tema que é bacana para aprender todo o futuro. Bom, eu sou um homem branco, agora bem magro... Perdi todo o peso que eu tinha, sem barba também agora, praticamente, cabelos pretos, olhos claros, estou em casa também, então estou de camiseta branca, estou com uma bermuda azul clara, de Flamingo e um chinelo branco. Então estou quase que praiano.

Ana Paula Xongani – Você não falou, Rick, quem é você na fila do pão.

Ricardo Morais – Ah, verdade, verdade, verdade. Fica tanto tempo longe que até esquece. Eu sou o responsável pelo marketing da Catho e faço aqui o contraponto junto com a Xongani para trazer uma visão um pouco da empresa e do mercado sobre todos os assuntos que nós tratamos. Bom, aqui com a gente tem dois convidados mais para lá de especiais, que vão contar tudo para nós, o Ale Santos e o Akin Abaz. Queria que o Ale começasse explicando para a gente e contando, falando um pouco sobre ele e fazendo a autodescrição.

Ale Santos – Salve, pessoal! É um prazer imenso estar aqui com vocês, com a Xongani, que a gente acompanha já há um bom tempo, a Catho também, que está acreditando bastante aí no nosso trabalho e aí nesse trabalho de inclusão e de muitas pessoas. Eu sou o escritor, eu escrevi o livro “Rastros de resistência”, que foi finalista do Jabuti do ano passado. Sou podcast no Infiltrados No Cast, que está no Spotify, sou Roteirista também e tenho uma série de ficção, que são as ficções selvagens que está na Urello e já escrevi para a Intercept, pra revista superinteressante e produzo bastante coisa no Twitter. Faço muitas, muitas outras coisas por aí também. Sou Professor da ESPM de entretenimento fantástico e Consultor Gamificação, estou aí discutindo sobre o futuro e falando de tecnologia. E meu próximo livro afrofuturista que vai sair pela Harper Corners, é O Último Ancestral, que a gente já está trabalhando para sair em agosto. Então estou me aventurando mais na ficção literária.

Ana Paula Xongani – Sua autodescrição.

Ale Santos – Ah, eu sou um homem negro, de pele clara, cabelo dread em cima e raspado do lado, uma barba rala e eu estou de camisa de gola preta com flores amarelas, porque eu curto flores para caramba.

Ricardo Morais – Massa! Bem-vindo, bem-vindo.

Ale Santos – Obrigado.

Ricardo Morais – Akin fala para a gente agora, se autodescreve.

Akin Abaz – Bom, vou começar me descrevendo. Eu sou Akin Abaz, tenho cabelo dread, de cor rosa, estou com uma camisa social rosa, porque às quartas-feiras somos rosas. Então aqui na empresa a gente tem alguns dias temáticos e na quarta-feira é todo mundo de rosa, não tem outra opção. Deixa eu ver, eu estou de shorts, como sempre, chinelo no dedo para ter tranquilidade e paz no espírito também. Bom, eu sou criador e fundador da InfoPreta, uma empresa maravilhosa onde só trabalham mulheres negras e minorias perante a sociedade. Para a inserção, eu trabalho também com a tecnologia. Deixa eu ver, eu sou meio ruim para me apresentar, mas o importante saber é: eu sou leonino, conseguinte leão, está ótimo. (risos)

Ricardo Morais – A gente já sabe aonde o sol nasce, em volta do Akin, não é? (risos)

Ana Paula Xongani – É meio isso, eu acho que eu vou te escalar no meu último quadro também como um grande criador de conteúdo. Para dar contexto do porquê é tão essencial e urgente falarmos sobre a experiência das pessoas negras no mercado de trabalho e como que ela precisa ser transformada, nós trouxemos, para início de conversa, alguns números.

Ricardo Morais – Aqui na Catho a gente tem acesso à base de dados muito grande, não é? A gente faz pesquisas constantemente. E uma delas que nós fizemos era sobre a diferença salarial entre brancos e negros. E aí que a gente descobre que a diferença é de até 30% a mais para os brancos e isso assim, em todas as áreas, não é? Não tem uma questão de comparar uma área, uma posição, não, o salário do negro é sempre menor. Bom, além disso, para corroborar, a gente tem uma pesquisa do IBGE que mostra que nas empresas brasileiras menos de 30% dos cargos de liderança são ocupados por pessoas negras. Então que continua a piorar a história. Então o que a gente está querendo dizer com isso? Então, basicamente, o que não é novidade para ninguém, como o racismo operar no mercado de trabalho e assim, há séculos. E aos negros são destinados sempre o emprego de menor prestígio, os menores salários e a menor parcela da fila do desemprego, não é?

Ana Paula Xongani – E é sobre essa reformulação, a reformulação desses números, o papo de hoje: O conceito de Afrofuturismo levanta a possibilidade de desvincularmos, mesmo que brevemente, a experiência negra desses problemas sociais. Pensar e planejar o futuro precisa ser feita aqui, agora, no presente, porque é agora que podemos começar a movimentar a sociedade para alcançar o amanhã que desejamos e que merecemos. Ale, para deixar todo mundo na mesma página, para que todo mundo que está ouvindo fique por dentro do que é Afrofuturismo, eu gostaria que você explicasse um pouco desse conceito e como que ele pode apontar para um mercado de trabalho verdadeiramente diverso e inclusivo.

