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Identidades trans: estigmas e desafios no mercado de trabalho

26/03/2021DIVERSIDADE
Identidades trans: estigmas e desafios no mercado de trabalho

Talvez você já saiba.
O Trampapo se propõe a falar da pluralidade do mercado de trabalho. Buscamos trazer as mais diversas versões de profissionais, profissões, realidades e caminhos em nossos programas de podcast e posts. O objetivo é fazer com que todos se sintam provocados e incentivados a irem mais longe na carreira. Isto é, trabalhar com aquilo que ofereça satisfação e tenha vínculo com os próprios valores pessoais, ter acesso a boa remuneração e bons benefícios, além de ocupar um ambiente de trabalho seguro em todos os níveis.

E até este momento, abordamos diferentes realidades nos conteúdos que puderam, de fato, ajudar profissionais a se posicionarem melhor no mercado de trabalho. Mas com a chegada do tema #23 Pessoas Trans: trampos e vivências, confessamos que o sentimento é que o desafio é grande demais. O mercado está mais receptivo para pessoas trans, mas ainda estamos a uma enorme distância de oferecer a qualidade de vida que merecem e precisam.

No Brasil a população trans tem sua existência envolvida por dificuldades e barreiras, a começar pela preservação da própria vida. Dados da União Nacional LGBT mostraram que o tempo médio de vida de uma pessoa trans no país é de apenas 35 anos, enquanto a expectativa da população em geral é de 75 anos, de acordo com o IBGE. Esse fato é o sintoma de muitas violências para com essas pessoas. Afinal, somos o país que mais mata trans no mundo e essa mesma transfobia que mata também exclui.

Após identificarem que são de um gênero diferente do que lhes foi atribuído no nascimento, elas têm que lidar com inúmeros obstáculos para viverem sua identidade, como, por exemplo, o risco iminente de ser vítima de agressões físicas, verbais e emocionais, o abandono e exclusão familiar e das comunidades como escolas, igrejas e grupos de convívio, a falta de legislação que as protejam, a ausência de oportunidades no mercado de trabalho formal, dificuldade para acessar serviços de saúde e múltiplas rejeições.

Para quem se enquadra nas definições de identidades trans, se depara com limitações extras na entrada do mercado de trabalho. Essas limitações não são as mesmas apresentadas para pessoas cisgêneras, afinal, uma série de julgamentos e estigmas acompanham a figura de cada pessoa trans, o que acaba por contribuir ainda mais para a marginalização desses grupos, retroalimentando a exclusão social e profissional que elas sofrem.

Mercado de trabalho e pessoas trans

A transfobia, que é a discriminação contra as identidades transgêneras, e a ausência de legislação específica que garanta espaço no mercado de trabalho faz com que as peessoas desses grupos tenham que ter como opção de sobrevivência a prostituição nas ruas. Um levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com base em dados colhidos nas diversas regionais da entidade, informa que 90% das pessoas trans recorrem a essa profissão ao menos em algum momento da vida e que somente 4% desse grupo tem acesso ao mercado de trabalho formal.

As discussões acerca das questões de gênero têm tido cada vez mais espaço nos ambientes empregatícios, o que é positivo e importante para evidenciar uma nova prática realizada pelas organizações que não esperam apenas promover apenas a diversidade, mas também exercer o papel social de contribuir com a equidade e a inclusão de transgêneros no mercado. Aos poucos, nós como sociedade e as organizações passamos por mudança de valores, crenças e comportamentos, mas dentro do mercado e no meio corporativo essas mudanças ainda dão margem para a segregação, a exclusão e a desumanização, sem de fato incluir a todos e todas.

Quais os estigmas que acompanham as pessoas trans?

