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Tem diversidade na sua empresa? Será mesmo?

01/02/2021MERCADO DE TRABALHO
Tem diversidade na sua empresa? Será mesmo?

Pra começar, parodiamos um clássico pagode dos anos 90, pra te deixar no clima da diversidade:

O que é que eu vou fazer
Com essa tal Diversidade?
Se na contratação
Não pensam em você
Eu nunca imaginei
Tanta irresponsabilidade
O patrão não sabe
Como te acolher

Ele aprendeu errado
Ele pisou na bola
Trocou quem mais combinava
Pra essa contratação
Mas a gente aprende
A vida é uma escola
Não é assim que acaba
A luta pela inclusão

Quero te ligar
Quero te contratar
O mercado te deseja noite e dia
Quero reparar começando por você
Diversidade é tudo o que eu queria 🎵 🎶

Essa tal diversidade...

Brincadeiras à parte, queremos que você comece refletindo sobre essa tal diversidade...

Esse conceito vem sendo cada vez mais discutido pelas pessoas, empresas, mídia, publicidade, arte... mas, afinal, o que significa diversidade? Discursos bonitos e ensaiados encontramos aos montes. Mas, e na prática, como ela funciona - ou como deveria funcionar?

Para entender melhor, bora ver um dos conceitos de diversidade. Esse, de Fleury em 2000, define diversidade como o resultado da interação entre indivíduos com diferentes identidades e que convivem no mesmo sistema social:

“O tema diversidade cultural pode ser estudado sob diferentes perspectivas: no nível da sociedade, no nível organizacional e no nível do grupo ou indivíduo”.

Pensando em organizações, já que o lema do Trampapo é falar de mercado de trabalho de uma forma plural, completamos ainda:

“O conceito de diversidade está relacionado ao respeito à individualidade dos empregados e ao reconhecimento desta; gerenciar a diversidade implica o desenvolvimento das competências necessárias ao crescimento e sucesso do negócio.”Fleury (2020, p. 23).

Ou seja, a regra da diversidade é o respeito à pluralidade de pensamento, de vivências, gênero, cultura, crenças e muito mais. E como consequência, que também é uma das grandes motivações para as empresas buscarem a diversidade, estão os resultados positivos que ela pode gerar.

Mas, na prática, apesar do inegável aumento das políticas que visam diversificar os ambientes de trabalho e tornar as oportunidades mais democráticas, ainda não há esforços e conscientização suficientes para preencher as lacunas existentes.

E quais lacunas são essas?

Muitas. Os grupos que são chamados de ‘diversos’ e ‘minorias’ nada mais são do que a maior parte da população brasileira. São pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQIA+, refugiados... São tantos grupos que sofrem com a falta de oportunidades profissionais que fica mais fácil dizer quem não é prejudicado pela forma como o sistema funciona hoje: homens cisgêneros, brancos e heterossexuais das classes média e alta. E só pra comprovar, confira esses dados:

        -    O salário médio dos homens brancos supera em até 159% o das mulheres negras, mesmo quando ambos têm curso superior, de acordo com o Insper.

        -    Uma pesquisa do Instituto Ethos mostrou que os negros ocupam apenas 4,9% das cadeiras nos Conselhos de Administração das 500 empresas de maior faturamento do Brasil. Entre os quadros executivos, eles são 4,7%. Na gerência, apenas 6,3% dos trabalhadores são negros.

        -    Segundo os dados da Catho, os trabalhadores negros em todos os níveis hierárquicos recebem menos que os brancos. Em cargos de diretoria ganham, em média, 30% a menos e a desigualdade segue em todos outros níveis de atuação.

        -    A taxa de desemprego entre os negros, segundo o IBGE, é de 16,1%, acima dos brancos, com taxa de 11,5%.

        -    Segundo estudo feito pelo fórum econômico mundial (WEF, na sigla em inglês) em 2016, seriam necessários 95 anos para que o país alcançasse a igualdade de gênero, pois o Brasil ficou na 79ª posição no ranking global de 2016 da igualdade de gêneros.

        -    O projeto ‘Demitindo Preconceitos’ indicou que 38% das indústrias e empresas têm restrições para contratar membros da comunidade LGBTQIA+. Além disso, 53% dessas pessoas não se sentem à vontade para relatar a própria orientação sexual no ambiente de trabalho - o que pode limitar o desenvolvimento e expressão destes profissionais.