Ale Santos – Essa é uma pergunta muito especial e importante, porque quando a gente vai falar de Afrofuturismo, surge aquela questão: Nossa, mas precisa racializar o futuro? Na verdade, como você introduziu esse podcast, é que o futuro já é racializado. Quer ver? A gente discute muito no meio de inovação, tecnologia, comunicação sobre Ciberespaço, a gente ver aí em Lohman, que é falar do medo, da inteligência artificial, de como a inteligência artificial pode ser danosa para todo mundo, acho que Ferralchin também falou sobre isso. E raramente a gente pensa quem foram os criadores desse tempo, Ciberespaço vem de William Gibson, que é o autor do Neuromancer, aquela série que foi adaptada depois por Matrix. E quando você começa a ver todas as grandes questões que movimentam o mundo, tipo, robôs, a gente ver hoje governos criando leis para tentar regulamentar a existência de robôs e robôs é um outro termo criado por uma pessoa branca, no teatro tcheco que lá da década de 30. E aí quando a gente pega toda essa tradição de pensar sobre inovação e pensar sobre o futuro, a gente só vai colocando ali Júlio Verne, que também escreveu a “Viagem ao Mundo em 80 dias, 20 mil Léguas Submarinas”, a gente vai pegar toda uma tradição de pessoas brancas pensando sobre inovação, pensando sobre o futuro, pensando sobre tecnologia. E um cara que eu amo, que é o Isaac Asimov criou as três leis da Robótica, que até hoje é muito utilizado na robótica. Então a gente pega toda a tradição da ficção científica e da ciência e a gente ver que ela é racializada, porque ela é branca europeia ou branca estadunidense. E aí o que a gente ver? O Afrofuturismo surge como uma forma de integrar a existência de pessoas negras no futuro, da gente se ver dentro desse espaço trazendo toda a discussão sobre o futuro, sobre tecnologia a partir do pensamento, da religiosidade, da tradição, da existência periférica negra em Diáspora. Então não é tipo, eu vou, talvez a gente nem precise falar de robôs, robôs é uma coisa que surgiu de um Tcheco. Como seria o futuro se a construção desse Humanoide de Lata viesse da África, sabe? Esse poder de imaginar como seria a evolução... Eu lembro que quando a gente vai assistir década de 80, Robocop, não existia a ideia de um pen drive, não é? De nuvem, o Robocop usava uma estaca, ele pegava uma estaca, assim, e fincava nos computadores. E aí de repente um homem branco criou que a gente vai ter que ter HD, que a gente vai ter que ter coisas nas nuvens. Como seria a comunicação se ela viesse, por exemplo, a partir do povo Ashanti, de Gana, que se comunicava com tambores. Talvez nem a gente está falando de armazenar arquivos, sabe, a gente está falando de usar uma da sonora. Então eu sou escritor de ficção científica, eu vou longe, assim, nessas minhas divagações. Mas o Afrofuturismo, basicamente, é a gente ir imaginar a existência de pessoas negras no futuro e, tipo, utilizando toda essa tradição, toda essa cultura africana e África em Diáspora para a gente reinterpretar isso mesmo, para a gente recolocar pessoas pretas, periféricas no futuro onde elas realmente existem.

Ana Paula Xongani – Uai! Eu sei que vocês estão pensando o que eu estou pensando, tipo: Meu Deus, eu preciso anotar todas essas referências que o Ale acabou de dizer! Eu estou vendo umas cabecinhas dizendo sim aqui, eu estou vendo. Akin e a sua visão de futuro de Afrofuturismo qual é?

Akin Abaz – Bom, a minha parte de Afrofuturismo já meio que acontece. O InfoPreta é formado por 98% de pessoas negras e, desses 98%, todas são periféricas. Então a gente meio que está um passo à frente do que geralmente as outras pessoas falam, não é? Que: “Ah, eu não consigo colocar a universidade, porque não tem pessoal qualificado.” Ou: “Ah, não consigo colocar uma diversidade, porque não acho.” Tem profissionais no mercado, o Afrofuturismo é isso, não é? Quando a gente consegue olhar um passo à frente do que está sendo feito, mas eu não tenho toda essa parte acadêmica. Quando eu comecei a estudar sobre isso, a minha maior dificuldade foi entender até que ponto isso se adequava ao que eu vivia e ao que eu via, para mim ainda Afrofuturismo é uma coisa ainda muito para frente, mas ao mesmo tempo uma coisa que é vivida e ao mesmo tempo tem que ser muito estudada.

Ana Paula Xongani – É bom saber que a InfoPreta é um dos exemplos, não é? Do que a gente já está fazendo aqui no presente para construir um futuro melhor. E a sua perspectiva é muito importante para a gente, porque importante também que, se cada um tem uma perspectiva, cada um vai ter uma visão do futuro e do Afrofuturismo, todas elas são importantes e eu tenho certeza que em vários pontos elas vão se convergir. E, para me ajudar nessa pergunta, a gente recebeu um ‘Manda Papo' da Tayná. Inclusive, se você também quiser participar aqui bem de pertinho do nosso podcast, manda um papo para a gente, você pode usar, por exemplo, as nossas redes sociais. Eu vou dar o play aqui e vamos ouvir que a Tayná tem a perguntar.

Tayná – Meu nome é Tayná, tenho 25 anos, eu trabalho na indústria da moda, eu sou Assistente de Estilo. E eu queria perguntar para vocês: Como que vocês veem que o Afrofuturismo pode ajudar a estruturar modelos de sociedade mais justos para a população negra no geral?

Ana Paula Xongani – Boa pergunta, Tayná. Pergunta do quê? De muitos dólares. Vai lá, Ale.