Uma série de estigmas são as razões para que o cenário de exclusão e violência esteja tão presente na nossa nação. Nossa cultura é extremamente sexista, LGBTfóbica e transfóbica. De um modo geral, há a supervalorização de um único padrão tido como normal, belo, respeitoso, ético e capaz, padrão esse que norteia todos os aspectos sociais, desde o planejamento de produtos, criação e aplicação de leis, até conveniências arquitetônicas e comunicações gerais, por exemplo. No entanto, em diversos lugares do mundo e muito aqui no Brasil, esse padrão imposto e favorecido é representado por homens, brancos, heterossexuais, sem deficiência, magro e que tenham até certa idade. Logo, as extremidades mais distantes destas especificações são as mais desvalorizadas, desprezadas e subjugadas, tendo a elas a atribuição de valores depreciativos, imorais e que associam a vivência dessas pessoas à incapacidade, à insanidade, ao crime, à promiscuidade e a tantas outras crenças negativas e estereótipos que formam o senso comum a respeito da comunidade. Travestis e transexuais são tão capazes e competentes quanto as outras pessoas, mas esses estigmas em torno de suas identidades de gênero promove a intolerância.

Barreiras educacionais para pessoas trans

O preconceito é também o que alimenta as barreiras educacionais para a população trans. Além da baixa escolaridade e falta de capacitação ser um problema geral no Brasil, considerando que a educação é pouco priorizada, a dificuldade específica da população trans em se qualificar é o preconceito.

A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania mapeou em uma pesquisa que mais da metade dos entrevistados (57%) não está preparada para o ingresso no mercado, pois para ter acesso a cursos profissionalizantes é preciso concluir o Ensino Médio, o que não inclui boa parte dessa parcela. Analisando a história pessoal de tantas pessoas trans, fica claro que assumir a transgeneridade nos ambientes de estudo durante a adolescência interfere diretamente no sofrimento do bullying transfóbico que também leva à desistência dos estudos.

Vem saber mais! #DicaExtracurricular
No EP #23 do Trampapo, PESSOAS TRANS: TRAMPOS E VIVÊNCIAS, nossa host Ana Paula Xongani recebeu duas mulheres trans do mundo corporativo, Danielle Torres, da KPMG, e Yasmin Vitória, da Salesforce Brasil, que contaram suas vivências, jornadas e lutas neste mercado de trabalho que ainda é tão fechado para a transgeneridade. Para elas, o certo é inegociável. Precisamos de medidas para alcançar o respeito e uma transformação social definitiva, afinal, ainda faltam oportunidades nas empresas, falta conhecimento e empatia por parte dos líderes e colegas de trabalho. Quer entender alguns dos motivos que fazem essa desigualdade existir e por que essa conversa é mais que importante para todas as pessoas? Corre na home do site e dê o play!

Se liga nas dicas extracurriculares deixadas pelas participantes do podcast!

Danielle Torres

Danielle Torres | @d.danielletorres | trabalha no Departamento de Prática Profissional da KPMG. É uma profissional experiente com habilidades em contabilidade, auditoria e ciência de dados.
Ela busca sempre se envolver com sua comunidade. Em várias ocasiões, palestrou sobre diversidade no local de trabalho - especialmente inclusão feminina e transgênero - já tendo falado para milhares de profissionais em todas as Américas.
Do ponto de vista acadêmico, ela tem Bacharel em Ciências Contábeis e Administração, Pós em Filosofia e Direitos Humanos, MBA em Gestão de Negócios, MBA em Tecnologia pra Negócios e está buscando um mestrado em Analytics.
Além disso, ela é escritora, maquiadora e colunista Marie Claire BR.

Suas dicas extras no EP#23 foram:

Mulheres que Correm com os Lobos, livro por Clarissa Pinkola Estés
Dani sobre o livro: “ Eu não sei quanto a vocês, mas às vezes, muitas vezes eu lia aquele livro, eu ficava meio sem ar, que ela trata com uma profundidade sobre os arquétipos femininos assim que realmente mexe muito com a minha estrutura”.

E sou Jazz, livro por Jessica Herthel e Jazz Jennings
“A vida de Jazz Jennings também eu acho fantástica. A história de uma garota trans americana, que hoje em dia já é mulher. Ela conta e traz de uma maneira muito sensível como é crescer sendo transgênero, o que é aquela exclusão, algumas crueldades que a pessoa passa, que você fala gente, toca muito, toca muito, a gente se enxerga muito lá, é muito complicado. Mas ao mesmo tempo, foi uma leitura que me ajudou muito também.” Emendou a segunda indicação de livro.

