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Home office: tabu quebrado

04/01/2021MERCADO DE TRABALHO
Home office: tabu quebrado

Bom, você sabe, 2020 foi um ano intenso...

E se você já ouviu o episódio #13 Efeitos da pandemia: o novo normal do mercado de trabalho, você sabe que toda essa intensidade de 2020 foi refletida no modo como nós trabalhamos.

Ou seja, além dos perrengues, perdas, tristezas e sentimentos angustiantes que a pandemia nos trouxe, tivemos que reaprender a nos comportar na rotina profissional, seja para nos adaptar ao home office, ao medo de nos expor ao vírus durante o percurso e durante as atividades de trabalho ou, até mesmo e infelizmente, para buscar um novo emprego após perder o serviço anterior em meio à quarentena.

Mas a verdade é que...

A verdade é que, apesar dos imensuráveis ônus da pandemia, ela também nos permitiu ter uma baita oportunidade de rever o jeitinho brasileiro de trabalhar.

Não é a nossa intenção romantizar a pandemia, dizer que é preciso olhar para o copo meio cheio e agradecer por uma doença que tirou e continua tirando milhões de vidas pelo mundo, devastou a renda de incontáveis famílias e aumentou os abismos de desigualdade social.

A ideia aqui é falar do que mudou com relação ao antes, durante e pós-pandemia. As cicatrizes que o mercado de trabalho sofreu serão permanentes ou, no mínimo, vão arder por um tempo. Vamos aos fatos?

Home office: tabu quebrado

Quem é que não sonhava, naqueles tempos tão distantes que foram os que antecederam a chegada da Covid-19, com um emprego que permitisse trabalhar no conforto do próprio lar, com roupas confortáveis, sem necessidade de enfrentar horas no trânsito e no transporte público apertado, com a família no cômodo ao lado e a estrutura ideal para fazer tudo com qualidade e produtividade? Quase todo mundo.

Mas aí, isso aconteceu. Aconteceu?
É?!... vamos ver!

Aconteceu. Mas não.
Essa virada de chave do escritório para casa foi repentina e a goela a baixo. Ninguém tava 100% preparado. Nem quem já gostava e fazia um pouquinho de home office e muito menos as empresas que não tinham interesse algum em oferecer essa possibilidade aos seus funcionários. A gente sabia que a quarentena poderia vir a acontecer no Brasil. Mas quando ela veio, foi de uma hora pra outra e para ficar. Para alguns, por muito tempo.

De acordo com o Agência Brasil, até o mês de julho de 2020, 46% das empresas havia entrado no esquema de home office. Já no mês de setembro, 300 mil pessoas deixaram o home office, o que reduziu de 12,7% para 11,7% o percentual de brasileiros trabalhando de casa.

E aí está o tabu quebrado.

A grande maioria das empresas nunca se abriram antes ao home office. Esse formato de trabalho estava ainda restrito a algumas profissões e empresas. Normalmente, as empresas que já faziam o home office estavam um passo à frente quando o tema era a qualidade de vida dos seus funcionários e também mais abertas a culturas organizacionais mais livres, inovadoras e com um nível de confiança maior com relação à disciplina de seus colaboradores.

E essa é uma questão. A falta de confiança no funcionário, unida ao comportamento controlador dos chefes e à velha cultura de achar que trabalhador produtivo é aquele que não desgruda a cara do computador faziam - e ainda fazem - com que o home office seja visto como um presente cobiçado por trabalhadores que querem moleza. Mas não é nada disso.

Mesmo que enfiado goela à baixo, o home office teve que acontecer para esses empresários, que tiveram que achar alternativas para manter as atividades comerciais de seus negócios, manter seus times em segurança e também atender às exigências fiscais e sanitárias. E... deu tudo certo!

Deu?!
Deu tudo certo. Mas não do jeito certo.

As empresas sacaram que o home office não é nenhum bicho de sete cabeças. Gerentes, diretores, supervisores e patrões no geral vivenciaram na prática um formato de trabalho que tem tudo pra dar certo, que pode manter ou até aumentar a produtividade, além de também valorizar as prioridades pessoais dos colaboradores.

Uma pesquisa realizada pela empresa de cibersegurança Fortinet mostrou que, após a pandemia do novo coronavírus, 30% das empresas devem seguir com o home office sendo regime de trabalho, mantendo mais da metade de seus funcionários nesse modelo. Essas empresas planejam aumentar em 90% seus investimentos em estrutura para o teletrabalho, o que resulta em cerca de US$ 250 milhões.

Mas, na prática de verdade, isso que aconteceu às pressas não foi um home office bem estruturado. Foi uma gambiarra, assim como a que você precisou fazer para ligar nas poucas tomadas do quarto um notebook, monitor extra e também para dar um jeito num cantinho de trabalho com uma bancada adequada.

Um home office adequado não é assim. Não é esse o trabalho remoto com o que sonhamos em a.C. (antes do covid). O formato esperado não era um formato sem o prévio treinamento dos gestores para saberem como lidar com o gerenciamento à distância; sem treinamento para os trabalhadores saberem a maneira mais efetiva de se comunicar, organizar as demandas e entregas, terem suporte tecnológico e administrativo; o home office não pode ser adequado se nem todos têm um cômodo para isso, cadeira e mesa ergonômica e internet de qualidade à disposição; o home office não é uma tarefa simples quando se há crianças precisando de suporte em casa e familiares pedindo seu apoio; e, principalmente, o trabalho em casa não traz muita qualidade de vida em um momento como o que atravessamos com a pandemia.