Ale Santos – O Afrofuturismo, assim, quando a gente pensa no Brasil, a gente não tem como falar de desenvolvimento de um país onde 56% das pessoas não estão integradas de uma maneira significativa na economia, que não estão pensando tecnologia, que não estão pensando em empreendedorismo. Então o Brasil não vai para frente sem o Afrofuturismo, o Afrofuturismo é a gente fazer o que o Akin está fazendo, é colocar pessoas pretas no mercado de trabalho e fazer com que todas elas são ativas economicamente e sejam ativas na produção de ciência, sabe? Lembra daquela cientista que conseguiu identificar o DNA do Coronavírus? É uma mulher preta brasileira e isso é Afrofuturismo, sabe? O Afrofuturismo é a gente colocar pessoas negras nos lugares onde sempre foram desacreditados, porque a Sociedade Brasileira, sendo majoritariamente negra, ela só vai se tornar uma sociedade desenvolvida, um país desenvolvido quando nós estivermos também produzindo tecnologia na indústria, no campo, na programação. Então Afrofuturismo, ele naturalmente, organicamente, a visão de ter pessoas negras nessas posições já é uma visão de desenvolvimento para o país, já é uma visão e eu acho que muita gente, muitas empresas que estão fazendo esse processo de Trainees, esses processos de dar mais oportunidade já entenderam isso. O Brasil só vai ser o país do futuro que todo mundo diz há décadas e décadas atrás, quando esse futuro for feito por pessoas pretas também.

Ana Paula Xongani – Muito bom. E nesse movimento de tornar a sociedade de mercado de trabalho antirracista, as ações afirmativas são fundamentais, tanto os poderes públicos, quanto as iniciativas privadas podem e devem implementar medidas o corrigir as desigualdades raciais presentes na sociedade e acumulados ao longo de muito tempo.

Interlocutor não Identificado – É, a gente tem sempre que compor de partida a equidade, não é? Eu acho que isso é o básico, tem que entender que o Brasil, ele é plural, vamos lembrar que a gente é basicamente do tamanho de um continente inteiro, a gente precisa de iniciativas que ofereçam esses estímulos a todos que não tiveram igualdade e oportunidade de inclusão. Por exemplo, quando você eu for Preta Fase, é promovendo consultoria, palestra, curso, oficina de tecnologia, inovação, empreendedorismo, tudo com foco em relações étnico-raciais, gênero e diversidade.

Ana Paula Xongani – Akin conta para a gente mais sobre a InfoPreta, que a gente quer saber o nosso modelo de negócio aqui nesse podcast. Como fazer a diferença na atualidade, não é? Nessa realidade. A gente sim enxerga a InfoPreta como futurista, mas como um presente incrível de ser observado. Além de tudo, a InfoPreta, ainda leva a tecnologia para outras pessoas pretas, tem muita coisa que a gente tem que aprender com você. E, além disso, você também circula e conversa com outras empresas. Então fala um pouco da InfoPreta e outras ações que você está vendo por aí, que você acha que pode transformar o presente e o futuro?

Akin Abaz – Uma coisa que o Ricardo falou, que é uma coisa que... Uma das coisas que, quando eu criei o InfoPreta, que é... O que mais eu percebi é o quê? Essa dificuldade de interação entre dois povos diferentes da sociedade, então pessoas que têm, por exemplo, estrutura e o pessoal periférico. Então uma das coisas que a InfoPreta faz é fazer a tecnologia ser acessível, as pessoas entenderem que tecnologia é tudo que você inova, não o que a sociedade fala que é. Então, a partir do momento que você inova a sua realidade, você está fazendo tecnologia dentro da onde você mora, na sua vivência. E uma das coisas que a InfoPreta faz é isso, não é? Ter acesso a lugares, geralmente pessoas negras não têm, conhece, estrutura e não fica aquele conhecimento guardado, não é? A gente geralmente expande, então qualquer lugar que eu vá ou vá conhecer, eu sempre tento levar outras pessoas para a gente conversar sobre. E o que acontece com isso tudo? A InfoPreta basicamente é um pouco também da minha vivência quando criança, cresci no meio da periferia, meus pais sempre trabalhando e eu nunca tive acesso à tecnologia, eu fui mexer no computador quando tive 16 anos e foi mexer, eu olhei para ele, ele olhou para mim e eu falei: Esse negócio dá choque, eu não vou tocar não. E quando... A InfoPreta foi criada, em conjunto eu criei um projeto criado Nota Solidária da Preta, que a gente recebe equipamentos eletrônicos que as pessoas não usam, como computador, celular, tablet, tudo que é de eletrônico faz uma reciclagem, conserta, deixa 10 e aí doa para escolas, porque o governo fala, fala, mas não apoia as escolas e o êxodo escolar é muito alto, principalmente de pessoas negras. Então a gente faz esse incentivo para o estudante ficar, mas sabendo que é possível se moldar à realidade. A gente também pega notebooks, que geralmente as pessoas privadas não utilizam para descarte, conserta e doa para estudantes do ensino superior para impulsionar também o ensino superior. Porque uma frase que eu sempre, o que eu vivi, eu sempre falo é: É muito fácil você entrar, entrar é fácil, não é? Bota umas aspas aí. É fácil o acesso até o ensino superior, só que é muito mais difícil você permanecer nele, porque muitas vezes, eu passei por isso, ou eu imprimi alguma coisa, ou eu pagava o meu almoço ou comia um lanche, que estava com fome, e aí a gente sempre fica nessa sobrevivência, educação, sobrevivência, educação. E aí, com esse projeto, a pessoa tem a opção de fazer educação e ainda sobreviver.

