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O mercado de trabalho é feito para excluir?

21/05/2021DIVERSIDADE
O mercado de trabalho é feito para excluir?

Com o Trampapo queremos disseminar a ideia de que é IMPOSSÍVEL desvincular o mercado de trabalho das questões sociais que atravessam a nossa população. Acreditamos que ao dar visibilidade aos problemas que existem nele, a gente cria conscientização nas pessoas que formam as empresas e que podem promover a mudança para corrigir esses tais problemas. Nossa função é explicar que é possível diminuir as desigualdades sociais que são alimentadas pela falta de trabalho e, muitas vezes, pelo olhar preconceituoso de quem contrata.

Se você parar pra observar as estatísticas e diversos relatórios de organizações focadas em impacto social, vai perceber que existe um círculo vicioso que condiciona as pessoas que sempre estiveram no topo das hierarquias a continuarem sempre nesse topo, assim como seus descendentes. E esse mesmo círculo condiciona os mais pobres a sempre ocuparem os cargos com piores salários e a não terem condições de oferecer melhores oportunidades aos seus filhos e familiares. A estrutura empresarial que temos hoje e que sempre esteve presente, desde a formação do modelo de trabalho que conhecemos hoje, preza e favorece certos padrões de comportamento e características e esse é um dos principais motivos para essa desigualdade.

E quais características são favoráveis? Quem tá no topo? Quem tá sendo excluído? Quem está na informalidade, nos subempregos, no desemprego?

“Privilégios? Eu mereci!”

Talvez você conheça aquele famoso meme que invadiu as redes sociais, que era um áudio de uma jovem afirmando exaltadamente que mereceu os privilégios para ocupar um cargo na empresa de seu pai. E isso tem muito a ver com essas perguntas feitas acima. Isso tem a ver com a ideia de meritocracia, um mito que alimenta a desigualdade e favorece quem “sai na frente” no mercado de trabalho por, simplesmente, ter nascido em família mais abastada ou que puderam proporcionar bom estudo e trabalho.

No caso do meme, podemos fazer uma relação de como funciona o senso comum sobre o que é merecimento. Ou seja, na opinião pública e naquilo que aprendemos ao longo da vida, com as escolas nos dando notas por mérito e nos reprovando por demérito, com as empresas praticando políticas de bonificação individual, o discurso da meritocracia fica muito forte.

Na meritocracia acredita-se que todos são igualmente capazes e possibilitados a conquistar qualquer coisa, mas anula-se o fato de que as diferentes populações têm pontos de partida diferentes também. Pontos de partida que por vezes trazem no caminho obstáculos como a falta de acesso a direitos básicos e mínimos para capacitar uma pessoa para o mercado de trabalho.

A jovem do meme, por exemplo, acredita que ela realmente deve ocupar aquele cargo porque, afinal, a empresa é do pai dela. E independente de qual seja a qualificação profissional dessa jovem, essa situação demonstra que quem ocupa os bons cargos nas empresas, normalmente, são as pessoas privilegiadas de alguma maneira: seja ganhando o emprego dos familiares ou seja frequentando as escolas e instituições que pouquíssimas pessoas têm acesso. É o tal do círculo vicioso. Quem já tem uma boa posição social é quem tem a posse da decisão de contratar as pessoas e, normalmente, nessas decisões prevalecem os mesmos padrões: pessoas que frequentaram universidades elitizadas, onde o valor da mensalidade às vezes é 3 vezes maior do que a renda média do brasileiro. E assim, dá nisso: o mercado é feito para excluir pessoas.

E apesar dos pontos de partida serem diferentes, principalmente em um país desigual como o nosso, os custos de vida e a sociedade exigem resultados iguais de todos. Esperam que todos, apesar das dificuldades, tenham forças para ter uma carreira bem sucedida, que vençam a pobreza, que passem em concursos públicos e vestibulares mega concorridos. Tudo igual. Tem meritocracia nisso?

É frágil esse discurso. Muitos de nós possuímos privilégios em comparação a outros indivíduos, sem mesmo nos dar conta que os temos. Por isso é importante questionar os paradigmas de contratação, de inclusão, de como os empregos chegam nas comunidades periféricas, questionar o cumprimento de direitos básicos que serão vitais para um jovem ter uma carreira ou não. Não vale só se apegar a sua realidade e achar que só os currículos semelhantes aos seus devem estar nas empresas famosas e nos cargos de liderança. É preciso democratizar oportunidades!