        -    Segundo a OAB, 82% das pessoas transexuais ou travestis não concluem os estudos, o que gera muita dificuldade em entrar no mercado de trabalho. Segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) 99% dos trans estão fora do mercado de trabalho e 90% precisam recorrer à prostituição.

        -    A pesquisa da Santo Caos em parceria com a Catho, apresenta que menos de 10% dos postos de liderança são ocupados por profissionais com deficiência. Atualmente, cerca de 25% da população brasileira tem algum tipo de deficiência.

E por que tudo isso?

Não há uma resposta simples. Historiadores, intelectuais, ativistas e tantas outras pessoas trabalham fortemente há anos para explicar à sociedade os conceitos que formam a desigualdade. Inclusive, recomendamos ao fim deste texto dicas de conteúdos para você contextualizar melhor esse tema. Mas para sintetizar, podemos citar a mentalidade de superioridade que moldou as relações da humanidade.

Durante o período de escravidão, durante a indrustrialização e também nos tempos modernos atuais, há o contexto onde X domina Y em busca de enriquecimento. Mas não coincidentemente esse X da questão é composto por homens da elite - e essa hegemonia foi estruturada na ideia de supremacia, culturalmente. De acordo com a classe, gênero e raça, define-se o local social que cada pessoa ocupa geralmente.

No caso dos homens da elite, eles ocupam governos, poderes públicos e os maiores cargos empresariais. No caso do “resto”, ocupa-se o que “sobra”: os cargos e posições que produzem a riqueza de quem está acima.

Por isso, pensar como o sistema vem beneficiando economicamente, por toda a história, certa população, ao passo que outras são tratadas como ferramentas que não têm acesso a direitos básicos e à distribuição de riquezas.

Tá, mas e a diversidade?

A diversidade é um imaginário em construção. Até há protótipos em andamento, projetos prontos e funcionando a todo vapor... Mas ‘diversidade’ é holística e não parcial. E só quando ela for uma realidade em toda esquina - em empresas grandes e pequenas, nas salas de aula, na televisão e em todos os lugares - poderemos parar de debatê-la.

Se ainda falamos em incluir e diversificar, é porque a missão ainda não foi concluída. Quer tirar suas próprias conclusões? Questione-se:

Como a empresa em que você trabalha, ou qualquer uma das quais você já trabalhou, trata as necessidades das pessoas negras, com deficiência, transgêneras e mães? Essas pessoas estão presentes no escritório? E como fica a proporção no caso dos cargos mais altos? Como esses assuntos são tratados na contratação? Há algum comitê de diversidade ou projeto para melhorar esses números? Há margem para a discriminação e hostilidade para com os grupos vulneráveis? Essas reflexões podem ajudar a avaliar o racismo, o machismo, o capacitismo, a homofobia e a transfobia nos ambientes de trabalho. E, infelizmente, acreditamos que suas respostas para essas perguntas não são animadoras.

Então, não há esperança? A diversidade será sempre um sonho não realizado?

Espero que não. A equipe do Trampapo vos escreve com muita esperança no coração. Esperamos que ‘poucas andorinhas façam verão’ e, com a junção de forças, possamos construir um mercado de trabalho mais diverso.

Existem incontáveis iniciativas e medidas possíveis para trilharmos um caminho mais humano. Muitas dessas medidas já estão em curso, inclusive. Vamos ver algumas que foram idealizadas e outras que já foram colocadas em práticas por empresas:

O MOVIMENTO AR criou o Manifesto “Vidas Negras Importam – Nós Queremos Respirar” que propõe 10 metas para reduzir o impacto do racismo. Várias dessas metas estão diretamente ligadas ao lugar de homens pretos e mulheres pretas no mercado de trabalho.