Ale Santos – Eu me identifiquei bastante isso com o que o Akin falou, por exemplo, eu sou um cara muito conhecido do Twitter. Por que eu sou conhecido do Twitter e não do Instagram? Porque há poucos anos atrás eu não tinha um celular capaz de usar o Instagram, que era muito pesado. Então a gente vai buscando soluções para a gente estar ali inserido nessas conversas digitais, não é? Eu quero trazer um dado, que é importante, que a gente está falando de equidade, empresas trabalhando sobre equidade é que assim, não é só uma questão de bem-estar social, é uma questão totalmente econômica. Tem uma consultoria, que é a McKinsey & Company, que ela estimou que os Estados Unidos vai perder nos próximos 10 anos 1,5 trilhão de dólares por conta da não inclusão de negros na economia, não inclusão de negros ali no consumo e no investimento do país. Então não ter pessoas negras na sua empresa significa que você também não está expandindo o mercado, eu acho que as empresas estão pensando muito nisso.

Ricardo Morais – Você ver, não é? Você falou agora no mercado americano, 1.5 trilhão e a parcela da população negra no Estados Unidos não é grande. Agora, você imagina aqui, que é a maior parte, o quanto a gente não está deixando na mesa, não é?

Ale Santos – Exatamente, e assim, quando a gente expande, eu acho que empresas como Netflix já sacaram esse tipo de coisa, quando eu crio uma narrativa para uma comunidade negra, o que eu estou fazendo, simplesmente, é abrir um novo mercado, porque cada vez mais pessoas negras estão olhando, e brancas também, e outras pessoas estão percebendo que, tipo: Olha, existe um padrão e talvez eu quero me identificar, quero buscar, quero consumir algo que tem mais a ver comigo. Eu não acho que uma empresa que só tenha homens brancos hoje possa se chamar de inovadora, porque por mais inovador que você pode fazer, não tem um impacto real na vida das pessoas, não é? Essa pandemia, ela escancarou que 40 milhões de brasileiros não têm acesso à internet, então adianta, você vai lá, cria um aplicativo, um mega aplicativo, fantástico ali que vai fazer maravilhas, mas você tem 40 milhões de brasileiros que precisavam ir para a fila da Caixa Econômica Federal, porque não tinha acesso, não tinha banda larga. Então aí você vai criando essa dissonância, de tipo, eu estou pensando no próximo, no iPhone, no próximo... E o iPhone chega para cá por R$ 10.000,000, que R$ 10.000,00 é o que uma família ganha no ano. O Afrofuturismo é isso, é tipo, é impedir que esse avanço hiper tecnológico crie uma nova segregação. E o Yuval Harari, que eu amo ele, que ele escreveu o livro Sapiens, ele fala isso: “Que essa hiper tecnologia está criando uma sociedade invisível, que é pessoas que não fazem parte da democracia, porque a democracia hoje, ela é disputada no Twitter e o Twitter só tem 60 milhões de usuários, que a democracia, ela é impactada pelo YouTube e o YouTube só tem 90 milhões de usuários num país de 220 milhões.” E aí quando vem uma pandemia, as pessoas percebem que não adianta fazer aplicativo, porque muita gente não tem acesso, nem a esgoto, quanto mais a tecnologia, e aí as pessoas pensam: “Caramba de onde surgiu isso?” E essa é a realidade que está aqui e que muitos futuristas tradicionais não pensaram muito pessoas que se chamam de inovadores não trouxeram para a mesa e o Afrofuturismo traz isso para a mesa.

Ana Paula Xongani – Um dos pontos mais significativos que mostra como o racismo condiciona a realidade dos negros, é o cargo que geralmente é ocupado. Como falamos aqui, normalmente os negros que exercem as funções de servir. E eu acho que eu posso afirmar que esse imaginário que condiciona os negros sempre nessa posição, é o que alimenta todas as pessoas, mas há um efeito ainda mais perverso dessa limitação nas crianças negras, as imposições do preconceito e da exclusão prejudicam as chances delas se verem com carreiras bem sucedidas. Elas se verem que tanto na vida real, quanto nas novelas e nos filmes, os negros geralmente interpretam os empregados, os motoristas, os porteiros, isso pode minar a sua capacidade de questionar, e de se perguntar que tipo de trabalho eu posso ter no futuro.

Ricardo Morais – Como nós podemos agir para estimular nessas novas perspectivas de futuro para as crianças negras?

Ale Santos – Essencial para isso, o Emicida uma vez me disse: Ale, vamos para a fantasia, na fantasia a gente vai reconstruir todo imaginário das pessoas, porque o cinema, a mídia, a televisão, ela tem um grande impacto em propagar estereótipos, e o racismo assim, não tinha escola de racismo, como que a sociedade aprende ser racista? Assistindo filmes, ouvindo música, lendo revistas, vendo que as pessoas brancas estavam sempre nos grandes cargos, a década de 90 é uma década que eu fui nerd, você só tinha o Cirilo e o Saci ali para me comparar na televisão, tá ligado? Então você não vê cientistas negros, nos papéis de novela, o negro sempre é o subalterno. Então acho que é esse conjunto de trabalhar o imaginário, de trabalhar a representatividade, isso vai fazer com que as crianças entendam que também é para elas, a grande questão é isso.

Ana Paula Xongani – Eu sempre falo que ninguém sonha com o que não conhece. Você Akin, o que é que você quer contar para as crianças do futuro?

