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Você sabe o que é capacitismo?

23/04/2021DIVERSIDADE
Você sabe o que é capacitismo?

Você sabe o que é o capacitismo? Quer saber como lutar junto na causa pelos direitos das pessoas com deficiência? Quer conhecer 10 situações em que você provavelmente já reproduziu o capacitismo?
Vamos lá!

O mercado de trabalho é cheio de exemplos de como a capacidade de alguém é avaliada. Para ser contratado, para ganhar a confiança dos líderes, para conseguir um aumento, uma promoção… Para todas essas situações, o profissional tem suas capacidades julgadas. O que parece ser bem justo, afinal, quem tem as melhores entregas e melhor desempenho, merece ter reconhecimento.

Mas o capacitismo não se trata disso. Não é dar a oportunidade de alguém ir lá, mostrar do que é capaz e, somente depois disso, avaliar suas capacidades. O problema é outro. O capacitismo é uma pré-concepção sobre as capacidades de alguém a julgar apenas o seu corpo, sua aparência ou sua deficiência. Mesmo antes de buscar entender a complexidade da deficiência, das limitações da pessoa com deficiência e sua realidade, o preconceito se apresenta e cria uma falsa visão sobre o que a PcD pode ou não pode e consegue ou não consegue fazer.

Para facilitar o entendimento, podemos dizer que o capacitismo está para as pessoas com deficiência assim como o machismo está para as mulheres, o racismo para os negros, a LBGTfobia para as pessoas da comunidade. O capacitismo é o conjunto de ações que discriminam as pessoas com deficiência, seja em termos de falta de acessibilidade ou em exclusão social. O termo sugere que há uma construção social de um corpo considerado “padrão”, “perfeito”, denominado como “normal”; e que pautado nisso, há uma subestimação da capacidade e valor das pessoas que carregam alguma atipicidade ou deficiências. Em resumo, esse é o conceito para o preconceito sofrido por esse grupo, que inclui inúmeros estereótipos negativos, estigmas, exclusões, negações de direitos, invisibilização e outras situações que muitas vezes são veladas ou naturalizadas na sociedade. O pensamento capacitista está tão enraizado e é tão estrutural que se torna inconsciente, sendo reproduzido por grande parte das pessoas que não têm deficiência e refletindo em negativas consequências para as PcD em termos de empregabilidade, educação e afetividade, por exemplo.

Pensando nisso, considerando que mesmo sem intenção todos podemos acabar sendo responsáveis por discriminar pessoas com deficiência, listamos dez situações em que você exerce o capacitismo. Vá de peito e mente abertos para aprender e se atentar aos seus comportamentos.

É CAPACITISMO QUANDO...

1- Você é invasivo com a pessoa com deficiência
Ter curiosidade não é ter passe livre para ser invasivo. Os questionamentos feitos para e sobre as pessoas com deficiência muitas vezes extrapolam aquilo que seria considerado permitido para pessoas sem deficiência. Independente de quem seja a pessoa, as perguntas que possam ser constrangedoras devem ser evitadas, certo? Não conhece? Tem curiosidade? Pesquise! Não saia por aí perguntando como a pessoa vai ao banheiro, como é isso ou aquilo, a menos que você tenha certeza que pode fazer esses questionamentos e tocar em assuntos que podem ser delicados.

2- Você minimiza ou invalida a deficiência de alguém
Você não está sendo legal quando você diz “que bom que nem parece que você tem deficiência”, “seu problema nem é tão ruim assim”, ou coisas do tipo. Por mais que a intenção por trás da fala possa ser boa, você pode estar invalidando uma questão da qual não tem conhecimento e/ou colocando a pessoa em posição de vulnerabilidade. Afinal, não é porque você enxerga aquela deficiência como um defeito “tão ruim” que a pessoa que tem aquela deficiência vai achar o mesmo. Possivelmente, ela apenas considera a deficiência uma de suas características mesmo, não um defeito.