- Essas medidas são: Criação de 500 mil bolsas de estudos para qualificação de jovens negros em graduação, pós-graduação, pesquisa, formação tecnológica, economia criativa, negócios e empreendedorismo.
- Criação de 300 mil vagas de estágios, trainees e profissionais negros nas empresas públicas e privadas.
- Formação e qualificação de um milhão de quadros corporativos em discriminação e racismo e gestão da diversidade racial.
- 300 milhões em compras corporativas do ambiente público e privado, de serviços e produtos de empresas e empresários e profissionais negros.
- Fundo Vidas Negras Importam de R$ 200 milhões para o fomento, apoio e financiamento educacional, empreendedor, tecnológico e de economia cultural criativa para jovens negros.
- E Implementação integral da Lei da História do Negro e História da África e da disciplina de Relações Étnico Racial em todo ambiente escolar e universitário público e privado do país.

A empresa Boston Consulting Group tem processos de seleção específicos para grupos sub-representados - pessoas com deficiência, mulheres, LGBTQIA+, negros e asiáticos. São fornecidos a esses grupos também cursos intensivos, com o objetivo de prepará-los para o mercado de trabalho. As vagas oferecidas nesses diferentes processos em sua grande maioria são para Estagiários, Trainees e vagas Junior. O objetivo é fazer com que estes colaboradores cresçam junto com a empresa.

O Magazine Luiza começou em 2013 a criar ações de inclusão das práticas de diversidade. Primeiro, começou com a da inclusão de pessoas com deficiência, oferecendo também uma série de cursos internos para a conscientização de seus funcionários. Entre outras ações, em 2020 a empresa abriu um processo seletivo para trainees direcionado a pessoas negras. O objetivo desse programa era trazer ainda mais diversidade para os cargos de liderança da organização.

Vem saber mais!

O episódio #14 Tudo é Feito de Gente, do Trampapo, abordou a temática da diversidade nas empresas e como estamos atualmente frente a esses desafios. Para debater esse tema, trouxemos dois convidados:

Bárbara Lima

Bárbara Lima fez relações-públicas pela FECAP, trabalhou com comunicação para o terceiro setor,
com experiência em causas relacionadas à desigualdades sociais e pessoas com deficiência, além
de assessoria de imprensa para diversos setores. Hoje coordena a área de Comunicação e Diversidade
da Mutato e está se especializando em Gestão da Comunicação Empresarial pelo MBA da Aberje.

Durante dois anos, coordenou voluntariamente junto ao Atados o projeto Feminicidade, uma iniciativa para
fomentar a discussão sobre o debate de gênero e ocupação do espaço público que foi listada entre as
Mulheres Inspiradoras de 2016, pela Think Olga.

Marco Ornellas

Marco Ornellas é formado em Psicologia, Dinâmica dos Grupos e Design Thinking. Também é coach e
membro do International Coaching Federation (ICF). Pela ORNELLAS CONSULTORIA, desenvolve projetos
de Cultura de Inovação desde o Repensar Estratégico até a sensibilização para o Futuro, formação de
profissionais em metodologias inovadoras e ágeis e preparação de multiplicadores. Pela 157NEXT.ACADEMY, plataforma de conteúdos e cursos, busca colocar as pessoas na frente das tendências em inovação, pessoas e cultura.

É autor dos livros DesigneRHs para um Novo Mundo e Nova desordem organizacional.

#DicaExtracurricular

Os participantes do programa deixaram dicas de conteúdos para você se aprofundar no tema:

Bárbara Lima:
Livro: O ano em que disse sim: Como dançar, ficar ao sol e ser a sua própria pessoa - por Shonda Rhimes e Mariana Kohnert.
Segundo ela, ele é importante para sabermos como incluir e acolher pessoas.
Palestra: Veronica Dudiman - Não Contrate Mulheres Negras! - TEDxBlumenal https://www.youtube.com/watch?v=bUHFFJKhM8I
Para refletir sobre como incluir as mulheres no mercado de trabalho e o que acontece depois da contratação.

Marco Ornellas:
Série: Inclusão da Diversidade - disponível na Plataforma 157next.academy.
A produção aborda a vivência de refugiados, pessoas com espectro autista e etc.

Ricardo Morais:
Séries Netflix: Atypical e Amor no Espectro. Ambas abordam a vivência de pessoas autistas na sociedade, amor e estudos.

Ana Paula Xongani:
Livro: 71 leões: Uma história sobre maternidade, dor e renascimento - por Lau Patrón. Ele aborda a perspectiva de uma mãe de uma pessoa atípica.

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