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Empregos e os “filtros à prova de mães”

26/02/2021CAUSAS
Empregos e os filtros à prova de mães

Já ouviu falar de “filtros à prova de mães”?

(no RH de uma empresa não tão distante de você)

        -    “Time, hoje teremos diversas entrevistas para o processo seletivo daquela vaga de Gerente Comercial. Estão todos preparados?”
        -    “Sim, estamos!”
        -    “Legal! Lembrando que queremos alguém com total dedicação, flexibilidade de horário, que possa sempre estar disponível para resolver os problemas lá no ponto de venda, ok?”
        -    “Certo!”
        -    “Então, só pra garantir que vamos encontrar a pessoa certa, vocês devem seguir aquela listinha de perguntas quando for mulher, tá bem? Não podemos correr riscos de novo de encontrar alguém que não dê conta. Não dá mais pra ter desfalques lá no comercial nem podemos ficar trocando de Gerente a cada trimestre. Vamos lá, time!”
        -    “Combinado, chefe.”

Tá vendo esse diálogo? Ele é ficcional, mas não ache que isso retrata uma fantasia. Infelizmente, é muito comum que as empresas, sejam elas as pequenas, as médias ou as grandes, tenham condutas discriminatórias com as mulheres. Em especial com as que são mães.

Não é incomum que muitos empregos tenham “filtros à prova de mães” em seus processos seletivos. Seja pela própria cultura da empresa, que é quando a alta liderança compactua, seja pela conduta individual de líderes e entrevistadores, é certo que as mães são estigmatizadas no mercado de trabalho.

Por um lado, os empresários ficam preocupados com possíveis prejuízos financeiros, afinal, como eles poderiam continuar bancando o salário de uma pessoa por meses, sem que ela vá ao trabalho, sendo que eles não têm culpa alguma da colaboradora ter engravidado? Como eles poderiam lidar com possíveis horas de atraso? Como iriam fazer nas diversas vezes que ela estiver de atestado para poder acompanhar os filhos no médico? Já diz o ditado: tempo é dinheiro.

Mas, do outro lado, estão as mães, profissionais que precisam de trabalho, dinheiro, oportunidades e dignidade. Conciliar maternidade e trabalho é um desafio inalcançável para muitas mulheres aqui no Brasil. Além do fardo de, muitas vezes, a gestação ter sido compulsória - quando não há escolha sobre o fato de engravidar ou não -, a maternidade solo é muito frequente por aqui, ou seja, são milhões de mães lutando diariamente e solitariamente para educar seus filhos com o maior conforto possível. Só pra gente ter uma ideia em números, de acordo com o Censo Escolar, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça em 2013, há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. Isso significa que a sobrecarga dessas mulheres ocorre principalmente pela falta de pessoas que compartilhem os cuidados com as crianças e serviços domésticos, em especial, a falta dos próprios pais.

E pelo problema causado por eles, elas pagam o pato.

(Em uma entrevista não tão longe de você)

“Você tem filhos?”
“Você pretende ter filhos?”
“Quantos anos têm os seus filhos?”
“Com quem eles ficam enquanto você trabalha?”
“Quando eles ficam doentes, quem leva ao médico?”
“Seu esposo não liga de você deixar os filhos de lado para trabalhar fora?”
“Você não acha que ter um filho neste momento pode atrapalhar sua carreira?”

Se você nunca ouviu nenhuma dessas perguntas em uma entrevista de emprego, é quase certo que você é homem. Ou então é uma mulher com um pouco mais de sorte que a maioria.

A entrevista de emprego é um momento de avaliação. O entrevistador ou entrevistadora analisa se a pessoa candidata se encaixa ou não ao perfil da vaga e à equipe da qual fará parte. Logo, qualquer pergunta que for feita tem como objetivo fazer essa verificação. Agora, diga: por qual motivo essas perguntas são feitas para as mães, a não ser para saber se elas ‘dão conta do recado’?

Esses tipos de questionamentos partem do pressuposto que as mães não são capazes de se dedicarem tanto ao emprego em comparação com homens ou mulheres sem filhos, já que, na sociedade brasileira, as atividades domésticas e de cuidado com os filhos são vistas quase como exclusivamente femininas.

Para as mulheres, as entrevistas de emprego são muito mais invasivas por este motivo. As empresas que não têm um olhar humanizado querem saber de quem vai dar lucro, e não quem vai precisar de apoio, acolhimento e oportunidade. E apesar da legislação brasileira proibir perguntas sobre essas questões numa entrevista de emprego, justamente por serem perguntas discriminatórias, a realidade é bem diferente. Não perguntam apenas se elas têm filhos, mas também como elas vão se virar quando tiver uma emergência com as crianças. E o resultado disso é o agravamento da desigualdade de gênero no mercado de trabalho.

Cadê o emprego que tava aqui? A dupla-jornada levou!

Toda essa discriminação é pautada principalmente na dupla jornada das mães. Com a forte cultura patriarcal que temos, os papéis de gênero são quase que inquestionáveis para muitos: “cuidar da casa e cuidar dos filhos é coisa de mulher!”
Se o senso comum, aquilo que quase toda a sociedade acha, é que as mulheres são as exclusivas responsáveis pelos filhos, podemos entender o porque as empresas acham que as mães são piores profissionais do que as outras pessoas. Elas sabem que há uma desproporção entre as atividades domésticas entre os gêneros. Mas mesmo com esse entendimento, culpabilizam as mães por não terem a mesma disponibilidade de tempo livre que os demais. Responsabilizam as mães por serem mães.

