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Tire o seu machismo da minha profissão

13/03/2021DIVERSIDADE
Tire o seu machismo da minha profissão

Como a maioria das mães, pais e famílias nos aconselham: o estudo abre portas.

E, para as mulheres que buscam se qualificar, os estudos realmente podem ser a chave para entrar em um determinado mercado. Mas depende.

Se esse mercado foi predominantemente e tradicionalmente masculino, vai depender também de vencer outros obstáculos, ter resiliência, comunicação assertiva, foco… Os mercados que antes eram frequentados só por homens hoje até são mais ocupados por mulheres, e a força da representatividade feminina em novos ramos é essencial para desmistificar os estereótipos de gênero que estão postos na nossa educação e construção social desde cedo.

Como tantas outras áreas da vida social, as relações de trabalho vêm sendo alteradas a partir do aumento de medidas afirmativas para as mulheres. E a entrada massiva de mulheres no mercado de trabalho, em especial em profissões que são tidas como masculinas, e também na educação superior, nas organizações e como chefes de família, mudou e ressignificou a questão da escolha profissional e os processos de formação da identidade profissional para ambos os gêneros.

Só que a desigualdade continua.

Ainda é preciso lutar por reconhecimento e direitos para as mulheres nesses espaços. É bastante comum que as mulheres desses segmentos tenham que abandonar suas carreiras ou tenham menos reconhecimento e crescimento porque os ambientes não são pensados para incluí-las, protegê-las e acolhê-las. Afinal, mesmo que muitas mulheres vejam “normalidade” em participar do mercado de trabalho, para elas, a carreira ainda representa uma posição secundária em suas identidades femininas. E, na primeira posição, ainda prevalecem os papéis de cuidado para com a família e o lar.

O entendimento geral de “homem” e “mulher” é historicamente construído. E embora haja verdadeiras diferenças biológicas, este único ponto é muito usado como ideologia para fazer crer que a divisão dos papéis entre eles é natural e justa. E essa visão influencia em desigualdades na execução de tarefas domésticas e com a família, nos postos de trabalho que cada pessoa ocupa, na satisfação profissional, no valor dos salários, no acesso aos recursos econômicos, culturais, sociais e políticos.

Essa divisão se constrói muito a partir da noção que a figura feminina é diretamente associada ao ato de cuidar, atribuindo quase que exclusivamente às mulheres as responsabilidades com a limpeza e organização da casa, com o preparo das refeições e com o afeto e criação dos filhos. Já em relação ao entendimento do que é o papel masculino, as noções são fortemente associadas ao trabalho, à autoridade, ao treinamento para a autossuficiência, ao conhecimento de disciplinas e estratégias de ascensão social. Desde os feitos escolares, nas brincadeiras, na força física e em vários âmbitos, há um estímulo externo e uma busca interna dos homens por recompensas que vão reafirmar a masculinidade deles, e isso acaba sendo um motor para comportamentos nocivos a todas as pessoas, homens e mulheres, além de dar continuidade a crenças e condicionamentos que limitam oportunidades para todos e todas.

Alguns exemplos de áreas que são tradicionalmente feminilizadas e que têm a maior parte de universitários mulheres são as áreas de Pedagogia, Serviço Social, Enfermagem, Nutrição, Psicologia, Letras e demais Licenciaturas. E justamente por serem historicamente profissões mais ocupadas por mulheres, há uma desvalorização das profissões e carreiras ligadas ao cuidado. Por outro lado, apenas 30% das universitárias escolhem carreiras relacionadas à ciência, tecnologia ou matemática, segundo dados da Unesco. O peso dos papéis de gênero se reflete na escolha da profissão - ou na falta de escolha.

Aprendendo os papéis de gênero

Mas, de fato, como tudo isso acontece? Por que a sociedade ainda faz uma divisão tão demarcada do que é o papel masculino e o papel feminino?
Serem humanos aprendem sinestesicamente. Ou seja, aprendemos com a mistura de sensações relacionadas aos sentidos: tato, audição, olfato, paladar e visão. Sendo assim, essa relação entre todos os planos sensoriais que podem proporcionar aprendizado é responsável por armazenar informações, de forma consciente e inconsciente, sobre tudo. Inclusive sobre o que significa ser homem e o que significa ser mulher.
Tanto pelo lado consciente quanto pelo lado inconsciente, aprendemos com falas e comportamentos que transmitem a ideia do papel femino ligado ao cuidado e o papel masculino à força e ao poder. A observação que a maioria das crianças podem fazer dentro de casa é de uma mãe mais presente, cuidadosa e afetuosa, responsável pelos detalhes cuidadosos do cotidiano. E, no caso das meninas, elas passam a ser treinadas para reproduzirem esses papéis. E mesmo quando as meninas se enxergam trabalhando fora no futuro, tendem a se ver em espaços como escolas, hospitais, creches, etc. O potencial delas acaba não sendo totalmente estimulado para que ocupem outros espaços.

