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Comece por você: ambientes de trabalho antirracistas

09/04/2021DIVERSIDADE
Comece por você: ambientes de trabalho antirracistas

No episódio #25 do Trampapo a gente abordou um tema mais do que necessário. Com uma ótica afrofuturista, discutimos como podemos fazer um mercado de trabalho antirracista. Ou seja, um mercado de trabalho que seja igualmente aberto e propício para a população negra, que ofereça oportunidades de entrada, qualificação, crescimento, boa remuneração e relacionamentos tanto quanto oferece aos grupos que mais acessam e controlam as empresas: homens cis, brancos e heterossexuais.

Aí talvez você se questione se isso citado acima é verdade. Afinal, talvez você seja uma mulher e esteja bem empregada. Talvez você seja uma pessoa não hétero e não cisgênera e esteja em um bom trabalho. Talvez você seja uma pessoa negra que também tem um bom emprego ou, talvez, você apenas não concorda, pois já trabalhou com várias pessoas diferentes ao longo da sua vida.

Mas o assunto aqui é outro. O ponto em discussão é sobre o geral. É olhar para o todo e pensar “por que a população negra, que é maioria em número de pessoas aqui no Brasil, ocupa menos espaço no mercado de trabalho? Por que ganham menos? Por que trabalham mais em posições subalternas? Por que são a maioria dos analfabetos, a maioria morando nas ruas, a maioria na pobreza e no encarceramento?”

Não estamos falando da sua experiência individual nem da experiência do colega ao lado, e sim de milhões de pessoas que sequer vão ter a oportunidade de adentrar uma empresa no mundo corporativo. Que sequer vão frequentar uma faculdade e, mesmo que frequente, vai ter que pagar um dobrado para ter uma posição elevada no mercado de trabalho.

Pensando nisso, é urgente a importância de construirmos um mercado de trabalho antirracista - que é justamente ter atitudes que possam colocar as pessoas negras em pé de igualdade. Logo, se as empresas são feitas por pessoas, são elas que, uma a uma, precisam rever seus conceitos, se aplicar em aprender sobre as lutas etnico raciais e exercer o papel de aliadas na causa antirracismo. É claro também que é papel das empresas se posicionarem contra o racismo e promoverem medidas afirmativas para tornar seus ambientes mais diversos e a sociedade mais democrática, mas hoje o papo é sobre o que está ao alcance de cada indivíduo. Vamos lá?!

Comece por você: ambientes de trabalho antirracistas

Reconheça seus privilégios
Perante à nossa constituição, nós somos todos iguais em direitos e deveres. Mas se pensarmos melhor sobre esse lance dos “direitos”, podemos ver que alguns deles são privilégios. A partir do momento que um direito só está ao alcance de alguns, ele passa a ser um privilégio de quem o detém. O direito à moradia, saúde, alimentação e ao trabalho, todos deveriam ter, mas na prática não é bem assim. Por isso, principalmente se você for branco, é importante que as pessoas façam a reflexão do que elas têm que as outras pessoas não têm. E também sobre o que elas passam/passaram ao longo da vida, e que os outros não tiveram a mesma oportunidade. Ser branco não significa que tudo vai ser fácil pra você, nem que você nunca vai ficar desempregado, nunca vai ser discriminado nem passar por apuros. Mas significa que sua cor de pele e seus traços, que não são negróides, não vão ser a razão dessas dificuldades.

Uma boa forma de fazer essas reflexões é a partir do jogo do privilégio branco. Esse jogo ilustra como funciona a desigualdade racial no país.
“Imagine um jogo onde os próprios participantes são peças que se movem de acordo com suas histórias de vida. Cada passo para frente ou para trás reflete a dinâmica racial da nossa sociedade. Até onde uma pessoa consegue avançar? O Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) criou a dinâmica Jogo do Privilégio Branco para mostrar como a desigualdade racial é uma desvantagem em todos os aspectos da vida de uma pessoa negra. O resultado da dinâmica é a tomada de consciência e o convite para todos dizerem Sim à Igualdade Racial e mudar essa realidade.”. Clique aqui e assista ao jogo do ID_BR.

Se posicione
Você já reparou que as pessoas que menos se posicionam são as mais privilegiadas? Até no convívio com os mais íntimos, quem não sofre opressões costuma dizer que não gosta de entrar em polêmicas e que opinião política “cada um tem a sua”. Talvez seja um pouco de medo de errar. Quando você se posiciona, você dá margem para o erro e isso é ruim, nosso ego não gosta. Mas como você pode ajudar os outros e também ser uma pessoa melhor se você não se permitir errar e ficar sempre em silêncio? Se isentar diante de violências e opressões é compactuar com elas. Quem está sofrendo isso na pele, que talvez sejam pessoas que você ama, precisam da sua ajuda. O seu silêncio, seja por medo de se posicionar ou por desinteresse, consente com a agressão. Mas quando você se posiciona, você gera uma reação em cadeia, você inspira outros a fazerem igual, você influencia outras pessoas e também fortalece quem precisa do seu apoio, além de ensinar aquele que cometeu a opressão. Posicione-se, mesmo que o beneficiado não seja diretamente você.