De acordo com a Fiocruz, durante o isolamento, tivemos 90% de aumento nos casos de depressão. 64% dos profissionais têm sentido impacto na saúde mental e, desses 64%, 80% alega ter desenvolvido sintomas de ansiedade. 53% dos trabalhadores têm se sentido desmotivados, 50% apresentam estresse, 48% tristeza, 49% perda de sono e 47% cansaço mental. É muito ou quer mais?

Fica claro que as dificuldades enfrentadas na execução do trabalho remoto não foram poucas. Mas uma sementinha foi plantada.

Home office: regando a semente

Considerando tudo isso, conclui-se uma coisa: esse solo é fértil.
Se mesmo com o cenário desfavorável e a mudança abrupta que foi começar a trabalhar de casa, a experiência foi positiva, o futuro do home office é promissor aqui no Brasil:

✓ Aos empreendedores, passa a existir a possibilidade de reduzir custos com prédios, instalações e infraestrutura. Não é que essa despesa deixaria de existir, mas é possível remanejar esses investimentos para outros benefícios aos profissionais e também repensar toda a estrutura de atuação comercial. É uma margem para a inovação nas relações trabalhistas, comerciais e no jeito de pensar.

✓ A confiança se torna obrigatória. Em uma relação à distância, a confiança tem que se fazer presente. E a capacidade de confiar passa a ser uma característica que líderes e colegas de trabalho precisam desenvolver para que tudo flua. Não adianta ficar querendo controlar se fulano está online, na frente do computador trabalhando energicamente ou se ele está fazendo uma pausa pra descansar e tomar um arzinho. Não dá pra ficar olhando se o status de todo mundo está como ‘online’ nem ficar fazendo vídeo-chamada para fiscalizar a cada momento. É preciso se comunicar o quanto for necessário e confiar que o próximo está fazendo o seu melhor e no seu tempo para entregar aquele trabalho. E essa relação de confiança abrirá caminhos para outras vantagens e trocas positivas no relacionamento interpessoal dessas pessoas. Só há o que se ganhar.

✓ As barreiras geográficas ganham menos peso e abrem caminhos para a democratização de oportunidades de emprego. Sabemos hoje que a desigualdade social e de acesso a bons postos de trabalho se retroalimentam. Os empregos com melhores salários, benefícios, chances de crescer e com mais prestígio são destinados às pessoas que socialmente já possuem mais condições. Seja de qualificação como também de estrutura familiar e de habitação. E nessa mesma medida, sabemos que os empregos abusivos, com condições precárias e degradantes são destinados à população mais pobre, marginalizada, vulnerável e periférica. E essa quebra de barreira geográfica pode ajudar a tornar as coisas menos desiguais, visto que em grandes metrópoles, as empresas e empregos mais cobiçados ficam localizados em regiões centrais e nobres, onde apenas aqueles que já possuem boas condições sociais têm fácil acesso. Claro que ainda há a necessidade de educar empresas e recrutadores para não discriminarem candidatos de regiões periféricas, mas se a distância física deixa de ser um problema, teremos um problema a menos a ser resolvido.

Vem saber mais!

Uma pessoa que manja T-U-D-O sobre o home office é o Renato Carvalho. Ele esteve no programa de estréia da 2ª temporada do Trampapo, que foi ao ar no dia 18 de janeiro.

Renato Carvalho

Nesse papo, o Renato falou sobre sua experiência com empresas que estão se abrindo à cultura do trabalho remoto - tanto antes quanto durante a pandemia. Ele é fundador do movimento Officeless, que é uma plataforma digital que ajuda líderes a adotarem o trabalho remoto para criarem equipes com pessoas mais produtivas, engajadas e realizadas — independente de suas localizações.

Se você não ouviu essa conversa gostosinha ainda, não sabe o que está perdendo!
Além de tudo sobre home office, ele, a Xongani e o Ricardo conversaram sobre saúde mental em meio ao isolamento, oportunidades que surgiram, perspectivas para o futuro, desemprego e muito mais. Corre lá!

#DicaExtracurricular

E se quiser uma prévia do que rolou, veja aqui as dicas dos participantes desse episódio. São conteúdos extras relacionados ao tema do episódio para você se aprofundar e expandir a mente:

Renato Carvalho
Documentário: Remote First
Livro: Trabalhe 4h por semana, de Timothy Ferriss
Segundo o Renato, esses conteúdos são inspiradores para conhecer e se engajar com as novas possibilidades de trabalho, mostrando visões de como criar, empreender, inovar e protagonizar a própria carreira.

Ricardo Morais
Leituras: comunicação não violenta
Ele deu essa dica porque acha muuuito importante o cuidado com a comunicação nesse momento de relação à distância. Para que as comunicações sejam mais efetivas e afetivas, a dica é saber se comunicar de forma não violenta. Dá um google sobre esse tema!

Ana Paula Xongani
Série: Distanciamento social
Livro: Mulheres, raça e classe, de Angela Davis
Segundo a Xongani, o documentário que foi produzido em meio ao distanciamento aborda diversas realidades e como a pandemia interferiu na vida das pessoas, ajudando a ampliar olhares e a nos percebemos como diversos.
Já o livro é para fazer refletir sobre sobre diversidade e interseccionalidade, que são fundamentais para uma empregabilidade mais justa.

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