Como o mercado de trabalho pode ser inclusivo com os grupos minoritários?

Quem são os grupos minoritários no mercado de trabalho?
Quando falamos “minoritário”, quer dizer que são grupos que, independente de serem volumosos em população ou não, são de alguma forma mais vulneráveis, marginalizados ou excluídos do mercado de trabalho. Significa uma situação de desvantagem social.
Esses grupos podem ser discriminados por diversos motivos. Podem ser por motivos étnicos, religiosos, de gênero, de sexualidade, linguísticos, físicos ou culturais. A única razão que sempre está presente é o preconceito. E o preconceito nada mais é do que a falta de conhecimento sobre um assunto para o qual já foi tirada uma conclusão.

Agora vamos pensar o seguinte: se uma pessoa, no alto do seu privilégio vivendo em condomínios de luxo, com estudos de ponta, atividades extracurriculares e totalmente alheia a qualquer cultura periférica, alheia a realidade de pobreza de quem vive com muito pouco dinheiro, e que detém o poder de contratar pessoas, vai ter a consciência da importância de gerar inclusão? Será que ela vai estar disposta a contratar alguém que não estudou inglês, não tem diploma ou fez uma faculdade popular? Pode ser que sim e esperamos que sim! Mas nem sempre é que ocorre, pois a discriminação é o solo onde a desigualdade e o desemprego nascem. Além disso, é essencial refletir que não é possível ter empatia com aquilo que não se conhece. Se as pessoas que nos governam e que dirigem as empresas não estiverem verdadeiramente em contato com as causas sociais e preocupadas em promover inclusão, o mercado de trabalho permanecerá dispensando os mais pobres, as pessoas LGBTI+, os negros, as pessoas com deficiência, os idosos e assim por diante. São necessárias medidas intencionais para dar equidade aos grupos minoritários.

Entre brancos e negros, por exemplo, é inquestionável que existem muitas desconformidades. Todo o contexto histórico que negou aos negros, aqui no Brasil, direitos tão simples como própria dignidade gerou influencias na forma como as pessoas pretas são interpretadas e credibilizadas até hoje, o que reflete na exclusão e desfavorecimento no mercado de trabalho. O estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que os trabalhadores brancos possuem, em média, renda 74% superior em relação a pretos e pardos - maior parcela da população brasileira (56%). A renda média mensal do brasileiro branco é de R$ 2.796. Enquanto entre pretos e pardos é R$ 1.608. Para cada R$ 1.000 que é destinado a um trabalhador branco, paga-se R$ 575 para um trabalhador preto ou pardo. E as diferenças só aumentam de acordo com o grau de hierarquia dentro das empresas. Quase 70% das vagas para cargos gerenciais no país são preenchidas por brancos. Além disso, 66% dos desocupados e dos subutilizados são pretos e pardos.

Pensando nesses números, o incômodo que devemos ter é notar que os negros estão em desvantagem no mercado de trabalho, apresentam os piores indicadores de renda. E a consequência disso também é a sua causa: piores condições de moradia, escolaridade, acesso a bens e serviços, além de estarem mais sujeitos à violência. Como que muda esse círculo?

Mas não apenas os negros estão mais propensos a terem desvantagens no mercado profissional. A Comunidade Trans possivelmente seja o grupo mais vulnerável nessa estrutura. Um levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com base em dados colhidos nas diversas regionais da entidade, informa que 90% das pessoas trans recorrem a essa profissão ao menos em algum momento da vida e que somente 4% desse grupo tem acesso ao mercado de trabalho formal. Essa exclusão é motivada principalmente pelo preconceito e, em muitos casos, a baixa escolaridade. Como se fosse uma culpabilização que as pessoas trans sofrem por serem quem são. Enquanto o mercado de trabalho não se abre para essa comunidade, a consequência é a exposição a riscos e más condições de vida e trabalho. Enquanto os contratantes, empresários, governantes e sociedade não se voltarem para promover a inclusão profissional e social de pessoas trans, esse grupo vai ser minoritário em direitos.

E enfim, com relação às populações de baixa renda e às comunidades periféricas, não pode ser diferente. A empregabilidade no Brasil é um privilégio elitizado, com acesso à formação e não apenas a treinamento. Ou seja, quem recebe oportunidades são os profissionais de alta qualificação, que representam menos de 1% da população brasileira. Com a precariedade do ensino fundamental, perpetuada na baixa qualidade da maioria dos cursos superiores, é uma barreira à formação de profissionais adequados ao mercado de trabalho do século XXI.