Akin Abaz – Ah, eu fiquei pensando muito nessa pergunta que vocês fizeram, porque quando lá quando comecei lá em 2014, eu pensava muito: nossa, que a minha infância, a única referência que eu tive foi meu pai e minha mãe. De resto, eu era, gente, eu era nerd, eu só via Stars Wars, e coisa de robótica, nada mais na minha vida. Nem brincar, eu brincava direito, quase. E aí eu sempre, depois que eu cresci, eu sempre, nossa, confiar nas crianças, será que realmente toda essa informação do que acontece, chega lá no fundo, onde a pessoa mora, lá naquela comunidade ou naquele lugar que a pessoa está? Eu sempre me pergunto isso antes de fazer qualquer coisa. E as crianças, é o futuro da nação, então primeiro a gente tem que fazer igual antigamente, que tinha cadernos negros, encontro dos cadernos negros, e meus pais me levavam, querendo, aquele encontro antigo, muito antigo, bota antigo nisso. Tinha um cara, era um...

Ana Paula Xongani – Akin, você tem...

Ale Santos – Caramba, ele está chamando a gente de dinossauro, mano.

Ana Paula Xongani – Ele tem 20 anos, gente.

Ricardo Morais – Não vou comentar nada sobre isso, viu?

Ana Paula Xongani – Vai, antigo, muito antigo mesmo.

Akin Abaz – Eu era criança, né? Que tinha encontro dos cadernos negros, que tinha, que você via outras pessoas como você, que eram cadernos, era o que, era um caderno de poesia, que pessoas negras faziam, se juntavam e faziam uma publicação. Então todo ano tinha, então todo ano minha mãe e meu pai me levavam e outras pessoas, e aí eu tinha um contato, então eu conversava com um monte de gente. E eu ficava: nossa, mas faz isso da vida, caraca, e aí eu comecei a ver outras coisas. Então eu sei que está numa pandemia, mas tirando, ignorando um pouco esse fato, eu acho que ainda falta um pouco disso, sabe, a gente se inteirar com alguma criança, mostrar para ela outras realidades. Mas dentro aí da comunidade, fazer eventos na comunidade, que nem com a InfoPreta, a gente acaba ajudando em muitos lugares, numa favela ali, tem um amigo meu que faz, que até esqueço o nome dele, que é da Favela Vertical, eles fazem esses eventos, que a gente sempre ajuda, sempre que eu posso, eu vou lá, converso com as crianças, porque isso, a gente igual você falou, se a gente não ver, a gente não sonha.

Ale Santos – Está aí, hoje tem bastante referência, hoje se você quer, se você é um pai empenhado em querer dar uma visão diversa pelo seu filho, hoje você pode buscar, entra no Spotify, entra nos streamings aí e busca conteúdo diverso. Tem uma série, ah, já estou dando a dica aí, mas é o Criando Dion, uma série de fantasia negra que tem na Netflix que é fantástico, sobre um garotinho preto que tem superpoderes. Então hoje você pode buscar essa referência, você precisa ter esse esforço de tipo, de filtrar mesmo, de impedir que o padrão entre o padrão branco egocêntrico entre e permaneça na sociedade, está ligado?

Ana Paula Xongani – E eu como mãe de uma menina preta, né, eu sempre digo que eu estou construindo o futuro, eu falo: o futuro mora lá em casa. Eu estou construindo esse futuro sim, é preciso esforço, precisa ser propositivo. Sem dúvida, evoluímos, eu tenho certeza que dos cadernos negros que tem até hoje, inclusive, para hoje a gente tem uns cadernos negros, mas tem várias outras coisas, e aproximas os nossos filhos dessas informações, a partir da tecnologia, como o Ale falou, a partir dessa tecnologia social que são os encontros como o Akin falou, pode ser transformador, né, a construção do imaginário é muito importante para a gente criar possibilidades de futuro. E eu faria uma provocação ainda maior, isso sim são para as crianças pretas? Por que elas precisam se imaginar no futuro, vivas, prósperas, mas são para todas as crianças. É importante que todas as crianças imaginem pessoas pretas no futuro. Então apresente referências diversas, positivas, referências em diversas mídias, de diversas profissões, de pessoas pretas, para todas as crianças. É importante que todes nós visualizemos o futuro de uma forma justa e diversa. E se estamos aqui hoje, para falar de um mercado de trabalho antirracista, precisamos pontuar que apesar de a população negra ser maioria entre os desempregados, historicamente nós pessoas negras, sempre estivemos no mercado de trabalho. Os negros foram responsáveis por construir civilizações, riquezas, inclusive aqui no nosso país, mas submetidos à escravidão e ao racismo estrutural e estruturante, o trabalho realizado pelos negros sempre super desvalorizados.

Ricardo Morais – Bom, mas no entanto, muitas vezes essa luta pela valorização das vidas negras, né, da intelectualidade da cultura, é chamada de mi-mi-mi, ou de vitimismo, por aqueles que não têm conhecimento, empatia, que é o bem comum de uma sociedade cada vez mais egoísta, ou também simplesmente aqueles que querem manter as coisas como estão, por que se beneficiam desse padrão, né?

Ana Paula Xongani – Dentro dos trabalhos que vocês realizam de pesquisa, e se relacionando com outras empresas, como que vocês enxergam a questão da desvalorização intelectual de pessoas pretas? Por que é que ainda existe esse estigma que faz a sociedade enxergar negro como uma figura incapaz diante de certos assuntos e habilidades, e por consequência a gente continua perpetuando a desigualdade no presente e no futuro? Vai Akin, começa você dessa vez.