Na mesma medida, os meninos são socializados para crerem em suas capacidades lógicas, intelectuais, de liderança e afirmação. Além dos ensinos paternos, além do senso comum que coloca o homem como provedor financeiro e das representações midiáticas, os meninos também tendem a acreditar que há uma superioridade masculina. Em uma sociedade capitalista, o valor do dinheiro é inquestionadamente maior do que o valor do trabalho doméstico. Observe também que ambos, meninos e meninas, se deparam com materiais, livros, filmes, atividades que colocam os homens como protagonistas, inventores e detentores de conhecimento. Essas ações enfatizam as diferenças.

Assim, escolher uma profissão para a mulher é uma tarefa duplamente difícil, pois em seu processo de decisão profissional é preciso primeiro diluir os condicionamentos do que uma mulher deve fazer profissionalmente, é preciso avaliar as condições mercadológicas, se há abertura para mulheres, se há disparidade salarial e, fora isso, equilibrar a vida profissional com as demandas endereçadas às mulheres na sociedade.

E o machismo, como fica?

O machismo não se trata somente de ofender mulheres, considerá-las inferiores aos homens ou de uma expressão machista. Na verdade, ele é um mecanismo que estrutura a sociedade. O patriarcado é o responsável principal por criar os papéis de gênero. O machismo não é apenas uma ofensa. É o mecanismo que regula os comportamentos sociais e as demais características. Determina quem trabalha com o que, quanto ganha cada gênero, quem realiza as tarefas domésticas e quem tem responsabilidade de educar os filhos.

Vem saber mais! #DicaExtracurricular
O episódio #21 do Trampapo, PROFISSÃO TEM GÊNERO?, foi uma conversa fundamental sobre como a relação gênero x profissão coloca barreiras no caminho das pessoas, limita capacidades de aprendizado e prejudica sonhos. Qual é o papel das empresas no combate do machismo e da masculinidade tóxica? Como o acesso à informação tem diminuído a desigualdade e valorizado as qualidades humanas? Se liga nas dicas extracurriculares deixadas pela convidada da vez e pelos hosts do Trampapo!

Sheynna Hakim Rossignol

Sheynna Hakim Rossignol tem experiência nacional e internacional como Diretora em empresas do setor financeiro e tecnologia, nas indústrias de pagamentos e seguros, responsável por áreas comerciais, de produtos e desenvolvimento de negócios, marketing, RH e atendimento. É executiva de negócios, conselheira de digital, investidora de Startups Mercado Financeiro e General Manager Brasil no Chama the App.
É formada em Engenharia Civil, mestre em administração, tem MBA e pós-graduação em gestão estratégica e em controle de riscos.
Suas dicas extras no EP#21 foram:

TED Talk - Garra: O Poder do Entusiasmo e da Perseverança, da Angela Duckworth
Livro - Faça Acontecer: Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar, por Nell Scovell e Sheryl Sandberg
“Eu tenho duas recomendações, uma de TED Talk e outra de livro para fazer. Foram mulheres que influenciaram a minha vida, e que inclusive nas empresas, eu coloco o livro, eu faço uma biblioteca coletiva e coloco esses livros à disposição. Então o livro dela é incrível e ela fala sobre essas dificuldades e ela fala como sobressair, como resolver várias delas, então recomendo o livro da Sheryl. E recomendo o TED Talk da Angela Duckworth, Garra: O Poder do Entusiasmo e da Perseverança, da Angela Duckworth. Super vale a pena, me inspirou, eu recomendo.”

Já nossos hosts, indicaram:

Ricardo Morais
Série: Liberdade de Gênero, Globoplay
“Ela conta a história de diversas pessoas ali com o foco mais de recorte transgênero para debater essas questões de gênero aqui no país. É um conteúdo bem importante para a gente falar como essas pessoas procuram mais respeito, e como é que pode ser mais acolhedor a equidade de gênero.”
Filme: Mercado de Capitais, 2016
“Retrata o ambiente de uma executiva em Wall Street, e aí fala todos os desafios que uma mulher passa no mercado financeiro. O que é legal, porque esse filme, ele tem uma história muito grande por trás, primeiro ele foi subsidiado inicialmente por mulheres que trabalham em Wall Street, ele foi dirigido pela primeira vez com uma mulher, é diretora e faz um filme sobre Wall Street. E também por que dentro, por trás das câmeras, é um dos principais filmes onde as mulheres tiveram a maior parte dos papéis da produção. Então assim, é mostrar de ponta a ponta, da produção até uma história, o poder da mulher, é um mercado extremamente competitivo e bastante machista.”

Ana Paula Xongani:
A Menina que brinca de tudo, da Carolina Magalhães
Deixa eu te contar, menina / Deixa eu te contar, menino, por Thaís Vilarinho e Raíssa Bulhões
“Minhas dicas de hoje vão para mães, pais, criadores e educadores, dois livros infantis para apoiar na educação das crianças. O primeiro é: A Menina que brincava de tudo, é da Carolina Magalhães, e o segundo livro, é um livro muito bonitinho, um lado de menina, outro lado de menino, chama Deixa eu te contar menina, e deixa eu te contar menino, que fala sobre a liberdade, fala sobre sentimentos, fala sobre profissões, então deixa esses dois livros nas estantes dos seus filhos.”

Beijos, da equipe Trampapo <3
Até a próxima!

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