Portanto, até que as estatísticas mudem, após muita medida intencional por parte da iniciativa pública, privada, coletiva e individual, o mercado de trabalho vai continuar excluindo pessoas. Até que haja a promoção de ações efetivas e coordenadas em larga escala, de formar ecossistemas com o setor público, as universidades/centros de pesquisa, e os investidores, a desigualdade e o mercado vão se retroalimentar.

Quais ações promovem a inclusão?

     -    Ações afirmativas para o acesso ao ensino superior, que possibilitam uma menor desigualdade de oportunidades a negros, grupos étnicos e sociais minoritários, como as cotas, o ProUni, SISU, etc;

     -     Ações afirmativas para maior participação feminina na política, estabelecendo, por exemplo, a porcentagem mínima de 30% para candidaturas femininas em cada partido;

     -     Ações afirmativas que asseguram um percentual mínimo dos cargos públicos e nas empresas de médio e grande porte para as pessoas com deficiência;

     -     Leis que propõem viabilizar o livre acesso de pessoas com deficiência a edificações e vias públicas;

     -     Apoio financeiro, habitacional e educacional para pessoas em condição de vulnerabilidade social;

     -     Oferecimento de apoio à saúde mental e ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais;

     -     etc.

Vem saber mais! PODCAST 🎧

#31 Comunidade: quem poderá nos ajudar?
Sabe o muro da desigualdade? E aí, em qual dos lados desse muro você nasceu? Existe uma separação na nossa sociedade que define quem vai ter acesso à boa educação e ótima estrutura no lar e na saúde. Normalmente, essas pessoas são as mesmas que ocupam as lideranças das empresas e excluem do mercado de trabalho formal aqueles que vivem nas comunidades e não atendem as exigências elitistas dos processos seletivos, que apenas uma pequena parcela privilegiada da população tem acesso. Mas e as comunidades, quem poderá ajudar? Neste Trampapo, Ana Paula Xongani e Ricardo Morais recebem duas instituições que são referência em impacto social e no desenvolvimento de jovens. Lê Maestro, cofundador e diretor de educação da Rede Gerando Falcões, e Fabiana Fragiacomo, gerente de marketing do Instituto Ayrton Senna, falam sobre privilégios, empatia, meritocracia, capitalismo selvagem e muito mais para refletir a favor da criação de oportunidades por meio da responsabilidade social e do investimento na educação. Vem fazer parte desta conversa!

Lê Maestro

Lê Maestro é cofundador da Rede Gerando Falcões, onde atua na direção da área de educação e na coordenação da expansão da ONG. Lê nasceu na zona leste da cidade de SP e durante adolescência sonhava ser skatista profissional, mas aos 16 anos se tornou dependente químico, fato que o levou a uma situação de quase perder a vida. Diante disso, buscou se recuperar da dependência e se dedicar às suas vocações e projetos. Hoje, livre das drogas, acredita que pode mudar o mundo com apoio aos jovens em situação de vulnerabilidade social por meio da educação, empregabilidade, arte, esportes e cultura urbana. Lê é habilitado pela Universidade Federal de Santa Catarina para agir no combate às drogas pela prevenção e aconselhar dependentes químicos. Foi nomeado pelo Fórum Econômico Mundial um 15 jovens brasileiros que podem mudar o mundo.

Em sua participação no Trampapo, Lê deixou dicas extracurriculares:

“A gente tem um blog no nosso site gerandofalcoes.com, e a gente fala sobre todos esses temas que a gente trouxe aqui para a nossa discussão.

E duas dicas que eu queria dar, também fazendo jabá, mas um jabá que não é só pra a gente, mas um artigo que saiu na Folha, “Quando a favela fala, é melhor escutar, é melhor ouvir”. É um artigo que Edu Lyra, Preto Zezé e o Celso Athayde, trazem um diagnóstico sobre periferias e favelas, sobre como ajudar, que é incrível.

E acabou de sair hoje uma matéria no Valor Econômico, falando do ESG que a gente lança aqui na Gerando Falcões. E pra quem quiser saber mais sobre isso, dá uma olhadinha lá no Valor Econômico. Está incrível.”