Akin Abaz – Olham para a gente, aí já vem querer estigmar, a Índia pega toda questão de gênero, aí já começa todo aquele julgamento, né? Aí você começa a pensar: nossa, mas será que é isso mesmo? Aqui na empresa já teve momento em que fiz um trabalho para a pessoa, deu tudo certo, perfeito, entreguei na mão da cliente, a cliente falou assim: ah, está certo mesmo? Vou levar no meu amigo, porque não confio muito em vocês. Tipo, sabe, se fosse assim, por que você não levou antes? Às vezes é doloroso, não vou negar para vocês, não, dá vontade de desistir, aí você fala: mas será que é isso mesmo que você quer ver? Meu Deus do céu, estou 12 anos já trabalhando nessa área, aí eu fico pensando: nossa, 12 anos da minha vida, para que, e a gente acaba dependendo do dia, tem dia que a gente está mais forte mentalmente, mas tem dia que a gente está muito fraco. A gente acaba meio que caindo nesse limbo, e todos os dias, a partir que a gente levanta da cama, já é meio que uma luta para mostrar para que a gente tem qualidade e entende daquilo que é feito.

Ale Santos – Xongani, tem um filme que acho que muita gente assistiu, chama Estrelas Além do Tempo, que conta da Catarine Johnson, a Doroti e a Mary Jackson que foram aquelas três cientistas da Nasa que ninguém acreditava que tinham a fórmula de levar o homem para fora do planeta. Sabe, e aí às vezes a gente fica assistindo esses filmes dos Estados Unidos, e fala nossa, olha como que a segregação lá era ruim, era tensa, aqui no Brasil não deve ter sido assim, mas a verdade como eu disse, o racismo não é um sentimento, e estiveram aqui no Brasil, tem livros no Brasil de psiquiatra, o pai da psiquiatria criminal brasileira, que é o Raimundo Nina Rodrigues, que escreveu que o cérebro do negro é inferior e que o negro tem uma moral, uma intelectualidade menor que a do branco. O Raimundo Nina Rodrigues chegou a sugerir para a sociedade um sistema criminal diferente para negros e brancos, por que ele acreditava que raças diferentes tinham desenvolvimento intelectual diferente. E isso é uma crença brasileira que rolou até a década de 40, então assim, essa ou a gente fala, o Akin, ele é, tem 20 anos, é mais jovem, então assim, a geração dele hoje fala: nós somos todos iguais, mas esse consenso de que somos todos iguais só veio na genética em 2003, essa nova geração não sabe que antes de 2003, pega a década de 90, você tem na TV brasileira publicitários falando que não colocam negros no programa de TV, você tem, quanto mais para trás você vai, o racismo vai se tornando, assim, no esporte, é absurdo, porque o esporte até hoje, 2020, você vai encontrar médicos do esporte falando que negros são melhores para coisas de força. É racismo científico puro, então o racismo ele não é só esse sentimento, é esse conjunto de ideias que foram criadas lá no passado, só que assim, sem um esforço, a gente não apaga elas, eles vão sendo repassados de um jeito, de outro, pela sociedade, se ninguém fala assim olha, deixa eu te contar uma coisa, ser negro é legal, ser negro é bonito, ser negro, como a Xongani falou, tem que ter visões de representatividade também para crianças brancas, por que se você é uma pessoa branca e você só vive com pessoas brancas, e só pessoas brancas estão ao seu redor, é muito orgânico do cérebro, que o cérebro funciona assim, você achar que só pessoas brancas são confiáveis para esses cargos, e aí vai culminar aonde, naquele teste do RH que é famoso lá, que você pega a foto de pessoas brancas e elas de terno são executivos e pessoas negras são seguranças, por quê? Porque é o nosso imaginário, carregando comportamentos, herdando pensamentos que por mais que hoje não tenha um livro dizendo negros são inferiores, também não houve esse esforço de falar que negros são tão humanos, quanto as pessoas brancas, então não houve, o racismo no Brasil, através do processo de eugenia, por exemplo, foram várias décadas de discussão em universidades, em concursos de beleza, promovidos por médicos, sabe, que mediam o nosso crânio, falavam que a boca, o cabelo, uma coisa assim inferior, então assim, a sociedade herdou isso daí, então você precisa romper com esse tipo de coisa. E aonde que isso vai culminar? Vai culminar, por exemplo, quando eu vou tentar dar uma palestra, e quando tem a minha foto na palestra, ela não fecha a sala toda assim de palestrantes, sabe, quando você vai entrar numa, hoje acontece menos, que eu sou um pouco mais conhecido, mas quando você vai chegar num hotel para ser o palestrante, os seguranças não acreditam que você é o palestrante, quando você vai aparecer num programa, e quando tem a sua foto, a audiência é um pouco menor, e isso também terminar nos youtubers negros que têm uma audiência menor, por que as pessoas simplesmente olham, não estão acostumadas com pessoas negras produzindo intelectualidade, e aí essa imagem, essa falta de pessoas negras produzindo intelectualidade, não humaniza, não torna normal, e por não ser normal, as pessoas dão, descreditam, sabe, acho que é muito complexo, por que não tem como a gente falar desse descredito intelectual de pessoas negras sem puxar todo esse histórico que existiu no nosso país. Quando os grandes líderes históricos, André González, Luther King, Abdias, falavam, as palavras deles não ficavam só na comunidade preta, sabe, não ficavam só na comunidade negra, então pessoas brancas também estão se sensibilizando, o mundo não é feito só de tipo pessoas brancas horríveis, racistas, não, tem algumas pessoas que estão, que realmente estão se tornando aliadas disso, e estão entendendo que nossa, eu quero que meu filho, eu quero viver num mundo onde tenha pessoas negras do meu lado também, não quero tipo estar nessa realidade de todo set de palestrantes é branco, e aí quando a gente abre a porta para fora do evento, o mundo é diferente, está ligado? As pessoas estão sentindo tocados por isso, porque tem muita gente falando, a consciência está chegando para muita gente, muita gente está se colocando nessa discussão, e daí essas pessoas brancas também estão se aliando e querendo discutir sobre afrofuturo, por que como a gente disse, o desenvolvimento econômico e social do país, depende da nossa inserção, depende de a gente trabalhar junto, a visão afrofuturista, não é uma visão só para negros, é uma visão para a gente trabalhar junto, para a gente fazer a sociedade acontecer para todo mundo.