Uma pesquisa da Catho revelou que 21% das mulheres levam mais de três anos para retornar ao trabalho após ter filho. Já com os homens, a taxa é de apenas 2% de casos. O desemprego é estruturalmente mais alto entre as mulheres com filhos. Depois da maternidade, muitas tentam voltar, mas o mercado não abre portas, as demitem, não as promovem. Isso tudo são barreiras que dificultam a chegada delas em cargos de liderança.

Pensando nisso, além da resolução da falta crônica de vagas em creches e pré-escolas, fica nítido que um dos caminhos para resolver esse cenário é a reconstrução dos papéis de gênero na sociedade, no exercício da paternidade ativa e da parentalidade. Se tivéssemos pais mais presentes, talvez não fosse tão difícil para elas voltarem ao mercado de trabalho nem galgar outras posições. É imprescindível que exista uma rede apoio às mães para que elas tenham condições de trabalhar fora. Até por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a divisão de tarefas domésticas como meta para alcançar igualdade de gênero.

Filhos: ônus na carreira dela, bônus na carreira dele

Até que ponto o problema são os filhos? O machismo constrói preconceitos em cima das características femininas e os usa para justificar atitudes bastante controversas. Quantas mulheres que não foram contratadas por serem mães ou que foram demitidas após virarem mães você conhece? E quantos homens na mesma situação?

Isso traz um debate de como os homens são vistos em suas vidas profissionais. Essa mesma visão machista e patriarcal é eficaz em reforçar o papel que faz referência ao pai provedor. Diversos estudos mostram que a paternidade geralmente é acompanhada por uma bonificação salarial e por uma consciência que diz que os homens que viram pais se tornam mais responsáveis, enquanto a maternidade prejudica o crescimento e a remuneração das mães, aliado à crença de que elas não dão conta do trabalho.

Reverter esse quadro histórico é um trabalho grandioso. São muitas as facetas que promovem essa desigualdade de oportunidades e julgamentos. Mas há muito a se fazer para amenizar esse problema social. As culturas corporativas, por meio das lideranças, devem se sensibilizar com as demandas das mulheres, precisam se organizar para lidar com licenças, de qualquer um, seja homem, seja mulher, precisam aderir ao conceito de equidade e propiciar condições iguais de crescimento para todos.

Vem saber mais! #DicaExtracurricular
O episódio #19 do Trampapo, TRABALHO DE MÃE, abordou a vivência de mulheres mães no mercado de trabalho. Vem ver quem são as convidadas da vez e conferir as dicas de conteúdos delas!

Vivian Abukater

Vivian Abukater é mãe, graduada em propaganda e marketing, pós-graduada em Administração e em Metodologia Científica da Educação.
Ela se dedica ao estudo do empreendedorismo e seu ecossistema, trabalha como consultora e mentora com foco em famílias empreendedoras em projetos de planejamento e gestão para seus negócios.
Atua como associada da Rede Maternativa, o maior grupo de empreendedorismo materno do Brasil, desenvolvendo uma gestão focada no impacto social. Como executiva e consultora, atuou nas áreas de marketing, comunicação, gestão de negócios e vendas para empresas líderes em seus segmentos como, Bunge, Souza Cruz, VIVO, Absolut, L'Oreal, Hershey′s, Kibon, Lexmark ,Toyota e Trussardi.

Suas dicas para o quadro #DicaExtracurricular foram:
Relatórios sobre parentalidade e primeira infância: PROMUNDO e Accenture, sobre a experiência dos colaboradores nas organizações e os impactos da chegada dos filhos nas carreiras das mulheres e dos homens.

Camila Almeida

Mariana Luz é mãe, profissional experiente em relações institucionais e responsabilidade social. Trabalha com assuntos governamentais, sustentabilidade, comunicação, cooperação internacional, política comercial, inovação e P&D, bem como formulação de políticas públicas e organizações sem fins lucrativos. Jovem Líder Global do Fórum Econômico Mundial, e CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que promove ações que colaboram para o desenvolvimento integral da criança, com foco na primeira infância. É bacharel e MBA em Relações Internacionais, mestre em artes, estudou Liderança Global e Políticas Públicas para o Século 21 na Harvard Kennedy School e Liderança transformacional na Universidade de Oxford.
Suas dicas extracurriculares para o Trampapo foram:

Filmes: O Começo da vida, 1 e 2
O Começo da Vida é um filme-convite. As histórias desses bebês de diferentes continentes, por sua força, nos convocam a ser um agente de mudança na nossa sociedade. Sem querer, pensamos: estamos cuidando bem dos primeiros anos de vida, que definem tanto o presente quanto o futuro da humanidade? Um movimento global a partir de um documentário.

Já as dicas dos nossos queridos e incríveis hosts foram:

Ricardo Morais:
Documentário: The mask you live in, que aborda a crise das crianças americanas e como educar uma geração de homens saudáveis na perspectiva de especialistas e acadêmicos. Fala sobre a masculinidade tóxica, como ela afeta os homens com relação ao cuidado dos filhos, sentimentos, conexão e afeto no geral. Disponível na Netflix.

Ana Paula Xongani:
Livro: O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, por Silvia Federici.
O livro contempla pesquisas e teorizações sobre a natureza do trabalho doméstico, da reprodução social e da luta feminista para construir e reconstruir, nos territórios e coletivamente, alternativas às relações capitalistas e patriarcais que oprimem as mulheres há séculos

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