3- Você toca a pessoa sem permissão, achando que está “ajudando”
“Meu corpo, minhas regras”. A regra vale para todos. Segurar a pessoa que tem deficiência sem permissão é exercer um controle sobre ela. O seu corpo, sendo dependente ou não de terceiros, não anula a necessidade de pedir consentimento para tocar. O corpo da pessoa com deficiência não é de domínio público.

4- Você julga que a pessoa com deficiência não consegue fazer X coisa
Como vimos mais acima, o capacitismo parte principalmente desse julgamento que une a ideia de capacidade ao “corpo capaz”. Logo, se você olha para alguém que tem deficiência e instantaneamente cria um julgamento sobre o que ela consegue ou não fazer, sem ao menos perguntar a ela ou conhecer suas dificuldades, você está julgando aquela pessoa como incapaz exclusivamente por causa da deficiência. Antes de tomar a ação de fazer algo por essa pessoa ou “ajudá-la”, pergunte se ela precisa mesmo da sua ajuda.

5- Você infantiliza ou objetifica a pessoa com deficiência
É comum que as pessoas que não têm deficiência infantilizem a pessoa com deficiência, achando que elas não têm a própria autonomia, vontade, personalidade. Ou ainda que são fofinhas, ingênuas, fracas, assexuadas e etc. Tratar a pessoa com deficiência como criança não mostra que você simpatiza com ela, e sim que você não enxerga ela. Enxerga só a deficiência. O mesmo acontece se você reduz a pessoa a essa deficiência. Se você se refere a ela como “o cadeirante”, “o autista”, “o cego”, e assim por diante.

6- Você acredita que as pessoas com deficiência “tiram vantagens”
Quem nunca ouviu alguém falando que as cotas e os benefícios sociais são formas de favorecimento de alguns grupos? E que essas ajudas são custos para o governo e tiram oportunidades dos demais? Mas se você ainda acredita nisso, te convidamos a revisitar esse pensamento. No caso das pessoas com deficiência, há uma necessidade essencial de oferecer suporte em diferentes âmbitos, incluindo cuidados de saúde, financeiro e estímulo ao acesso ao mercado de trabalho e à educação. Repare que mesmo com a Lei de Cotas, que nasceu há quase 30 anos atrás para aumentar a entrada de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, segundo os dados Relação Anual de Informações Sociais, apenas cerca de 1% delas têm empregos formais, com carteira assinada. O que seria se não tivesse nem mesmo essa lei? O que seria dos outros que não conseguem um emprego se não tivessem um auxílio financeiro? O que acontece com aqueles profissionais com deficiência que não conseguem nem emprego nem o benefício? Não existem vantagens. Existem medidas para tentar tornar a balança menos injusta. Ainda é preciso ampliar os recursos.

7- Você vê a deficiência ou a pessoa com deficiência como um “fardo”
O olhar de piedade pode ser um dos mais capacitistas que você pode lançar, seja para a pessoa com deficiência, para a mãe, pai, parceiro ou parceira dela. Você não precisa dizer que vai torcer pra que a pessoa melhore, que ela consiga superar, que ela consiga seguir a vida apesar da deficiência. O olhar piedoso só existe porque acredita-se que a posição que a pessoa com deficiência ocupa é inferior, que é uma vida infeliz e que só lhe resta lamentar por essa situação.

8- Você contrata a pessoa com deficiência apenas para cumprir cota
Se você está em posição de contratar alguém para o seu negócio próprio ou para a empresa que você trabalha, mas nunca considerou trazer uma pessoa com deficiência para somar nas entregas, você está sendo excludente. Além da inclusão proporcionar ganhos e riqueza de ideias e produtividade, ela também é o caminho para integrar as PcD à sociedade, oferecer meios para autonomia financeira e maior participação social. Atente-se para incluir de verdade quando receber esses profissionais. Não reserve uma vaga com atividades de baixa complexidade para pessoas com deficiência para apenas cumprir a cota. Encare elas como quaisquer outros profissionais, porque de fato são.