O Conde de Monte Cristo, livro por Alexandre Dumas
Dani finalizou suas dicas: “Por que eu acho lindo O Conde de Monte Cristo? O Edmond Dantes é preso. E ele encontra uma libertação, digamos, espiritual por uma pessoa que é guia. Ele encontra uma libertação espiritual em primeiro lugar numa pessoa que é guia. E aí, por muitos anos da minha vida, eu sempre me enxerguei nessa prisão e eu sempre me questionava muito, ‘o que é que eu faço depois dessa prisão?’, porque o Edmond Dantes, como a gente bem conhece, ele desenvolve uma história de vingança. Mas eu acho que ali é um aprendizado maravilhoso, porque o que eu guiei a minha vida, eu falo bom, depois que eu sair dessa minha própria prisão pessoal de estar presa em mim mesma, o que eu quero é ter uma visão de empatia, né. Então para mim é um livro que ele me mostra muito do que é uma vida que a gente constrói com base num sentimento de ‘agora é a minha vez’, e uma vida que a gente pode construir com base num sentimento de agregar, é uma obra maravilhosa, não dá para eu esgotar ela falando em um, dois minutos, é uma obra que dá, deve ter teses e teses a esse respeito, mas eu estou falando só da parte que me tocou”.

Yasmin Vitória

Yasmin Vitória | @yasmin.vitoriaoficial | é associada de sucesso do cliente LATAM na Salesforce Brasil. Tem mais de 5 anos na área de atendimento em empresa multinacional e nacional, sendo responsável pela trajetória do cliente doméstico e crossborder desde a compra contratação até a experiência pós venda. Tem perfil analítico, multitarefa e visão holística para traduzir ações em resultados efetivos nas áreas de Customer Service e Care, à nível de planejamento estratégico, contingencial e de sucesso para o usuário.
Nos últimos 2 anos, tem levando autenticidade, coragem, posicionamento e representatividade da comunidade LGBTQI+, com recorte à população de TRANS e TRAVESTI, para os espaços privilegiados e de poder que a foram renegados um dia.

Sua dica foi:

Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, livro por Djamila Ribeiro
Yas argumentou sua indicação: “A gente sabe que tem algumas pautas de alguns recortes que precisam ser faladas, né? E esses recortes são de pessoas trans, o feminismo trans, o feminismo travestigênero, o feminismo negro... que estão reivindicando, que estão pleiteando, que estão lutando, que está pedindo muitas outras coisas, além daquele do que o feminismo, que infelizmente algumas pessoas acham que acaba sendo homogêneo, mas que não é. A gente tem diversas outras pessoas que enquanto você está pedindo por um direito x, a pessoa está buscando pelo direito -A. Então, ela está lá no outro lado da ponta desse ecossistema todo de desigualdade social que a gente vive. É importante a gente falar assim desses recortes. Acho que esse livro traz bastante essa perspectiva de uma narrativa contada por nós, para nós, e como a gente pode a partir desses conhecimentos múltiplos, trazer isso um pouco mais para a nossa realidade”.

Ana Paula Xongani:

Nossa host indicou alguns perfis do Instagram para seguir e se informar sobre o assunto:
- Rosa Luz, “uma artista completa, maravilhosa e que tem muito dizer, acho que as influencers têm um papel muito bacana de divulgar, facilitar, termos conceitos, ideias e vivências, então, Rosa Luz é uma das minhas grandes referências”
- Bixarte ”que é uma Poeta, uma das minhas poetas preferidas”
- Transpreta, “sempre traz suas vivências, traz também suas teorias sobre a vivência trans, eu gosto muito”
- Aretha Sadick, “eu adoro as contações de história, ela conta as histórias de religiões de matriz africana, sempre trazendo a intersecção da sua vivência enquanto uma mulher preta e trans.”

Beijos, da equipe Trampapo <3
Até a próxima!

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