Fabiana Fragiacomo

Fabiana Fragiacomo é gerente-executiva de Comunicação e Marketing do Instituto Ayrton Senna.
Tem experiência de 25 anos em estratégia de marketing e comunicação em grandes instituições nacionais e internacionais (Unibanco, BankBoston, Itaú), atuando na liderança de equipes, projetos e ações de comunicação, posicionamento e negócios. Há alguns anos, mudou o rumo da carreira a partir de uma imersão no Vale do Silício, mergulhando no universo de inovação, impacto social e futuro. Hoje, lidera a estratégia de branding, produção de conteúdo para educadores e sociedade do Instituto, além do trabalho de advocacy de marketing de causa com forte trabalho interdisciplinar e sistêmico interno e externo. Tem bacharel e pós-graduação em Propaganda e Marketing e cursou Gestão de Políticas Públicas com base em evidências no Insper.

Em sua participação no Trampapo, Fabi deixou dicas extracurriculares:

No site do Instituto Ayrton Senna, a gente tem uma área de conteúdo com uma série inteira, um bloco inteiro, sobre habilidades socioemocionais. Estão ali o que elas são, como são desenvolvidas, e dicas de como desenvolver para pais e para educadores. O instituto é muito baseado em ciências, em evidências científicas, a gente só coloca coisas que a gente conseguiu testar, e com apoio da ciência. Então, eu acho muito legal, porque tudo o que está ali é de ótima qualidade.

Vou fazer também um “jabá” aqui, que a gente tem, 15 de junho vamos ter um evento internacional de motivação, onde a gente vai explicar o que é a motivação pelos olhos da ciência, quais as habilidades que a gente tem aí, alçar, como elas se combinam, a gente vai explicar um pouco. Tirar um pouco do senso comum, só a motivação como a gente compreende. É um evento que vai ter gente grande e a gente vai ter o William Kamkwamba que fez “O menino que descobriu o vento”, na Netflix. Ele mesmo vai estar lá no nosso evento, a gente vai ter Gisele Bündchen, enfim... É um evento bastante bacana, e vai ser bem amplificado. Vai ficar gravado. É um evento o dia inteiro, e ele é online e gratuito para todos os educadores, e gente que se interessa por educação e aprendizagem.

E também a gente tem um livro de criatividade que vocês vão gostar, que também é um estudo profundo da OCDE, e o Instituto Ayrton Senna foi o único que participou desse livro com projetos de criatividade.

Por último, eu vou deixar um livro que se chama “Utopia para realistas”, é de um holandês, acho que algumas pessoas devem conhecer, é um livro pequeno, mas é um livro super interessante para gente repensar o impacto social, formas de repensar na sociedade.”

Nossos hosts, Ana Paula Xongani e Ricardo Morais, também deixaram ótimas recomendações para você continuar essa conversa:

Ana Paula Xongani
“Eu queria indicar o livro do Gênero, Raça e Classe, que fala sobre essas intersecções, de Angela Davis, clássico para ter na sua biblioteca.

Quero indicar para quem gosta de um filminho, dar um pouco de risada, de série clássica também já, Dear White People, Cara Gente Branca, que fala sobre privilégios.

Vou indicar, que Lê me lembrou aqui de uma entrevista que eu fiz. Conversando com Preto Zezé da CUFA | Alô Comunidade com Xongani | Salon Line

E para terminar minha indicação jabá, lá na área de conteúdo do Instituto Ayrton Senna, eu apresentei um podcast chamado “Nada sei”. Um podcast incrível que a gente fala sobre educação, para pais, educadores, professores, pra todo mundo que quer pensar em educação. Educação é a base das transformações que a gente quer.”

Ricardo Morais
“Tem uma trilogia de livros de um professor de Harvard, o nome dele é Michael J. Sandel. São três livros, o primeiro é: Justiça, o que é fazer a coisa certa? Então, ele explica o que a gente hoje fala de justiça, como entender e como a justiça muda ao longo do tempo. O outro é: A Tirania do Mérito: o que aconteceu com o bem comum, onde ele quebra essa história do mérito em todas as possibilidades, tanto no trabalho, e dia a dia, e de como isso é um erro e vai destruindo a sociedade. Grande desigualdade. E por último: O que o dinheiro não compra? Os limites morais do mercado. Que vem de base, é o que a gente está falando da busca do capitalismo selvagem. Essa trilogia dele é muito importante. Hoje, a base e até alguns cursos dele de justiça são até abertos na internet, se procurar, você encontra como fazer e é um professor de Harvard. Então, é alguém que estudou bastante pra falar isso tudo para a gente.”

Beijos, da equipe Trampapo <3

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