9- Você acha que deficiência ou transtornos são xingamentos razoáveis
Infelizmente ainda é bastante corriqueiro ouvir por aí na boca do povo “xingamentos” com os nomes de algumas deficiências ou doenças. “Nossa, fulano parece até retardado”. “Seu esquisito, parece até autista”. “Você parece louco, esquizo. Coisa de esquizofrênico”. “Não tá vendo não, seu cego?”. “Tá surda? Lave esses ouvidos”. “Fulano deu uma de joão-sem-braço , é preguiçoso”. Todas essas expressões e frases são exemplos de como o capacitismo se dá. Mesmo que não sejam usadas para ofender as pessoas com deficiência, elas reforçam estigmas sobre elas.
Essas condições foram diagnosticadas nas pessoas com deficiência. Sendo assim, atrelar esses diagnósticos a algo negativo para tentar ofender alguém é uma atitude altamente capacitista.

10- Você não se preocupa com acessibilidade
Só o capacitismo explica a falta de investimento e preocupação com acessibilidade. Toda a nossa estrutura é feita para não incluir as pessoas com deficiência. Podemos observar problemas de acessibilidade em serviços essenciais e também de lazer. Faltam rampas, elevadores, carros adaptados, intérpretes de libras, ensino de libras, ensino de braille, sinalizações táteis, visuais e sonoras adequadas, calçadas e vias públicas regulares, recursos de acessibilidade digital… A acessibilidade ainda é vista como um “luxo”, um “plus”. Mas na verdade ela é o básico pra uma grande parte da população. Sem ela, o acesso é negado. O direito de ir, vir e consumir passa a ser um privilégio que não está ao alcance de todos. A liberdade é limitada.

Vem saber mais! PODCAST 🎧
#27 PcD e o Mito da incapacidade
O que define capacidade no mercado de trabalho? Para muitos, a única resposta deveria ser o currículo, mas não podemos deixar de lembrar que o preconceito ainda limita o desenvolvimento da sociedade. É fácil perceber que as pessoas com deficiência estão sendo deixadas de lado quando elas não conseguem acessar fisicamente certos espaços e também quando notamos que não as temos em nosso entorno nas empresas e círculos sociais, mas precisamos também treinar o olhar para perceber que as pessoas com deficiência não são incapazes. A capacidade de um profissional não pode ser atrelada a uma deficiência ou a um corpo que é considerado “normal”. Pessoas são pessoas e cada uma tem alguma dificuldade, mas para que todos tenham o mesmo desempenho, é preciso que as condições e oportunidades sejam as mesmas para todos. Por isso, neste episódio, Ana Paula Xongani convida Tatiana Hennemann, gerente de Supply Chain na Natura, uma empresa exemplar no quesito inclusão, e Beto Maia, que é desenvolvedor, paratleta e criador de conteúdo, que comenta suas experiências e seus empregos sendo uma pessoa com deficiência. Quer fazer parte desta conversa que abre oportunidades de inclusão e respeito? Corra para ouvir o episódio!

Beto Maia

Beto Maia | @betomaiafilho
Beto é influenciador digital e criador de conteúdo. Começou a criar vídeos no Tiktok porque sentia a baixa representatividade nas redes para pessoas com deficiência. Em seus conteúdos, ele fala sobre suas experiências com bom humor, mas também traz reflexões importantes sobre capacitismo. Além disso, Beto é paratleta de vôlei sentado, cantor e desenvolvedor de soluções web focadas em acessibilidade, para tornar a internet um ambiente mais democrático e disponível a todos. Suas dicas de conteúdos foram:

Capacitismo: O mito da capacidade, Livro por Victor Di Marco
O livro de cabeceira do Beto traz um apanhado de palavras e de situações que você tem que saber acerca do tema. Unindo conceitos junto de suas memórias, o autor explora até onde o mito do capacitismo adentra na vida de uma pessoa com deficiência e busca achar em si respostas que por tanto tempo foram apagadas.

Crip Camp: Revolução pela Inclusão | Filme Netflix
É sobre a história de como se iniciou o movimento pela inclusão e direitos das pessoas com deficiência nos Estados Unidos. Um acampamento de verão para adolescentes com deficiência motiva um grupo de jovens a criar um movimento em busca de novos caminhos para um mundo com mais igualdade.