Consuma e apoie conteúdos e obras de pessoas negras
Pesquise sobre as questões raciais do Brasil e do mundo. Aprenda através do que as pessoas negras dispõem. Há um perigo quando nos informamos apenas a partir da intelectualidade branca e eurocêntrica, que é o perigo da história única. É importante entender sobre o racismo sob a perspectiva de quem o sofre e quem o quer exterminado, e não de quem o criou e que, por algum motivo, possa se beneficiar desse mecanismo. O protagonismo sobre a negritude deve ser dos negros, portanto, consuma livros, filmes, artigos e conteúdos no geral elaborados por vozes negras.

Não acredite em “racismo reverso”
O racismo não se trata exclusivamente da injúria racial. Não é apenas o ato de “ofender” a cor de alguém que define o racismo, porque ele, na verdade, é um mecanismo que faz parte da estrutura da sociedade, e não um ato isolado. O racismo é fruto de um mito criado sobre as pessoas negras que construiu também a atribuição de diversas características negativas para essa população como um todo. Por muito tempo, existiu o racismo científico, que inclusive era uma tentativa de provar a inferioridade biológica dessas pessoas em comparação às brancas, e até hoje há quem acredite que os negros são uma “classe amaldiçoada”, “suja”, “violenta”, “feia”, “incapaz” e etc. E todas essas crenças definiram de fato diferenças entre esses grupos na sociedade. Como citamos no começo do texto, é a população preta a maioria nas cadeiras, nas ruas, nas filas de desemprego, nas favelas, em subempregos, na informalidade e em várias situações degradantes. As estatísticas não mentem. Quando a cor é preta, as chances de estar em uma dessas tristes situações são maiores.

Considerando isso, você deve compreender que apesar de algumas vezes as pessoas brancas receberem ofensas relacionadas ao tom de pele e aos traços físicos, essas ofensas nunca as vão colocar nessas posições. Brancos não deixam de conseguir um emprego por serem brancos. Brancos não vão ser perseguidos por seguranças por serem brancos. Brancos não precisam raspar o cabelo bem curtinho pra serem aceitos em uma vaga. Brancos não são desacreditados como se não soubessem de um assunto só por serem brancos. Entende? Não vai ser uma situação que houve o xingamento “branquelo azedo” que vai fazer da pessoa branca alguém oprimida e marginalizada na sociedade. Pare de comparar o racismo estrutural com uma ofensa isolada. Não são situações iguais.

Aceite que você tem atitudes racistas e mude-as
O racismo encontra-se internalizado e enraizado na sociedade. Entenda que desde a infância todos nós recebemos estímulos racistas e também criamos julgamentos a partir desses estímulos. Portanto, ao longo da vida, você precisa buscar desconstruir esses pensamentos inconscientes. É uma tarefa a ser feita ativamente, e que se não for trabalhada te manterá como alguém que reproduz o racismo. Aceite e mude suas ações. Ouça quando alguém indica racismo em suas atitudes, se desculpe, aprenda e não repita.

Vem saber mais! PODCAST 🎧
#25 Afrofuturismo e antirracismo no mercado de trabalho
Como será o amanhã? Será que depois de tantas desigualdades raciais, a sociedade vai continuar avançando às custas da desvalorização de certas vidas? Será que no futuro a tecnologia vai ser acessível para todos ou as soluções superinteligentes vão continuar sendo um privilégio de poucos grupos? Será que no futuro a população preta vai estar integrada aos desenvolvimentos científicos, tecnológicos e sociais? E se esse futuro pudesse, desde já, ser pensado também para e pela a comunidade negra? Neste episódio, Ana Paula Xongani e Ricardo Morais recebem o escritor afrofuturista, Ale Santos, e o CEO da Infopreta, Akin Abaz, para debater o atual cenário para pessoas negras no mercado de trabalho e as soluções para torná-lo antirracista a partir das perspectivas afrofuturistas. Quer entender mais sobre esse conceito e saber como podemos transformar o futuro e o presente do mercado de trabalho? Ouça já esse episódio!

Veja as dicas de conteúdos que os participantes deixaram:

Ale Santos

Ale Santos | @savagefiction O Ale é um dos principais nomes do afrofuturismo brasileiro. Ele construiu sua reputação nas redes sociais com o Savage Fiction, contando sagas dos descendentes de africanos na história do Brasil que não aparecem nos livros escolares. A Savage Fiction se tornou uma consultoria de Entretenimento Estratégico de produção de cursos e palestras sobre Gamificação e Storytelling Interativo, onde o Ale é consultor. Ele também é autor do livro finalista do prêmio Jabuti, “Rastros de resistência: Histórias de luta e liberdade do povo negro”, lançado em 2019. Além disso, ele é host do podcast Infiltrados no Cast, é professor de entretenimento fantástico na ESPM, escreve para a Ponte Jornalismo, Superinteressante e The Intercept. É o Game Master e Designer da gamificação do maior evento de TI da América Latina, o IT Forum, trabalhou com a Storytellers Brand'Fiction, o primeiro escritório de Innovative Storytelling do Brasil.
Suas dicas extras no EP#25 foram:

- Edição Afrofuturo da revista FORBES
“A próxima edição da Forbes é uma edição especial sobre afrofuturo, vocês que estão ouvindo esse podcast, vão pegar a lista de muita gente preta desenvolvendo tecnologia e inovação na educação, no mercado financeiro, na comunicação, na música, uma edição feita por pessoas negras, desde o ilustrador, até os articulistas, eu escrevi ali também na introdução da revista, e fui do Conselho Consultivo, muito bacana, uma edição inovadora assim, uma edição que vai, que a gente espera que vire tendência no mercado, por que ela foi, é muito disruptiva, cara, de estar, de ter esse envolvimento e ter de entregar toda essa narrativa para a mão de tantas pessoas negras numa revista de tamanho nome assim, de tão importância para o mercado que é a Forbes, é uma construção que já está rolando há vários meses, eu acho que desde o ano passado, com várias pessoas pretas lá dentro conversando, e os editores abraçando todas essas ideias. Essa é uma das minhas dicas”

Ale emendou mais dicas: “Eu já falei aí do Criando Dion, que é uma série muito bacana aí, de superpoderes, e assim, para crianças, que eu gosto para caramba, eu gosto do Twilight Zone do Jordan Peele por que eu também tenho essa sacada que eu tenho esse meu lado nerd de literatura assim, de ficção científica. E Twilight Zone é clássico da década de 60, de ficção científica, mas foi reimaginado pelo Jordan Peele que é o cara que escreveu Corra, e esse também que é fantástico assim, eu amo tudo que ele faz, é um cara que eu me inspiro bastante como escritor assim, e um álbum amarelo do Emicida também, meu grande parceiro, amigo que eu amo e tudo que ele faz. E um livro que eu preciso indicar para todo mundo, porque é um livro que mudou muito a minha vida, que é o Sapiens, do Yuval Harari, e gosto muito dele, é um livro que ajuda bastante as pessoas a entenderem o poder de uma narrativa, o poder de uma história, impacto dela no nosso mundo. Ah, e também para fechar, eu tenho uma série de podcast, sobre afrofuturismo, que estavam infiltrados no Cast, três episódios, um sobre afrofuturismo na música, outro sobre afrofuturismo no cinema, e outro na literatura. Está tudo lá no Spotify.

Akin Abaz

Akin Abaz | @akinabaz | @infopreta Além de criador e CEO da InfoPreta, empresa precursora da diversidade no universo tecnológico, Akin também é palestrante, conselheiro com foco em pequenos e médios negócios e empreendedores, consultor de tecnologia e inovação com foco em diversidade e colunista na @tilt_uol. Costuma aliar criatividade e tecnologia da informação para inovar cada vez mais. A InfoPreta é a primeira empresa especialista em tecnologia no Brasil que tem por objetivo inserir pessoas negras, LGBTQI+ e mulheres no mercado de tecnologia. Tendo como serviço principal a manutenção de hardware e software de computadores de todas as marcas, alia a geração de lucros com projetos sociais de grande impacto, como o #NoteSolidárioDaPreta. Também recebe lixo eletrônico para efetuar o descarte correto em parceria com uma cooperativa sem fins lucrativos. A empresa possui mais de 30 colaboradores e promove consultoria e suporte presencial e remoto para empresas de pequeno e médio porte e desenvolve palestras, cursos e oficinas de tecnologia, inovação e empreendedorismo com foco em relações étnico-raciais, gênero e diversidade.
As dicas do CEO da Infopreta no EP#25 foram:

Akin: “Começar com música, porque um artista que sempre me acompanha, me acompanha desde o início, é Kamauu, o Rapper, quando você está assim, poxa, sem nada, impossível comer quando consegue tirar a essência. Bom, de leitura, cara, eu sou muito nerd, eu indico Scott Pilgrim, que não sei te explicar, eu amo demais o contexto do desenho, o modo perfeito, os quadrinhos, sou um cara meio estranho. E para estudo referente assim, eu vou bater o pé de novo na Nina da Hora, porque o quanto essa mina me ensinou a ter referência de algoritmo, referência de robótica, de estruturamento, de objetos, Nina sempre maravilhosa, em todas as dúvidas que eu peço para ela. Mas isso assim.”

Ricardo Morais: Wolo.tv
“Basicamente é a Netflix da diversidade, feita por brasileiros, focado para população negra e diversidade. Então apoiar a cultura nacional, apoiar mais, ter um pouco mais dessa visibilidade que a gente sempre falou aqui. “

Ana Paula Xongani:
“Hoje eu vou indicar o Instagram do Akin, que ele falou que não é um criador de conteúdo, mas ele é, então estou indicando. Vou indicar o TED da Nátaly Neri sobre afrofuturismo, que chama As Necessidades das Novas Utopias. E eu quero indicar, a gente falou sobre racismo intelectual, tem um livro que me lembrei, que é o Memórias da Plantação da Grada Kilomba, que fala muito sobre isso, e é uma ótima referência assim, indico todo mundo a ler.”

Beijos, da equipe Trampapo <3
Até a próxima!

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