Ana Paula Xongani – E sem dúvida é importante que as empresas façam esse movimento de contratarem, e que seja um processo intencional, é importante que seja intencional a contratação de pessoas negras. Mas também temos que cobrar proporcionalidade, não basta ter um, precisa ser proporcional a nossa sociedade. Afinal, também existe aquele método questionável, que criam que aquele espaço do negro único, sabe? Tem muitas empresas que argumentam: não, aqui a gente não é racista, por que tem uma pessoa preta trabalhando em um departamento específico e tudo isso para garantir uma falsa não discriminação. E aí eu quero perguntar para vocês: como podemos romper com essa estratégia também desse negro único? Será que as empresas estão realmente adquirindo consciência, ou será que se tornou uma imposição? Será que é por justiça social ou é só a busca do Black Money, mesmo?

Ale Santos – Eu acho que é um pouco das duas coisas, sabe, vamos falar, por exemplo, de Big Brother, a gente está falando de uma parada muito louca aqui. Esse ano, foi a maior participação de pessoas negras no Big Brother, e deu toda uma confusão ali, por que algumas pessoas acabaram tendo polêmica e tal, mas no final das contas, o que aconteceu, foi a maior audiência histórica do Big Brother também, para as empresas, isso significa uma coisa, a fórmula da audiência deu certo. E entrou mais dinheiro para a Globo, fechou milhões e milhões de contratos ali. Então de alguma maneira, as empresas vão falar: caramba, então quer dizer que se eu colocar mais negros, vai me dar mais audiência, vai me dar mais dinheiro? E isso de alguma forma impulsiona, as empresas que tinham o hábito do negro único, quando entra uma pessoa negra lá, vai perceber a diferença que está numa equipe criativa, numa equipe de desenvolvimento, numa equipe de inovação, assim mesmo vai perceber, caramba, deu muito certo essa pessoa aqui, a gente ganhou, a gente adicionou novas ideias, novos imaginários, novos mercados, novas propostas. Então eu vou atrás.

Ricardo Morais – Akin, você vê um pouco disso? Por exemplo, empresas que quando vem falar com a InfoPreta, é meio por que preciso ter um projeto, preciso ter algo só para usar ali naquele mês específico, aparecer, como é que fica isso quando nessa questão, ali o Ale fala muito da empresa que tem o negro único, mas também como é que é a empresa que vem ali só para ah, fazer um projeto só para aparecer? Acontece isso?

Akin Abaz – Acontece bastante, aqui na InfoPreta, na verdade, são dois meses, é janeiro e novembro, janeiro por causa do mês de pessoas trans, e novembro mês da consciência negra, e é sempre a mesma coisa. Janeiro, novembro lota de gente, ai vem com não sei o que, não sei o que, aí a gente entra em outra pauta dentro disso, porque a pessoa quer que você ajude na empresa, some ali, faz tudo, só que também em contrapartida, não quer te pagar, então tem que ser também gratuito. Então a gente fica nesse embate aqui, tipo olha, você quer mudar sua empresa, você quer uma ajuda, consultoria, vamos conversar, não sei o que, só que você em contrapartida não quer me pagar, então aí entra também naquele outro assunto que a gente estava falando, quanto vale um profissional negro no mercado? Eu concordo muito com o que o Ale disse, na pergunta da Xongani, é um pouquinho de cada, é um momento do Black Money, por que ganho dinheiro com algumas pessoas. O BBB foi um ótimo exemplo de como isso na prática funciona, por que olha, quanto a Globo ganhou com esse BBB, no próximo provavelmente vai ser um participante branco...

Ale Santos – Vai ser 100% negro, está ligado?

Akin Abaz – É. Um branco para falar da diversidade, o resto tudo negro.

Ana Paula Xongani – (Risos).

Akin Abaz – Só pode.

Ana Paula Xongani – Muito bom, gente, a gente está chegando quase no final do nosso episódio, vocês já deram assim, um monte de dicas, mas vamos organizar aqui. Chegamos no nosso Quadro Dica Extracurricular, para você continuar essa discussão, essas informações aí da sua casa. Vale tudo, vou pedir para vocês indicarem uma palestra disponível na internet, pode ser filme, série, vídeo, pode ser sei lá, um Instagram, o que vocês quiserem. Quem quer começar com as indicações de hoje?

Ricardo Morais – Começa aí então você Ale, deixa eu puxar você.