Fuja | Filme Netflix
Contra o “crip fake”, que é a prática de colocar pessoas sem deficiência para interpretar pessoas com deficiência nas produções audiovisuais, o Beto recomendou esse filme que é estrelado por uma atriz que realmente tem deficiência. Como ele citou, dificilmente os atores PcDs são incluídos nesse setor.

Vale PcD | Coletivo
Grupo do qual o Beto faz parte e que traz a interseccionalidade - pessoas com deficiência e também da comunidade LGBTIA+. Entre as missões do grupo, estão:
🏳️‍🌈 Mapear de locais LGBTQI+ amigáveis com foco na acessibilidade;
♿ Protagonizar PcD LGBTIA+;
🌈 Incentivar inclusão e visibilidade para todes.

Tatiana Ribeiro Hennemann é gerente de Supply Chain na Natura, sendo responsável por liderar o maior Centro de Distribuição Logístico da marca, que também é um exemplo de práticas inclusivas, tendo 21% de seus cargos preenchidos por pessoas com deficiência. Suas dicas no episódio #27 foram:

Tatiana Ribeiro Hennemann

Amor no Espectro | Série Netflix
Um reality show que mostra a experiência de pessoas com autismo em busca de parceiros românticos. Para ela, a série é muito importante pra mostrar a singularidade de cada indivíduo, mostrando que as deficiências não são todas iguais nem devem limitar ninguém.
O primeiro da classe | Filme
O filme é voltado aos preconceitos sofridos pelo personagem principal, que tem Síndrome de Tourette, nas suas experiências dentro e fora de casa.
Um Antropólogo em Marte, Livro por Oliver Sacks

Nesse livro, o autor traz 7 estudos sobre condições neurológicas que parecem paradoxais. Para ela, ele é cativante porque derruba mitos sobre a capacidade de algumas pessoas com deficiência.

Ana Paula Xongani:
Beto Maia | Criador de conteúdo
Nossa host destacou o convidado da vez, Beto Maia, como uma das referências de pessoas com deficiência que criam conteúdos sobre acessibilidade e inclusão nas redes.

Inclusão e acessibilidade: Flávio Arruda at TEDxFortaleza
FLÁVIO ARRUDA, Publicitário e especialista em gestão de trânsito e transporte urbano. Caçula de sete irmãos e irmãs, aos 21 anos sofreu um acidente de carro que o deixou tetraplégico. Amante do audiovisual, da literatura, da cultura e das lutas populares, é pesquisador do campo de estudos das deficiências, autor de trabalhos sobre publicidade inclusiva e acessibilidade na política de mobilidade urbana. Técnico com atuação no setor de transporte público, usa a própria experiência de vida no trabalho e busca contribuir para que Fortaleza seja uma cidade cada vez mais acessível, inclusiva e que respeite a diversidade de sua gente.

71 leões: Uma história sobre maternidade, dor e renascimento, Livro por Lau Patrón
Xongani disse que esse livro foi um dos passos iniciais para ela passar a buscar informações acerca das pautas das pessoas com deficiência. Veja o resumo: ‘Este livro é um diário intenso e sincero dos setenta e um dias que Lau morou no hospital, muitos ao lado de seu filho em coma em um box de UTI, esperando a vida ou a morte. Um relato comovente e poderoso onde Lau nos dá uma dimensão real das pessoas, das emoções fluidas, da não existência de heróis. Do amor, como fonte de escolhas. Do olhar para a dor, sem medo, e com alguma ternura. De não matar leões por dia e, sim, recebê-los com reverência. Um por dia, um a mais na matilha. Para avançar. Para ir avante. “Agora sei: ninguém nunca está pronto pra maternidade. Medo é parte da viagem. Ser mãe é construir um foguete em pleno voo. Este é um livro sobre a coragem”.’

Beijos, da equipe Trampapo <3
Até a próxima!

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