Ale Santos – Vou começar, por que acho já posso dar esse spoiler, porque a próxima edição da Forbes é uma edição especial sobre afrofuturo, então assim, pode, vocês que estão ouvindo esse podcast, vão pegar a lista de muita gente preta desenvolvendo tecnologia e inovação na educação, no mercado financeiro, na comunicação, na música, uma edição feita por pessoas negras, desde o ilustrador, até os articulistas, eu escrevi ali também na introdução da revista, e fui do Conselho Consultivo, muito bacana, uma edição inovadora assim, uma edição que vai, que a gente espera que vire tendência no mercado, por que ela foi, é muito disruptiva, cara, de estar, de ter esse envolvimento e ter de entregar toda essa narrativa para a mão de tantas pessoas negras numa revista de tamanho nome assim, de tão importância para o mercado que é a Forbes, é uma construção que já está rolando há vários meses, eu acho que desde o ano passado, com várias pessoas pretas lá dentro conversando, e os editores abraçando todas essas ideias. Essa é uma das minhas dicas, eu já falei aí do Criando Dion, que é uma série muito bacana aí, de superpoderes, e assim, para crianças, que eu gosto para caramba, eu gosto do Twilight Zone do Jordan Peele por que eu também tenho essa sacada que eu tenho esse meu lado nerd de literatura assim, de ficção científica. E Twilight Zone é clássico da década de 60, de ficção científica, mas foi reimaginado pelo Jordan Peele que é o cara que escreveu Corra, e esse também que é fantástico assim, eu amo tudo que ele faz, é um cara que eu me inspiro bastante como escritor assim, e um álbum amarelo do Emicida também, meu grande parceiro, amigo que eu amo e tudo que ele faz. E um livro que eu preciso indicar para todo mundo, porque é um livro que mudou muito a minha vida, que é o Sapiens, do Yuval Harari, e gosto muito dele, é um livro que ajuda bastante as pessoas a entenderem o poder de uma narrativa, o poder de uma história, impacto dela no nosso mundo. Ah, e também para fechar, eu tenho uma série de podcast, sobre afrofuturismo, que estavam infiltrados no Cast, três episódios, um sobre afrofuturismo na música, outro sobre afrofuturismo no cinema, e outro na literatura. Está tudo lá no Spotify.

Akin Abaz – Começar com música, porque um artista que sempre me acompanha, me acompanha desde o início, é Kamauu, o Rapper, quando você está assim, poxa, sem nada, impossível comer quando consegue tirar a essência. Bom, de leitura, cara, eu sou muito nerd, eu indico Scott Pilgrim, que não sei te explicar, eu amo demais o contexto do desenho, o modo perfeito, os quadrinhos, sou um cara meio estranho. E para estudo referente assim, eu vou bater o pé de novo na Nina da Hora, porque o quanto essa mina me ensinou a ter referência de algoritmo, referência de robótica, de estruturamento, de objetos, Nina sempre maravilhosa, em todas as dúvidas que eu peço para ela. Mas isso assim.

Ricardo Morais – Wolo.tv, basicamente é a Netflix da diversidade, feita por brasileiros, focado para população negra e diversidade. Então apoiar a cultura nacional, apoiar mais, ter um pouco mais dessa visibilidade que a gente sempre falou aqui.

Ana Paula Xongani – A casa da avó, com Margareth Meneses. Essa série verdade. Bom, hoje eu vou indicar o Instagram do Akin, que ele falou que não é um criador de conteúdo, mas ele é, então estou indicando. Vou indicar o TED da Nátaly Neri sobre afrofuturismo, que chama As Necessidades das Novas Utopias. E eu quero indicar, a gente falou sobre racismo intelectual, tem um livro que me lembrei, que é o Memórias da Plantação da Grada Kilomba, que fala muito sobre isso, e é uma ótima referência assim, indico todo mundo a ler. E para você que não deu tempo de anotar todas as informações, já disse, é só entrar lá no nosso site: www.trampapo.com.br que está tudo ali para você, tá? Vai pesquisar, tenho certeza que você vai gostar. Para finalizar esse papo, uma das mensagens que fica é que não podemos deixar de imaginar futuros melhores para a população negra. E para defender essa ideia e torná-la realidade, precisamos de ferramentas. Para termos o Wakandas espalhados por todo nosso país, para termos um país rico, sustentável, humanizado, que reverta as desigualdades sociais em oportunidades de negócio, em renda, lucro, tecnologia, e extermine o racismo, precisamos nos informar e permitir que a mudança aconteça no presente. O afrofuturismo é um conceito que nos ajuda a vislumbrar um mundo mais justo. E a partir daí construir ações. Ele também pode ser um movimento artístico, cultural, intelectual, dentro das produções audiovisuais e das obras, é importante que as situações perversas que ainda acontecem na experiência negra no presente, seja ali retratado, é importante a gente retratar o encarceramento em massa, o genocídio da população negra, a pobreza. Mas não só, é preciso também ter espaço para que a gente construa imagem positiva, capaz de desenvolver criatividade e perspectiva do futuro. E o mesmo pode ser feito por você, o mesmo pode ser feito pela sua empresa ou mesmo aí do seu lado, pense o futuro, um futuro justo, um futuro consciente, um futuro bom para todes. Um futuro onde pessoas pretas, pessoas negras, tenham liberdade de viver na sua máxima potência e comece a construir esse futuro agora, no presente. Muito obrigada a vocês por estarem aqui com a gente, foi incrível o nosso papo, obrigada Ale, obrigada Akin, obrigada Rick.

Ricardo Morais – Valeu pessoal.

Ale Santos – Prazer imenso estar aqui com vocês, Ricardo e Xongani, Akin, e espero quando essa pandemia passar, a gente possa se trombar aí e trocar umas ideias também. E dar aquele abraço.

Ana Paula Xongani – Eu quero abraços.

Ale Santos – Boa.

Akin Abaz – Sim, foi um prazer estar aqui com vocês, qualquer dúvida que vocês tiverem, só entrar em contato na DM, que o assunto tem pano para manga, né?

Ana Paula Xongani – É isso meu afrofuturismo hoje, é poder encontrá-los e abraçá-los. Espero que vocês tenham gostado, indiquem esse episódio para mais pessoas, vamos todos aqui fazer um grupo de pessoas que pensam o futuro, que pensa o afrofuturo. Não esquece de continuar acompanhando a gente nas redes sociais, a gente te ver no próximo episódio do Trampapo. Um beijo e até a próxima.

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